Um mantra, “sonhar com um mundo novo”, e 14 amigos unidos pela missão de resgatar e transformar. Assim nasceu, há 25 anos, a Reserva Ecológica Porto das Antas, um santuário de 171 hectares de Cerrado nativo no município de Serranópolis, Sudoeste de Goiás. Agora, esse sonho coletivo alcançou sua maior garantia de perpetuidade: 144 hectares da área foram oficialmente reconhecidos como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), título federal que protege o território contra qualquer forma de desmatamento futuro.

Idealizada e mantida pelo professor de história e ambientalista Marco Antônio Gomes de Carvalho, o Marquinho, a Porto das Antas é, acima de tudo, a materialização de uma promessa de infância. A semente foi plantada décadas atrás, em uma fazenda dos avós. “A história tem… como é que eu diria… tem 44 anos de idade porque eu morava em uma fazenda linda dos meus avós”, relembra Marquinho em entrevista ao Jornal Opção.

Marco Antônio Gomes de Carvalho, o Marquinho | Foto: Arquivo pessoal

“Meu avô vendeu a fazenda ao preço de banana… porque não sabia as manhas do capitalismo… e eu falo que desde então eu fiquei sonhando em um dia ter uma área ambiental”, relembra.

Da ideia à conquista do território

Anos depois, já professor no Instituto Federal de Jataí, o sonho ganhou contornos concretos. No final dos anos 1990, durante uma partida de futebol, um colega paranaense lhe deu a dica que mudaria tudo. Ele falou: ‘olha, tem uma terra lá em Serranópolis que tem o perfil que você quer’”. Imediatamente, Marquinho foi conferir. “Fui lá olhar a terra e fiquei encantado porque tinha um cerrado lindo”, recorda.

Reserva Ecológica Porto das Antas | Foto: Divulgação

Contudo, o obstáculo era considerável: os recursos. “Eu não tinha um tostão… eu tinha dois mil reais”, afirma. Determinado, ele negociou um parcelamento. “Na hora de fechar o negócio o proprietário disse… ‘dois mil’ de entrada… e eu tinha dois mil reais”. Para completar o valor, ele partiu para a mobilização. “Aí eu fui buscar amigos… fiz contato com muita gente próxima… porque eu também não queria qualquer pessoa”.

Desse modo, reuniu um grupo de 14 pessoas, entre amigos e ex-colegas de faculdade, que acreditaram no projeto. “Foi com essa turma que eu cheguei até o final… que a gente conseguiu pagar”. A escritura foi assinada na virada de 1999 para 2000.

A constituição de uma sociedade para a natureza

O grupo fundador, que se constituiu como Sociedade Ecológica Porto das Antas, é um mosaico de profissionais unidos pela causa ambiental. Além de Marquinho, juntaram-se o biólogo e produtor cultural Levy Silvério da Silva Júnior, a psicóloga e professora Vera Lúcia de Paula Tavares, a cantora e compositora Antônia Rangel e o professor Glondes Naves. 

Da mesma forma, o antropólogo e professor Manoel Napoleão viu ali uma oportunidade de resgate, unindo-se também à auditora federal Silvinha de Brito, de Florianópolis, ao microempresário Helvécio de Paula Reis Sá, ao radialista Cláudio Silva e ao bancário e advogado Tadeu Alencar Osório Martins, de Rio Verde.

Posteriormente, completaram o quadro o jornalista Sérgio Prado e o professor linguista Eurípedes Alves Barbosa, ambos de Brasília, e Marcilene Dorneles da Cruz, da área cultural de Goiânia. Juntos, registraram a área como uma sociedade civil sem fins lucrativos.

Grupo de amigos da Sociedade Porto das Antas | Foto: Divulgação

O propósito era cristalino: proteger aquele fragmento de Cerrado. “Se não tivessem comprado a área, hoje ela seria pasto ou estaria tomada por ranchos de luxo na beira do rio, como aconteceu em propriedades vizinhas”, reflete Marquinho.

A rotina de cuidados e os desafios da preservação

Ao longo desses 25 anos, no entanto, a rotina de cuidados recaiu principalmente sobre os ombros do idealizador. “Há 25 anos estou praticamente sozinho… porque os sócios todos moram fora… e eu que idealizei… que arrastei a galera”, conta.

Ele construiu a sede simples com as próprias mãos, com a ajuda do amigo Manoel. O acesso, antes extremamente difícil, só melhorou porque um fazendeiro vizinho, interessado em escoar eucalipto, melhorou a estrada. “Agora a gente consegue ir até de carro”, explica, destacando a ironia de uma pressão antrópica indireta ter facilitado o acesso ao santuário.

Manter a reserva, portanto, tem sido um desafio logístico e de segurança. A propriedade sofreu três furtos, que levaram equipamentos valiosos, como um gerador. “Por isso, hoje eu ponho poucas coisas na casa”, lamenta.

Como resultado, um dos projetos mais urgentes é a instalação de um sistema de energia solar e monitoramento por câmeras. “Quero montar um complexo de energia com internet e monitoramento por câmera para que eu possa monitorar da cidade”, planeja. Atualmente, ele busca recursos via emendas parlamentares para viabilizar essa infraestrutura, essencial para receber pesquisadores com mais segurança e conforto.

Da soltura de animais ao reconhecimento federal

Apesar das dificuldades, as conquistas são marcantes. Desde 2017, a reserva é credenciada junto ao Ibama como área de soltura de animais silvestres. Desde então, já recebeu e reintroduziu na natureza lobos-guará, bugios e até uma onça-parda. “A história de todos os animais que eu devolvi pra natureza me emocionam. A onça parda foi muito emocionante, porque é um felino muito poderoso”, compartilha.

Um caso que exemplifica as histórias é o da soltura de um lobo-guará, em outubro de 2023, que havia sido resgatado filhote, acidentado, e passou por um longo processo de reabilitação em uma fazenda em Aporé. “É um desafio maior… você soltar um bicho que se machuca adulto”, explica. A ação ganhou repercussão nacional, sendo noticiada até pela TV aberta. 

Reserva Ecológica Porto das Antas | Foto: Divulgação

Todavia, o ápice burocrático e simbólico veio no final de 2024, com a publicação do decreto federal que oficializou parte da área como RPPN. Para Marquinho, isso é uma estratégia de perpetuação. “O Porto das Antas sou eu. Eu morrendo, o Porto das Antas corre risco. Então eu agilizei esse processo da RPPN. Entreguei os anéis para salvar os dedos”, analisa.

O fascínio pela anta e os planos futuros

O nome da reserva não é por acaso. O animal que mais encanta Marquinho é a anta, o maior mamífero terrestre das Américas. “A gente deu o nome de Porto das Antas porque tem bastante antas na região… é o animal que eu sou mais fascinado… pelo tamanho… de 300 quilos… e que eu chamo de um mini-elefante”.

Ele destaca seu papel ecológico: “É conhecida como a jardineira das florestas. As fezes dela semeiam toda a natureza”.

Por consequência, seu próximo grande projeto é criar um centro de reabilitação e reintrodução de antas na reserva. “Eu quero pegar filhotes… para reintroduzir na natureza”. Para isso, planeja cercar uma área de aproximadamente um hectare para a aclimatação dos animais. “Esse projeto aí eu vou gastar pelo menos uns 100 mil”, estima.

O plano é iniciar a especialização após sua aposentadoria do IF. “Vai ser meu trabalho depois de aposentado”.

A conexão de Marquinho com a fauna vai muito além da gestão da reserva; é um princípio ético que guia sua vida pessoal. Há 40 anos, ele adotou o vegetarianismo por uma razão específica. “Meu vegetarianismo é pura e simplesmente por amor aos bichos”, declara. 

Ele relembra que a decisão amadureceu desde a infância. “Desde criança me incomodava essa ideia de matar os bichos para comermos. Até que eu falei: não, não quero participar dessa vibe não. Então eu estou há 40 anos sem consumir carne, parei em outubro de 1985.”

A filosofia: pesquisa sim, turismo tradicional não

A reserva já possui seu Plano de Manejo aprovado, documento que traça as diretrizes para o uso do território. Nele, fica claro: a prioridade é a pesquisa e a educação ambiental. “Jamais turismo tradicional. A nossa área está aberta para pesquisas, escolas, ações educativas”, enfatiza Marquinho.

Interessados devem contatá-lo diretamente, apresentando um projeto que será submetido à Sociedade Ecológica. “Tem que me procurar, apresentar o projeto… naturalmente, quando eu dou o endosso, é só o protocolo mesmo”, explica. Já há parcerias em gestação com a Universidade Federal de Jataí (UFJ).

Incêndios, a luta constante e o “beija-flor” realista

Uma das maiores ameaças à reserva são os incêndios, muitos deles criminosos. Em 2018, Marquinho protagonizou um feito heróico. Ao saber que um fogo se aproximava, ele e três amigos usaram a técnica do contrafogo para salvar a área. “Eu meti o contrafogo. O fogo estava a 30 metros da reserva… e conseguimos”.

Uma semana depois, imagens de drone mostraram 1250 hectares queimados no entorno, com a reserva intacta no meio. “Pra mim, foi uma das coisas mais incríveis que eu fiz na minha vida”. A partir dessa experiência, ele articulou com a prefeitura local a criação de uma brigada de incêndio municipal. “Foi bom que gerou um movimento político… além do ato heroico, de traduzir isso num gesto político de denúncia”.

Marquinho se define como um realista. “Eu não admito ser chamado de pessimista. Eu sou realista”. Usando uma metáfora célebre, ele se vê como o beija-flor que tenta apagar o incêndio sozinho. “A sensação que eu tenho é essa”. Sua referência é a música Primavera nos dentes, dos Secos & Molhados. “O verso final diz… ‘e envolto em tempestade, decepado. Entre os dentes, segura a primavera’. Pra mim é isso. A gente está decepado e segurando a primavera”.

O documentário e o legado que inspira

A história da reserva agora também está registrada em filme. O documentário “Porto das Antas”, dirigido por Amanda Costa e Fausto Borges, teve várias sessões prévias em 2024 e estreia oficial em maio de 2025 no Cine Cultura de Goiânia. O longa, financiado via Lei Paulo Gustavo, capta a essência da luta de 25 anos. “Como eu gosto muito de cinema, fui produtor… e temia o resultado… mas eu gostei muito… acho que é um documentário muito bacana”, comenta Marquinho.

O maior legado da Porto das Antas talvez seja o poder de inspirar. Ela já definiu o rumo profissional de um ex-aluno de Marquinho, Victor Bassani, que, após se encantar com o trabalho na reserva, decidiu se tornar veterinário especializado em animais silvestres. “É um dos meus maiores orgulhos. O Porto das Antas definiu a profissão de uma pessoa”, celebra.

À beira da aposentadoria, Marquinho segue com o mesmo mantra dos primórdios: “sonhar com um mundo novo”. Sua trajetória, entrelaçada com a da reserva, é a prova de que sonhos coletivos, ainda que mantidos pela teimosia de poucos, podem criar ilhas de resistência e esperança em meio à tempestade.

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