Conheça a história da ‘Missão Vida’: pioneira no Brasil que resgatou mais de 50 mil pessoas em situação de rua em Goiás
02 abril 2026 às 12h18

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Apenas no último quadriênio (2021-2024), a instituição social Missão Vida, criado em Anápolis, acolheu 11.907 pessoas em situação de rua, serviu 860.675 refeições, atendeu 2.598 crianças e realizou 31.646 distribuições de porções de sopa diretamente nas ruas. Contudo, esses números recentes são apenas um capítulo de uma história muito mais antiga e que conta com cerca de 50 mil vidas transformadas. O trabalho começou há 43 anos, em 1983, quando um adolescente goiano decidiu questionar o que ninguém mais perguntava.
Hoje, a Missão Vida opera em 11 localidades do Brasil, incluindo Goiás, Paraíba, Paraná, Minas Gerais, Brasília, Bahia, Manaus, Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco, e mantém um núcleo internacional em Madagascar, na África. Além disso, a instituição funciona em três etapas já bem definidas: triagem, recuperação e reintegração. Porém, para entender a dimensão desse trabalho, é preciso voltar ao começo. Portanto, vamos à origem.
O menino de 13 anos e o amigo que morreu na rua
Em entrevista ao Jornal Opção, Henrique Borges dos Anjos, atual presidente da Missão Vida e filho do fundador, contou em detalhes como tudo começou. “Quem fundou e iniciou o trabalho, foi o meu pai, o pastor Wildo dos Anjos”, afirmou.
Henrique explicou que, ainda muito jovem, seu pai já demonstrava uma sensibilidade incomum. “Meu pai, com 13 anos de idade, já ia para o trabalho e tinha alguns caminhos que ele podia ir. O pai dele colocou todos os filhos para começar a trabalhar bem cedo”, lembrou.
Naquela época, por volta de 1975, era comum que crianças trabalhassem muito mais cedo. No trajeto até a fábrica de café, o jovem Wildo sempre escolhia o mesmo caminho: aquele onde pessoas em situação de rua viviam embaixo das marquises das indústrias no centro da cidade.
“Ele sempre foi muito questionador, e se questionava por que uma pessoa deixa a sua casa, deixa seu trabalho, sua família, deixa tudo para viver na rua. O que faz alguém fazer isso?”, relatou Henrique. Então, Wildo começou a conversar com essas pessoas.

Até que um deles se identificou com aquele garoto. “Eles desenvolveram uma amizade. Essa amizade durou quase um ano. Todos os dias o Wildo saía de casa e eu levava um pão com café para ele”, contou Henrique, reproduzindo a história do pai.
Ele sentava com o conhecido senhor João, e a conversa se repetia diariamente. No entanto, depois de quase um ano dessa rotina, o amigo faleceu na rua. “Ele não sabe por que, mas um dia de manhã ele foi levar o café e ele já não estava mais com vida. Ele chegou lá e percebeu o corpo dele já enrijecido, e percebeu que ele tinha falecido naquela noite ali”, descreveu Henrique.
A cena marcou o adolescente para sempre. “Ele assistiu essa cena assim e chorou muito. Para ele era como se estivesse perdendo um tio muito querido, uma pessoa muito querida.”
A conversão e o primeiro folheto
Depois dessa perda, Wildo cresceu, mas a pergunta ainda rondava em sua mente: o que ele poderia ter feito de diferente pelo senhor João? Aos 18 anos, entretanto, uma mudança que Henrique descreve como “radical” aconteceu. “Ele foi em um acampamento e se converteu, entregou a vida para Jesus e quis fazer alguma coisa diferente”, contou Henrique.
Inicialmente, seu pai começou com uma oração. “‘Deus, se o senhor ama a vida dessas pessoas que estão na rua, eu quero que o senhor use a minha vida para poder fazer diferença na vida delas.’”
Em seguida, passou a sair de casa levando folhetos para evangelizar. Contudo, uma experiência específica o fez parar. “Uma vez, ele estava em um beco escuro e ele ia sozinho, isso com 20 anos de idade. Um deles chegou para ele, um pouco drogado, e falou: ‘Você vem aqui e fala que Deus me ama, mas Deus nem existe. Como que Deus me ama e me deixa viver na rua? Como que Deus existe e me ama e me deixa passar fome?’”, reconta Henrique a história de seu pai.
Por duas semanas, Wildo interrompeu a distribuição dos folhetos. Então, ele buscou novas estratégias. Foi assim que sentiu no coração a vontade de não apenas levar folhetos, mas também sopa nas ruas. “E ali ele nem sabia, mas ele estava começando a Missão Vida”.
O primeiro acolhido: o poeta violento que tinha 30 anos de rua
O trabalho começou a ganhar corpo de verdade quando uma das pessoas em situação de rua aceitou a conversão cristã proposta por Wildo. “Ele falou: ‘Olha, não tem como deixar essa pessoa aqui mais na rua’, (ele) era o senhor Antônio”.
Então, Wildo começou a pagar um quarto de pensão para ele. “O senhor Antônio era uma pessoa muito conhecida na cidade. Era um morador de rua muito violento. Ele era conhecido como o poeta, porque ele era uma pessoa estudada, tinha feito alguns anos de faculdade de Direito. Quando ficava bêbado e drogado, ele recitava poemas pela cidade.”
Esse homem, que passou mais de 30 anos nas ruas, foi o primeiro fruto da missão. Depois dele, vieram outros. Wildo, então, percebeu que estava gastando praticamente todo o seu salário de funcionário público com as pensões. Foi então que o próprio senhor Antônio deu uma ideia: “Por que você não constrói um lugar para a gente poder ficar e a gente poder viver e trabalhar?”
A questão, entretanto, era que Wildo não tinha o dinheiro. Mas para ele desistir não era uma opção. Ele orou, pediu ajuda na igreja, mas sentiu no coração que deveria usar a única reserva que possuía: o dinheiro que juntava desde os 13 anos para comprar um carro zero.
“Era o sonho de vida dele. E ele pegou esse dinheiro. E com a mão de obra do próprio pessoal, eles construíram – na verdade, reformaram um pequeno imóvel de meia loja. E fizeram, então, o primeiro centro de recuperação de moradores de rua do Brasil”, destacou Henrique. “A Missão Vida nasce assim. Não tinha nenhum outro trabalho que fizesse isso na época.”
A estrutura atual: triagem, recuperação e reintegração
Segundo Henrique, a estimativa de pessoas que tiveram suas vidas transformadas pela Missão Vida é de cerca de 50 mil pessoas, e atualmente, a instituição opera em três etapas. A primeira é a triagem, por meio do programa que chamam de SSS: Sopa, Sabão e Salvação. “A gente vai na rua, leva a sopa – até hoje é a sopa – e aborda as pessoas que estão nas ruas em várias cidades do Brasil. A gente faz esse trabalho pelo menos uma vez por semana”, explicou Henrique.
Nessa fase, a pessoa conhece a Missão Vida e recebe os primeiros atendimentos médico, odontológico e psicológico. Em seguida, vem a segunda etapa: a recuperação, que dura sete meses em regime de tempo integral. “É importante ressaltar também que todo o tempo que a pessoa fica com a gente é gratuito. Ela não paga nada para ficar conosco”, enfatizou.
A última etapa é a reintegração. “Eu acho que é um grande diferencial”, disse Henrique. Durante a recuperação, a equipe de assistência social restabelece o contato com a família, recupera documentos e prepara o retorno. Na reintegração, a pessoa volta para a sociedade ou para a família. Para aqueles que não têm mais família, a Missão Vida oferece um lugar onde podem ficar e ajudam na busca por trabalho e emprego.

E diferentemente do que muitos imaginam, a maior parte da receita da Missão Vida não vem de grandes convênios. “Hoje 80% da receita da Missão Vida vem através de doações de pessoas do Brasil todo, que doam uma parte de R$30,00 por mês. São milhares de pessoas doando R$30,00, R$50,00, R$100,00. Tem gente que doa mais. Mas a grande maioria é de R$30,00”, detalhou Henrique.
Além disso, a organização mantém alguns convênios municipais em cidades como Anápolis (onde o projeto nasceu), porém, “depende muito da Prefeitura Municipal. O tipo de convênio que ela fornece, a verba que ela destina para essa parte social. A gente tenta correr atrás disso também, mas a grande maioria da receita do trabalho é através de doações pequenas.”
Henrique conta mas vive a história do legado após a doença do pai
Henrique confessou que nunca imaginou assumir a presidência. “Eu confesso que eu nunca tinha pensado em atuar dentro da Missão Vida. Até eu começar a atuar de verdade”, disse. Ele vinha de uma família de empresários pelo lado materno, formou-se em área ligada à construção e tinha sua própria construtora.
Sua entrada na organização aconteceu de forma gradual, inicialmente para ajudar em uma obra em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. “Mas o meu pai adoeceu no ano de 2021. Que foi pouco depois que eu entrei de forma oficial dentro da Missão Vida. E quando eu percebi, eu já estava assumindo muita coisa”, contou.

“Eu cresci vendo isso. Não era algo que eu estava conhecendo no trabalho naquele momento. Eu cresci dentro desse meio também. Eu sempre imaginei ajudar de alguma forma, ajudando de forma financeira, participando da assembleia, mas não de forma integral. Principalmente não como presidente”, enfatizou.
No final de 2023, houve uma votação e Henrique foi eleito por unanimidade. No início de 2024, seu pai deixou a presidência. “Em agosto de 2025 ele faleceu”, informou Henrique. “Foi acontecendo, de forma muito gradativa. Porque eu cresci dentro desse meio, dentro de casa, vendo meu pai como um exemplo.”
Papel da fé no Missão Vida é essencial, mas não impositivo
Quando questionado sobre o papel da fé no trabalho, Henrique foi direto. “A pessoa crer ou não crer em Deus é algo muito individual. Não dá para ser forçado, não dá para ser imputado dentro de uma pessoa”, afirmou.
Ele explicou a perspectiva da instituição: “Eu fui amado primeiro. Jesus amou a minha vida primeiro e morreu por mim. Nada mais justo do que eu retribuir isso de alguma forma, assim como Ele ensinou que a gente deveria amar o nosso próximo como a nós mesmos. E começar a fazer isso também com as pessoas que estão abandonadas pela sociedade, que são consideradas invisíveis.”
Henrique ressaltou que a fé não é algo que a Missão Vida possa criar na pessoa. “A própria pessoa tem que desenvolver isso. O que a gente espera é que, durante esse tempo que a pessoa fica conosco, ela entenda que a gente faz isso muito mais do que porque a gente é uma pessoa boa. Sou uma pessoa como qualquer outra. Sou uma pessoa ruim até, se a gente for parar para pensar. Mas Jesus me amou e me constrangeu a fazer o mesmo por outra pessoa.”
“Se eu fosse descrever em uma palavra o papel da fé, para mim é essencial”, concluiu.
Entre muitas, duas histórias exemplificam a Missão Vida
Quando questionado sobre as vidas e histórias que passaram pela fundação, Henrique parece ter sentido um turbilhão de memórias em sua mente, entretanto, ele decidiu contar duas que mantém a integração mais do que viva em memória e presença até hoje.
O primeiro é do pastor Douglas, atual coordenador executivo da Missão Vida. “Ele entrou na Missão Vida há mais ou menos há 18 anos. Ele vivia nas ruas de São Paulo, usava crack. Deixou a família, já tinha um filho, o casamento acabou”, contou.
Alguém o encontrou na rua, levou alimento e deu um abraço todos os dias. “Isso foi deixando ele tão constrangido que ele quis buscar ajuda.” Depois de passar por seis casas de recuperação, ele encontrou a Missão Vida. Concluiu o programa, tornou-se obreiro, depois líder de núcleo e, hoje, é coordenador executivo. “Ele cuida de quem cuidou dele um dia”, resumiu Henrique.
A segunda história é a do Josete, artista plástico que viveu mais de 20 anos nas ruas. “Ele trabalhou na Rede Globo, trabalhou em várias empresas grandes”, lembrou Henrique, que conta que ele acabou se perdendo na vida e caindo nas dificuldades da situação de rua.
Mas, após passar pelo programa da Missão Vida, Josete reviveu em mente, vida e criatividade, viajando o país pintando telas ao vivo durante as pregações em igrejas. “Ele caminhou com a gente por mais de 31 anos. Até que ele teve câncer e faleceu no ano de 2019”, contou, ressaltando que, em todo o resto de sua vida, Josete esteve com a Missão Vida.
O documentário feito sem dinheiro da missão
Um dos projetos mais recentes é o documentário de 83 minutos, “O Louco dos Mendigos”, que conta a história da organização. “Nasceu a partir de um sonho que era muito distante. O sonho de contar a história da Missão Vida de uma forma visual que realmente retratasse, de forma resumida – até porque são 43 anos de história – mas ao mesmo tempo muito completa”, explicou Henrique.
O filme foi idealizado por seu pai, Wildo dos Anjos, que procurou produtoras até conhecer Jefferson, da agência Viraliza. “Ele comprou essa ideia. Ele entendeu que a história não era uma história comum.” Com recursos próprios de Wildo e o apoio de Jefferson, o filme contou com artistas amadores que nunca tinham atuado. “O filme todo foi gravado em duas semanas. Foi muito rápido”, contou Henrique.
“Depois que o filme ficou pronto, a gente ficou muito surpreso com o resultado. Por mais que a gente tivesse grandes expectativas, a gente não imaginava que conseguiria resumir de forma tão profunda, em 83 minutos, uma história de 43 anos.”
Confira o trailer do filme:
Para a felicidade da família de sangue e da construída com o altruísmo na Missão Vida, Wildo chegou a ver o filme pronto em 2023 antes de falecer.
“É importante ressaltar que todo o filme foi construído sem nenhum real da Missão Vida, do trabalho em si. Foi tudo com dinheiro externo, inclusive do meu pai mesmo”, enfatizou Henrique. Posteriormente, a produção conquistou um prêmio de R$ 200 mil em um edital de cultura de São Paulo para a distribuição.
Quais os desafios de hoje na Missão Vida?
Segundo Henrique, atualmente, os maiores desafios da organização são dois. O primeiro é a construção do núcleo em Madagascar, na África Oriental. “São duas instituições, dois CNPJs, mas a administração é feita pelas mesmas pessoas. Demanda um valor muito alto, uma logística muito grande. Fazer uma construção em outro continente é uma coisa muito complexa”, admitiu Henrique.

O segundo desafio é encontrar pessoas boas para se engajar no trabalho. “A gente tem muitos casos de pessoas que trabalham na Missão Vida e ficam mais de uma década. Inclusive, tenho alguns nomes aqui na cabeça de pessoas que estão com a gente há mais de 20 anos”, disse.
No entanto, ele observa uma mudança de mentalidade entre os mais jovens. “A dificuldade da pessoa permanecer em um lugar por muito tempo, como era antigamente. Isso acaba afetando a gente.”
A Missão Vida hoje mantém mais de 200 colaboradores contratados sob o regime CLT. O pagamento dos salários, assim como todas as despesas, vem exclusivamente das doações. “A gente é uma empresa do terceiro setor. É como uma empresa convencional, só que o nosso faturamento, em vez de ser através de vendas, é através de doações”, explicou Henrique.
Os valores que norteiam a organização são seis: respeito à dignidade humana, atuação com ética e justiça, confiança na transformação pela fé e princípios cristãos, transparência, valorização da equipe, e educação e capacitação.
Wildo Gomes dos Anjos, o fundador, nasceu em 10 de janeiro de 1963 em Corumbá de Goiás. Casou-se com Rosane Borges Gomes em 1988 e deixou quatro filhos: Luiza, Henrique, Deborah e Gabriela. Seu legado segue vivo a cada vida reconstruída e a cada nova mudança para um mundo melhor.
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