Conflito no Oriente Médio pode elevar custos do agro e afetar exportações de milho, avalia setor
07 março 2026 às 21h00

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A escalada do conflito envolvendo o Irã e a instabilidade no Oriente Médio acenderam um sinal amarelo para o agronegócio brasileiro. Em 2025, o comércio bilateral entre Brasil e Irã girou em torno de US$ 3 bilhões, com predominância do milho.
Apesar de o país persa representar apenas 0,84% das exportações brasileiras, dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que as vendas brasileiras para Teerã somaram US$ 2,9 bilhões no ano passado, consolidando o Irã como o quinto principal destino das exportações nacionais no Oriente Médio.
Segundo a Delara Agronegócios, na última temporada, 22% do milho exportado pelo Brasil teve o Irã como destino, o que corresponde a 9,3 milhões de toneladas. No caso da ureia, o país do Oriente Médio responde por cerca de 15% das importações brasileiras do fertilizante.
Outro ponto sensível envolve a logística global de insumos agrícolas: aproximadamente 45% do enxofre comercializado no mercado internacional passa pelo Estreito de Ormuz. Pela mesma rota transitam cerca de 30% da ureia e quase 20% da amônia, produtos essenciais para a produção de fertilizantes.
Em um estado como Goiás, um dos principais produtores nacionais de grãos, os reflexos podem ser sentidos tanto na ponta da exportação quanto nos custos de produção, embora não haja, até o momento, interrupção formal nas relações comerciais, dado o período recente do conflito.
No entanto, produtores, cooperativas e entidades de classe avaliaram ao Jornal Opção três frentes de impacto imediato: petróleo, fertilizantes e contratos internacionais. O Oriente Médio é eixo central do mercado global de energia.
Qualquer tensão envolvendo o Irã, país estratégico na região pelo estreito de Ormuz, tende a impactar o preço internacional do petróleo, que disparou mais de 20% na semana o Brent. Na sexta-feira, 6, o barril chegou a U$ 87,30.
Além do aumento do preço do petróleo, a valorização do dólar também é um indicador que costuma reagir rapidamente a crises geopolíticas. Embora os efeitos diretos ainda sejam incertos, a avaliação geral é de que o setor acompanha o cenário com atenção, principalmente porque os custos de produção já estão pressionados.

Para o gerente técnico do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (IFAG), Leonardo Machado, os primeiros sinais de impacto já aparecem em dois indicadores centrais da economia global: petróleo e dólar. Em entrevista ao Jornal Opção, o especialista explicou que o aumento do preço do petróleo tende a afetar diretamente o custo de produção agrícola.
“O primeiro reflexo é o aumento do petróleo. Aquela região é altamente produtora e por ali passa grande parte do petróleo do mundo. O barril já ultrapassou a casa dos US$ 100, o que é um preço elevado. Isso impacta diretamente no preço dos combustíveis, como gasolina e diesel”, afirmou.
Como o diesel é um dos principais insumos logísticos do agronegócio, a alta tende a pressionar o transporte de insumos e da produção agrícola. Sobre o dólar, Machado diz:
“Em momentos de crise, os investidores saem de posições consideradas mais arriscadas e migram para ativos seguros, como o Tesouro americano. Para fazer isso, eles precisam comprar dólar, e isso faz a moeda subir”, explicou Machado.
Segundo ele, essa valorização impacta economias emergentes, como a brasileira. “Quando o dólar sobe mundialmente, ele acaba apertando toda a economia, porque encarece diversos custos ligados ao comércio internacional.”
Fertilizantes entram no radar
Além de petróleo e câmbio, a produção de fertilizantes também preocupa o setor. O Oriente Médio concentra parte relevante da produção mundial de ureia, fertilizante nitrogenado essencial para culturas como o milho.
“Ali na região do Oriente Médio se produz grande parte da ureia consumida no mundo. Não é só o Irã, mas também Emirados Árabes e outros países da região”, explicou. Segundo Machado, a elevação do preço desse insumo pode impactar diretamente o custo agrícola.
“A ureia já subiu bastante. Para o produtor que ainda não comprou fertilizante para a safrinha, ele pode ter que pagar mais caro agora.” O especialista alerta que isso pode gerar efeito em cadeia na produção agrícola.
“Se o fertilizante fica mais caro, o produtor pode reduzir a aplicação. Isso pode diminuir a produtividade e, consequentemente, a produção de milho. O Irã foi um dos principais compradores de milho brasileiro no ano passado. Se esse conflito escalar e o país tiver dificuldades econômicas ou logísticas, podemos ter um demandante importante saindo do mercado.”
Nesse cenário, o excesso de oferta poderia pressionar os preços internos. “Se esse comprador sair do mercado, isso pode impactar o preço do milho.” Machado destaca que o custo com fertilizantes é um dos componentes mais relevantes na produção agrícola.
“No caso do milho, os fertilizantes representam cerca de 30% do custo total de produção. Se a ureia subir, isso impacta diretamente esse custo.” Para a soja, o peso também é significativo, embora um pouco menor. “Na soja, os fertilizantes representam cerca de 25% do custo total, mas o uso de ureia é menor que no milho.”

Biodiesel pode puxar preço da soja
Outro possível efeito indireto da alta do petróleo é o aumento do preço do biodiesel, que utiliza óleo de soja como matéria-prima. “Se o preço do diesel subir muito, o biodiesel também tende a subir. E uma das principais matérias-primas do biodiesel é o óleo de soja. Isso pode puxar o preço da soja.”
Apesar de alguns fatores positivos, como a valorização do dólar para exportações, o cenário geral ainda preocupa. “O produtor hoje já trabalha com custo de produção elevado e crédito caro. Tudo isso pressiona muito a margem do agricultor”, afirmou.
Segundo Machado, a situação é agravada pelo contexto econômico recente. “Temos um produtor com custos altos, preços já pressionados e juros elevados. Esse cenário internacional só torna a situação ainda mais complexa.”
Se a crise geopolítica se prolongar, os efeitos podem se ampliar. “No curto prazo, o impacto principal é o aumento de custos. Mas se o conflito durar meses, podemos ter impacto também nos preços das commodities.”
Isso poderia gerar efeitos mistos. “Podemos ter impactos positivos, como a valorização do dólar e das commodities, mas também negativos, como aumento de custos e perda de compradores.”
Diante da instabilidade internacional, o especialista recomenda cautela aos produtores. “O produtor precisa trabalhar para reduzir ao máximo a exposição ao risco.” Entre as estratégias, ele cita o controle rigoroso dos custos e a venda antecipada da produção.
“É fundamental ter o custo de produção na palma da mão e trabalhar ferramentas de travamento de preço.” Segundo ele, o maior risco é produzir sem garantia de retorno financeiro. “O grande problema é produzir e vender por um preço que não paga nem o custo. Isso deixa o produtor endividado.”
Para Machado, o principal impacto imediato para o produtor goiano deve ocorrer pelo lado dos custos. “Hoje, o principal risco para o produtor é o custo de produção. É isso que mais pesa no curto prazo.”
Ele também destaca que o cenário internacional está cada vez mais complexo. “Estamos vivendo um cenário de maior polarização geopolítica, com disputas entre blocos como Estados Unidos e um eixo formado por China, Rússia e Irã. Isso aumenta o risco no comércio internacional.”

Corecon-GO
Em entrevista ao Jornal Opção, a presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-GO) Adriana Pereira de Sousa explicou que a alta do petróleo tende a pressionar diretamente os custos operacionais da produção agrícola, especialmente em um país com forte dependência do transporte rodoviário.
“Como a gente vive em um universo em que tudo está interligado, esse conflito lá no Oriente Médio impacta diretamente o preço internacional do petróleo. E como o Brasil depende intensamente do transporte rodoviário e da mecanização da agricultura, esse aumento do combustível impacta diretamente o custo operacional do agronegócio”, afirmou.
Segundo ela, o impacto também se estende ao escoamento da produção agrícola. “O aumento do diesel eleva o custo logístico, tanto no transporte de insumos quanto no transporte da produção até os portos.”
Ao mesmo tempo, a valorização do dólar, fenômeno comum em momentos de instabilidade internacional, pode trazer um efeito compensatório para exportadores brasileiros. “O aumento do dólar tende a tornar o agronegócio mais competitivo no mercado internacional. Quando o dólar sobe, geralmente as exportações aumentam”, explicou Adriana.
Ainda assim, há um efeito negativo em relação aos insumos importados. “Pode acontecer de alguns insumos ficarem mais caros por causa do dólar, mas geralmente o impacto positivo nas exportações acaba sendo maior do que a dificuldade gerada pelas importações.”
Um dos principais pontos de preocupação para o agronegócio brasileiro é a dependência de fertilizantes importados, especialmente de regiões afetadas por conflitos geopolíticos. Segundo Adriana, a guerra na Ucrânia já havia pressionado o mercado desses insumos, situação que pode se agravar com a nova crise no Oriente Médio.
“O Brasil depende muito de fertilizantes importados da Europa e daquela região. Com esse novo conflito, pode acontecer um aumento ainda mais acentuado no preço desses insumos.” Ela ressalta que a intensidade do impacto dependerá da duração da crise.
“No curto e médio prazo, os preços de fertilizantes tendem a subir bastante se o conflito se prolongar.” Com o dólar mais alto, o efeito pode ser ainda mais significativo. “O dólar valorizado e o aumento do preço dos fertilizantes no mercado internacional tendem a impactar negativamente o agronegócio brasileiro e, consequentemente, o agronegócio goiano.”
Cadeia global pode se reorganizar no longo prazo
No longo prazo, porém, a economista acredita que o mercado internacional pode se adaptar. “Se o conflito durar muito tempo, outros países podem investir na produção de fertilizantes, inclusive o próprio Brasil. Isso pode provocar uma reorganização da cadeia global e equilibrar os preços.”
Adriana afirma que ainda é cedo para medir com precisão os impactos econômicos da crise, já que o conflito é recente. “Não dá para estabelecer agora um valor específico de impacto, porque não sabemos quanto tempo essa crise vai durar.”
Segundo ela, mesmo que um eventual ataque militar dure poucas semanas, os efeitos econômicos podem persistir. “Mesmo que a ofensiva dure três semanas, por exemplo, o impacto sobre o mercado de petróleo já terá ocorrido. O mercado internacional fica abalado e leva tempo para se estabilizar.”
Outro ponto observado pelos economistas é o possível impacto da crise sobre a política monetária brasileira. Caso o aumento do petróleo pressione a inflação, o Banco Central poderia rever decisões sobre a taxa de juros.
No entanto, Adriana avalia que uma alta da Selic não seria a resposta adequada se o problema vier do lado dos custos. “Quando o Banco Central aumenta os juros, ele está tentando conter a demanda. Mas quando a inflação vem do aumento de custos, como o petróleo, elevar juros pode piorar a situação.”
Ela acredita que a tendência continua sendo de redução gradual da taxa básica. “Provavelmente o Banco Central deve seguir com a redução da taxa de juros para proporcionar melhores condições de produção para o setor produtivo, incluindo o agronegócio.”
Para Adriana, os impactos da crise internacional dependerão diretamente da intensidade e da duração do conflito. “Se for um conflito rápido, o impacto provavelmente será administrável, com alguns ajustes de custo e compensações no mercado internacional.”
Por outro lado, uma crise prolongada pode pressionar margens de lucro e investimentos. “Se o conflito se estender por muito tempo, pode haver redução das margens e até dos investimentos no setor.”
Ela destaca que produtores menores tendem a ser os mais vulneráveis. “Os produtores menores podem sofrer mais, porque o aumento do custo de produção pode impactar diretamente a capacidade de manter o nível de produção.”

Produtores
Os efeitos do conflito no Oriente Médio ainda não chegaram de forma direta às lavouras brasileiras, mas produtores rurais já acompanham com atenção os desdobramentos do cenário internacional, especialmente em relação ao mercado de fertilizantes.
Em Cristalina, o produtor Leandro Fogolin afirma que o maior risco no momento está na oferta de ureia, fertilizante nitrogenado essencial para diversas culturas. Segundo ele, apesar da alta recente do petróleo, ainda não houve impacto imediato no preço do diesel no Brasil.
“O diesel tem uma paridade de exportação. Ele não sobe da noite para o dia por causa de um conflito que acabou de acontecer”, explicou em entrevista ao Jornal Opção. Fogolin afirma que o repasse desses aumentos tende a ocorrer com atraso.
“Esses reflexos no petróleo demoram algum tempo para chegar até o consumidor final. Até agora não houve aumento do diesel no Brasil.” O produtor também destaca que o aumento recente do frete no Centro-Oeste não está relacionado ao conflito internacional, mas sim à dinâmica da colheita.
“O frete aumentou um pouco, mas isso aconteceu por oferta e demanda. Estamos no período de safra e a procura por transporte cresce muito.” O principal ponto de alerta, segundo Fogolin, está no mercado de fertilizantes nitrogenados, especialmente a ureia, amplamente utilizada na agricultura.
Ele afirma que o preço desses insumos já vinha subindo antes mesmo do conflito. “Os fertilizantes nitrogenados já estavam em alta desde a safra passada. E agora, nos primeiros meses deste ano, já superaram os preços do ano passado, que já tinham sido elevados.”
O problema pode se agravar por causa da dependência brasileira da produção externa. “O Irã é o maior produtor global de ureia, e o Brasil é o maior importador desse produto vindo de lá.” Segundo Fogolin, o mercado brasileiro já enfrenta escassez.
“No Brasil já não existe ureia disponível até abril ou maio.” A falta do insumo pode afetar diretamente algumas culturas. “Isso deve atrapalhar principalmente os produtores de trigo, que podem ficar sem esse fertilizante.”

Mercado de milho pode aquecer
O produtor acredita que a escassez de fertilizantes e mudanças na produção internacional podem provocar impactos no mercado de grãos. “Os Estados Unidos provavelmente vão diminuir a área plantada de milho, e isso pode aquecer ainda mais o mercado aqui no Brasil.”
Segundo ele, a tendência pode ser de alta nos preços do cereal. “Isso deve fazer com que os custos e os preços do milho subam na próxima safrinha.” Ao contrário do que costuma ocorrer em cenários de crise internacional, Fogolin afirma que o comportamento recente do câmbio não favoreceu os produtores brasileiros.
“Na verdade, o dólar não aumentou. Pelo contrário, ele tem se desvalorizado no mundo e o real acabou se valorizando frente à moeda americana.” Esse movimento reduziu o preço das commodities no mercado interno.
“Isso fez com que os preços das commodities caíssem aqui no Brasil, o que prejudica a lucratividade do produtor.” Segundo o produtor, o agronegócio brasileiro já enfrenta dificuldades financeiras nos últimos anos.
“As margens estão muito apertadas. Nos últimos três ou quatro anos o setor tem sofrido bastante.” Entre os fatores que pressionam o setor estão os custos de produção e problemas climáticos.
“O clima tem afetado muito as lavouras, especialmente no Sul, onde muitos produtores perderam colheitas inteiras.” Esse cenário tem deixado parte dos agricultores em situação financeira delicada.
“Muitos produtores que estavam alavancados hoje estão com a corda no pescoço.” Fogolin afirma que a capacidade de gestão financeira tem sido determinante para atravessar momentos de instabilidade.
“Aqueles que têm gestão mais eficiente, fluxo de caixa e uma comercialização mais assertiva conseguem atravessar esses ciclos com mais tranquilidade.” No mercado internacional, o produtor lembra que a demanda global de soja ainda é liderada pela China.
“Cerca de 70% da soja que o Brasil exporta vai para a China.” No entanto, mudanças nas relações comerciais entre chineses e americanos podem alterar o fluxo do comércio.
“A China fez um acordo com os Estados Unidos para comprar milhões de toneladas de soja americana. Isso pode redirecionar parte das compras que antes vinham para o Brasil.”
Caso a crise no Oriente Médio se prolongue, Fogolin acredita que os impactos podem se intensificar, especialmente pela dependência global de petróleo e fertilizantes da região. “Se essa crise durar muito tempo, vai ficar complicado, principalmente pela escassez de fertilizantes.”
Ele lembra que a região concentra grande parte da produção mundial de energia. “O Golfo está ali, a Aramco é a maior empresa petrolífera do mundo, então qualquer instabilidade ali afeta todo o mercado.”
Para enfrentar possíveis turbulências no mercado, o produtor afirma que a estratégia tem sido antecipar decisões e reduzir riscos. “Nós já antecipamos algumas compras de fertilizantes imaginando que os preços poderiam subir.” Além disso, parte da produção futura já foi comercializada.
“Também fizemos travamentos de preço de soja futura quando o mercado estava melhor.” Segundo ele, a gestão de risco é essencial no agronegócio. “O produtor precisa fazer o básico bem feito: acompanhar o mercado, controlar custos e garantir margem quando aparecem oportunidades.”
Para Fogolin, essa disciplina ajuda a enfrentar períodos de instabilidade. “Esse é o feijão com arroz do produtor para conseguir atravessar momentos difíceis com menos impacto.”

Rentabilidade já pressionada
Em Rio Verde, um dos principais polos agrícolas do país, o produtor Roildes Ribeiro Benevides afirma que, por enquanto, as mudanças foram apenas pontuais no mercado, sem reflexos diretos nos custos da produção. Segundo ele, embora não negocie diretamente com compradores estrangeiros, parte da produção acaba chegando ao Oriente Médio por meio de tradings internacionais.
“Diretamente eu não vendo para lá. Eu vendo para empresas que compram o milho e fazem a exportação. Então, indiretamente, a nossa produção também vai para esse mercado”, disse ao Jornal Opção.
Roildes afirma que o início do conflito provocou apenas um “susto” momentâneo nas bolsas e no mercado de commodities. “Esse conflito foi mais um susto no mercado. A soja reagiu um pouco por conta do câmbio, Chicago subiu um pouco e o milho também deu uns picos na B3. Mas foi algo instantâneo, mais no impacto da notícia”, afirmou.
Segundo ele, a reação foi rápida, mas sem sustentação de longo prazo. “Foi aquela oscilação de curto prazo. Subiu um pouquinho, mas nada que tenha sustentação.” Apesar da tranquilidade inicial, o produtor afirma que o maior risco está no custo dos fertilizantes, especialmente os nitrogenados utilizados no milho.
Ele explica que o calendário agrícola brasileiro cria um intervalo antes de possíveis impactos mais fortes. “A importação de nitrogenados para nós começa mais a partir do meio do ano. E a exportação de milho para esses mercados também acontece mais nesse período”, disse.
Caso o conflito se prolongue, no entanto, os efeitos podem ser significativos. “Se realmente se estender e afetar o mercado de fertilizantes, podemos ter aumento de até 30% nos nitrogenados.” Segundo ele, o impacto mais forte ocorreria após junho.
“Estamos no início de março, então ainda não sentimos reflexo. Mas se passar de junho com essa situação, aí sim pode ter impacto maior.” Roildes também aponta que a alta do petróleo pode gerar efeitos em cadeia no agronegócio.
“O petróleo subindo reflete em tudo: diesel, frete, transporte. Isso vai encadeando e acaba aumentando os custos.” O câmbio mais alto, embora beneficie as exportações, não resolve o problema. “O dólar alto ajuda na venda do produto, porque tudo é dolarizado. Mas os custos também sobem junto. Então acaba ficando meio equilibrado.”
Para ele, o nível atual do câmbio ainda é considerado aceitável. “Esse dólar na faixa de R$ 5 e pouco é um ponto de equilíbrio. Não está ruim.” Segundo o produtor, a maior pressão hoje não vem do mercado internacional, mas do aumento dos custos internos no Brasil.
“O nosso problema hoje não é o preço em Chicago, que está bom. O câmbio também está razoável. O que está apertando é o custo do dia a dia.” Ele cita aumentos em praticamente todos os itens da produção agrícola.
“Subiu mão de obra, subiu óleo, subiu peças, manutenção, arrendamento. Tudo subiu e a margem ficou muito estreita.” Além disso, os juros elevados também pesam sobre o setor. “Você precisa captar recurso para produzir e encontra juros altos. A soma disso tudo deixa o produtor no limite.”

Agricultura opera no limite financeiro
Roildes afirma que muitos produtores estão operando com margens muito reduzidas. “A agricultura hoje está vivendo praticamente numa UTI. A grande maioria está numa zona de risco.” Segundo ele, a sobrevivência do produtor depende de fatores como clima e boas condições de mercado.
“Dependemos de uma boa safra e de uma boa venda. Não pode ter muita novidade negativa, senão desencadeia um processo complicado.” Mesmo sem impactos imediatos, o produtor afirma que existe apreensão sobre o desenrolar da crise internacional.
“A gente fica tenso, porque o Oriente Médio é imprevisível. Existe sempre esse receio de que isso possa afetar preços e competitividade no médio prazo.” Ele acredita que a situação pode se prolongar. “Não acredito que seja algo simples ou rápido de resolver.”
Por enquanto, Roildes afirma que ainda não alterou o planejamento da propriedade em função da crise. “Esse conflito ainda é muito recente para tomar decisões baseadas nele.” A redução da área de milho na safrinha, segundo ele, ocorreu por outros fatores.
“Eu já reduzi minha área de milho por causa do clima e do preço, independentemente desse conflito.” No entanto, se a crise se prolongar, ajustes serão inevitáveis. “Se isso durar muito tempo, vamos ter que trabalhar mais forte em cima do custo.”
Ele compara a situação a uma família que precisa reorganizar as finanças. “É como quando uma família passa por uma crise financeira. Todo mundo fecha a torneira, corta gastos e reorganiza o caixa.” No campo, isso pode significar menos investimentos.
“Em vez de trocar máquina, vamos ter que segurar investimento, otimizar equipamentos e reduzir tecnologia.” Além da redução de custos, o produtor também destaca a importância de aproveitar momentos de alta no mercado.
“Em momentos de conflito o mercado fica muito volátil. Tem dia que sobe Chicago, tem dia que sobe o dólar.” Segundo ele, isso pode ser usado estrategicamente. “O produtor precisa aproveitar esses picos de preço para travar vendas e formar uma média melhor de preço para o futuro.”

Impacto limitado
Para o presidente da Aprosoja Goiás Clodoaldo Calegari os efeitos diretos nas exportações tendem a ser moderados, mas os reflexos indiretos podem pesar no bolso do produtor rural. Segundo ele, a dependência do mercado iraniano para a soja brasileira é pequena, enquanto o milho tem participação mais relevante nas vendas ao país.
“O Irã importa menos de 2% da soja brasileira. Já no milho o impacto é maior. Na última safra, cerca de 25% da exportação de milho brasileiro foi para o Irã”, afirmou Calegari ao Jornal Opção. Apesar disso, o dirigente acredita que a demanda por alimentos deve continuar, mesmo em cenário de conflito.
“Eu imagino que o impacto direto não será em grandes proporções, porque eles não vão deixar de importar alimentos por estarem em conflito. O que pode acontecer é um atraso nas importações. Eles precisam desses produtos para o suprimento e para a sobrevivência”, disse.
Para Calegari, o tamanho do impacto dependerá principalmente da duração da crise. “Quanto mais rápido esse conflito cessar, menos impacto nós teremos.” Se no comércio exterior o efeito tende a ser limitado, na cadeia de insumos a preocupação é maior.
A região do Golfo, que inclui importantes produtores de fertilizantes, tem peso relevante na oferta global de ureia e enxofre, componentes essenciais para a agricultura. “Isso nos preocupa principalmente para o avanço da próxima safra. A região do Golfo é muito forte na produção de ureia, ou seja, nitrogenados, e também na produção de enxofre, que impacta diretamente os fertilizantes fosfatados”, afirmou.
De acordo com o presidente da Aprosoja-GO, o mercado já começou a reagir após o início do conflito. “Depois do estouro do conflito, algumas empresas já retiraram as listas de preços de ureia do mercado. O sulfato de amônia também segue em tendência de alta e os fosfatados já refletiram um pouco dessa elevação”, explicou.
Ele ressalta que os impactos mais fortes podem aparecer apenas nas próximas safras, já que boa parte dos insumos da safra atual já foi adquirida. “A segunda safra que está sendo plantada já tem praticamente todos os insumos comprados. Mas para a safra 2026/2027 o nível de vendas de fertilizantes ainda é baixo. Então o impacto pode aparecer mais adiante.”
Outro ponto de atenção é o preço do petróleo, que pode pressionar custos logísticos e de produção. “O frete marítimo pode subir. Se as rotas não saem pelo estreito de Hormuz, você tem aumento no tempo de deslocamento e no custo do transporte”, afirmou.
Segundo ele, um desvio nas rotas comerciais pode aumentar em até duas semanas o tempo de viagem de navios. “Talvez possa atrasar até uns 15 dias a viagem, e claro que isso gera aumento no custo do frete marítimo”, disse. Além disso, o aumento do petróleo pode refletir no preço do diesel e no transporte interno de grãos.
“Isso vem em um período difícil para nós, porque na colheita já temos naturalmente alta de frete e de combustíveis. E temos visto o mercado explorar essa situação, atribuindo aumentos de preço ao conflito quando nem sempre esse impacto seria tão imediato”, afirmou.

Dólar alto não garante ganho ao produtor
Embora a valorização do dólar costume beneficiar exportadores, Calegari afirma que o cenário atual não tem gerado ganhos reais para o produtor. “Na semana passada tivemos alta do dólar, mas não tivemos reflexo positivo para o nosso negócio porque os prêmios de exportação recuaram”, explicou.
Segundo ele, o preço recebido pelo produtor depende de vários fatores simultâneos. “Nós temos quatro pontos principais na formação de preço da soja: a Bolsa de Chicago, o câmbio, os prêmios de exportação e o custo de frete, que é o chamado basis.”
Na prática, os fatores positivos e negativos acabaram se anulando. “Tivemos duas coisas positivas, que foi a alta do dólar e uma pequena alta em Chicago, mas também tivemos duas negativas: aumento do custo de transporte para os portos e queda dos prêmios de exportação. No final, ficou elas por elas.”
Calegari também criticou a dependência brasileira do transporte rodoviário para escoamento da produção agrícola. “O Brasil hoje é transportado por pneus. Nós temos condições de melhorar muito o escoamento por ferrovias e hidrovias, mas faltam investimentos e vontade política”, afirmou.
Segundo ele, essa estrutura logística aumenta o custo do agronegócio e reduz a competitividade internacional. Além das incertezas internacionais, o presidente da Aprosoja-GO destacou que o agronegócio brasileiro já enfrenta dificuldades internas, especialmente com o aumento do endividamento rural.
“O campo está passando por uma dificuldade extrema e o governo federal praticamente deu as costas ao produtor rural”, afirmou. Ele cita o crescimento da inadimplência como reflexo desse cenário.
“Tivemos uma alta muito grande na inadimplência do produtor rural com o sistema bancário e com dívidas privadas também.” Segundo Calegari, os impactos econômicos no campo acabam chegando ao consumidor.
“Toda dificuldade que passa pelo setor produtivo acaba tendo reflexo na ponta final. Se o custo sobe ou a produção é afetada, isso inevitavelmente chega ao supermercado.”

Seapa
Segundo o secretário da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás (Seapa), Pedro Leonardo Rezende, o impacto potencial para o setor agrícola passa principalmente por três frentes: comércio exterior, logística internacional e custos de insumos.
Em entrevista ao Jornal Opção, o secretário afirmou que o Oriente Médio tem papel relevante tanto como comprador quanto como fornecedor de insumos para o agronegócio brasileiro.
“Existem três fatores importantes que têm gerado certa incerteza para o segmento agrícola brasileiro e, em particular, aqui em Goiás. O Oriente Médio é um importante comprador de produtos agrícolas de Goiás, sobretudo milho. Mas também é fornecedor relevante de insumos agrícolas, principalmente fertilizantes nitrogenados, dos quais o Irã é um dos principais fornecedores”, afirmou.
De acordo com ele, a intensidade dos impactos dependerá diretamente da duração do conflito. “Os custos de produção podem ser impactados na medida em que os conflitos perdurem por muito tempo. A magnitude desse impacto vai depender do quanto essa questão geopolítica vai durar”, disse.
Além da dependência comercial, a logística internacional também preocupa o governo estadual. Isso porque o Golfo Pérsico e o Estreito de Hormuz estão entre as principais rotas marítimas do comércio global de energia, fertilizantes e alimentos.
“A partir do momento em que o Golfo Pérsico e, em particular, o Estreito de Hormuz são rotas importantes tanto para os insumos que vêm quanto para o destino da produção agrícola de Goiás, essa questão logística passa a preocupar”, explicou.
Segundo o secretário, a instabilidade na região pode gerar efeitos indiretos, inclusive em mercados fora do Oriente Médio. “Pode haver impacto não apenas para o Oriente Médio, mas também para outros destinos importantes, como o mercado asiático, porque muitas rotas comerciais passam por essa região.”
Entre os produtos agrícolas, o milho aparece como o mais sensível ao cenário internacional. O secretário destacou que boa parte da produção goiana é consumida internamente, o que ajuda a reduzir riscos imediatos.
“Cerca de 70% da produção de milho de Goiás é destinada ao mercado doméstico e aproximadamente 30% vai para exportação”, explicou. Dentro desse volume exportado, a participação do Oriente Médio ainda é relativamente limitada, mas estratégica.
“Desses 30% que são exportados, cerca de 15% têm como destino o Oriente Médio. Mesmo sendo um percentual pequeno, é uma relação importante porque esses países remuneram melhor e pagam à vista.”
Segundo ele, uma eventual redução nas compras poderia afetar a formação de preços no mercado interno caso novos compradores não sejam encontrados. “Se não conseguirmos buscar parceiros comerciais alternativos que absorvam esse excedente, isso pode impactar os preços pagos ao produtor.”
Pedro Leonardo ressaltou que o possível impacto geopolítico ocorre em um momento delicado para o produtor rural, que já enfrenta dificuldades relacionadas a crédito, custos de produção e clima.
“O que mais nos preocupa é que essa circunstância geopolítica vem em um contexto em que o produtor já está fortemente impactado por diversas outras circunstâncias, como dificuldade de acesso ao crédito, aumento do custo de produção e fatores climáticos.”
Segundo ele, a margem do produtor já está comprometida. “O produtor já está com as margens extremamente pressionadas. Isso torna qualquer nova instabilidade ainda mais preocupante.”

Qualidade dos produtos abre novos mercados
Apesar das incertezas, o secretário afirma que o agronegócio goiano tem vantagens competitivas que ajudam a enfrentar cenários adversos. “O que nos permite ter mais segurança diante dessas adversidades é a qualidade dos produtos agrícolas de Goiás”, afirmou.
Ele cita como exemplo o farelo de soja produzido no estado. “O farelo de soja de Goiás é classificado como AAA, considerado o melhor do mundo em termos de qualidade.” O mesmo ocorre com a pecuária bovina.
“Os indicadores sanitários credenciam a carne goiana a entrar em praticamente qualquer mercado global.” Outro ponto de preocupação é a dependência de fertilizantes nitrogenados, cuja produção está fortemente concentrada em países do Oriente Médio.
“O processo industrial desses fertilizantes é extremamente dependente de gás natural, e os países do Oriente Médio são grandes fornecedores tanto de gás quanto desses insumos”, explicou. Segundo o secretário, oscilações nesses mercados podem elevar custos agrícolas.
“O gás natural e o petróleo têm grande capacidade de impactar os preços desses fertilizantes e, consequentemente, os custos de produção.” O secretário também apontou que o cenário de juros elevados no Brasil dificulta ainda mais o planejamento do produtor rural.
“As taxas de juros praticadas no mercado brasileiro hoje são quase impeditivas para a agricultura goiana e brasileira”, afirmou. Ele defende políticas públicas voltadas ao setor. “É extremamente importante que o governo federal reveja as políticas de juros agrícolas e fortaleça instrumentos como o seguro rural para proteger o produtor nesses momentos de incerteza.”
Apesar dos riscos, Pedro Leonardo lembra que a agricultura trabalha com planejamento de longo prazo, o que ajuda a mitigar parte das incertezas. “A atividade agrícola é extremamente dependente de planejamento. O produtor costuma travar seus custos de produção e realizar vendas antecipadas da safra, justamente para se proteger de cenários adversos.”
Esse nível de profissionalização, segundo ele, tem sido fundamental para manter o protagonismo brasileiro no mercado global de alimentos. “Essa capacidade de planejamento e adaptação é um dos fatores que mantém Goiás e o Brasil em posição de destaque na produção mundial de alimentos.”
O secretário também destacou que o estado possui vantagem competitiva em mercados islâmicos, especialmente na exportação de carne bovina. “Goiás e o Brasil são grandes produtores de carne halal, que segue um protocolo religioso exigido por países islâmicos.”
Segundo ele, isso abre portas para novos mercados mesmo em cenários de instabilidade. “Essa capacidade de atender a esses mercados nos dá segurança de que outros parceiros comerciais podem absorver eventuais mudanças na relação com o Irã.”

Comigo
Apesar de o Brasil ter forte relação comercial com o Oriente Médio, a cooperativa goiana Comigo não mantém exportações diretas para o Irã. Ainda assim, a escalada do conflito na região preocupa o setor agropecuário por causa dos efeitos indiretos nos custos de produção.
Em entrevista ao Jornal Opção, o presidente da cooperativa, Antonio Chavaglia, afirmou que a entidade não possui operações comerciais com o mercado iraniano. “A Comigo não exporta para lá. O Brasil exporta muito milho para o Irã, mas a Comigo não tem relacionamento comercial com aquele mercado”, disse.
Segundo ele, mesmo sem negócios diretos com o país, os efeitos do cenário internacional acabam chegando ao produtor brasileiro. Chavaglia afirma que a principal preocupação neste momento está no aumento dos custos, impulsionado pelo petróleo e pelo dólar.
“Esse aumento do petróleo e do dólar já pressiona os custos do cooperado”, afirmou. O impacto aparece principalmente no transporte e em insumos utilizados na produção agrícola. De acordo com o presidente da cooperativa, a alta do petróleo já vem sendo percebida no mercado.
Embora a cooperativa não acompanhe diretamente possíveis aumentos de fretes marítimos ou seguros internacionais, ele reconhece que oscilações no mercado global acabam afetando a cadeia produtiva.
Outro ponto de atenção para o setor é o mercado de fertilizantes, especialmente os nitrogenados, amplamente utilizados na produção agrícola. Grande parte desses insumos é produzida em países do Oriente Médio, o que aumenta a preocupação em caso de prolongamento do conflito.
“Se esse conflito durar mais tempo, pode trazer reflexos nos fertilizantes e na próxima safra”, indicou. Segundo ele, a duração da crise será determinante para o tamanho dos impactos. Para o presidente da Comigo, o setor ainda acompanha com cautela os desdobramentos do conflito internacional.
“Se isso durar pouco tempo, o impacto é menor. Mas se prolongar, aí pode afetar mais custos e planejamento.” Mesmo sem exposição direta ao mercado iraniano, o dirigente ressalta que o agronegócio brasileiro é sensível às variações do mercado global.
“O Brasil exporta muito milho para aquela região. Então qualquer instabilidade internacional acaba refletindo de alguma forma no setor.”

Conflito pode alterar geopolítica global, diz internacionalista
A escalada militar envolvendo o Irã, os Estados Unidos e Israel pode provocar impactos que vão muito além do Oriente Médio e atingir a economia global, incluindo o agronegócio brasileiro. A avaliação é do internacionalista e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Leandro Bernardes Borges.
Em entrevista ao Jornal Opção, o especialista afirmou que o conflito tem potencial para alterar a dinâmica geopolítica internacional neste século. “Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, seguidos pelo contra-ataque iraniano, podem chegar ao ponto de mudar toda a geopolítica do século XXI”, afirmou.
Segundo ele, a razão principal está na importância estratégica da região para o fornecimento de energia. “O mundo ainda se movimenta via petróleo e gás natural. O Oriente Médio é central para isso.” Uma escalada do conflito pode afetar diretamente o fluxo global de petróleo, especialmente pelo papel do Estreito de Hormuz, rota estratégica do comércio energético mundial.
“Cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo passa por essa região”, explicou Borges. Países asiáticos também dependem fortemente dessa rota. “Quarenta por cento do petróleo consumido pela China passa pelo Estreito de Hormuz, assim como cerca de 20% do petróleo comprado pela Índia.”
Com uma oferta menor e demanda constante, a tendência é de aumento nos preços. “Se houver redução da oferta, a tendência é de aumento do preço do barril, podendo chegar entre 100 e 150 dólares.” Segundo o internacionalista, o aumento do preço da energia tende a provocar inflação mundial.
“A consequência mais nítida é inflação global. E inflação retém crescimento e desenvolvimento econômico.” Ele lembra que a economia global atual funciona com cadeias produtivas altamente interdependentes.
“Hoje as cadeias produtivas e de suprimentos são extremamente interligadas. Todos os países estão sensíveis a uma tensão dessa magnitude.” A pressão inflacionária também pode atingir diretamente o cenário econômico brasileiro.
Borges lembra que havia expectativa de redução da taxa básica de juros no país. “Havia uma expectativa de queda da Selic com a relativa estabilidade econômica recente.” No entanto, a instabilidade internacional pode alterar esse cenário.
“Se houver escassez de petróleo e aumento da inflação, os investidores buscam ativos mais seguros, como dólar e ouro. Isso freia a expectativa de queda dos juros no Brasil.” Conflito pode se expandir por “guerras por procuração”
Apesar do risco geopolítico, Borges avalia que é improvável um confronto direto entre grandes potências como China ou Rússia. “Um conflito direto entre superpotências é improvável por causa do risco nuclear.” Segundo ele, o cenário mais provável são conflitos indiretos.
“O que pode ocorrer são as chamadas ‘proxy wars’, ou guerras por procuração, com disputas regionais envolvendo grupos aliados às grandes potências.” Esse modelo lembra disputas geopolíticas do período da Guerra Fria. “É um cenário bem semelhante ao que vimos naquele período.”

Impactos econômicos chegam ao cotidiano
Mesmo regiões distantes do conflito, como Goiás, podem sentir efeitos econômicos indiretos. “Mesmo que Goiás não dependa diretamente do petróleo iraniano, a alta do preço internacional afeta toda a economia.”
O impacto aparece no cotidiano da população. “O arroz que hoje tem um preço pode subir porque o transporte ficou mais caro. O gás de cozinha e o diesel também tendem a subir.” Para o professor, uma desaceleração da economia global também pode reduzir a demanda por commodities.
“Se a economia global esfriar, a demanda por commodities pode cair. Isso afeta produtores brasileiros e goianos.” Outro impacto possível está no mercado de fertilizantes, que dependem fortemente do comércio internacional.
“O Brasil importa fertilizantes. Com o dólar mais caro, a capacidade de compra diminui.” Isso tende a elevar o custo de produção agrícola. “Com fertilizantes mais caros, o custo de produção aumenta e a competitividade pode ser prejudicada.”
Mesmo que o Irã não seja o único fornecedor, a disputa global por insumos pode elevar preços. “Se vários países buscarem alternativas ao mesmo tempo, o preço tende a subir.” Questionado sobre a possibilidade de sanções internacionais atingirem parceiros comerciais do Irã, Borges considera o cenário improvável.
“Eu acho improvável que sanções econômicas se estendam a parceiros comerciais como o Brasil.” Segundo ele, a economia global funciona em múltiplos níveis de interação. “As relações comerciais não acontecem apenas entre governos, mas entre empresas, tradings e produtores.”
Na avaliação do professor, o Brasil tende a manter sua tradição diplomática de diálogo com diferentes países. “O Brasil historicamente se apresenta como um país conciliador e defensor do multilateralismo. ”Essa postura reduz o risco de constrangimentos diplomáticos.
“O Brasil negocia com todos os países e dificilmente o governo interfere diretamente nas relações comerciais.” Para Borges, o conflito reflete um momento mais amplo de transformação na política internacional.
“Estamos vivendo uma transição na ordem internacional.” Ele observa que o multilateralismo, sistema que favoreceu países emergentes como o Brasil, vem sendo enfraquecido. “O multilateralismo foi um sistema no qual o Brasil se deu muito bem.”
Segundo ele, algumas potências buscam redesenhar o sistema internacional. “A nova ordem tende a privilegiar grandes potências e reduzir o espaço de países médios nas decisões globais.” Borges também avalia que os Estados Unidos enfrentam um período de declínio relativo no cenário global.
“Vários acontecimentos indicam que os Estados Unidos são um império em declínio.” Ele lembra que o próprio multilateralismo foi criado pelos norte-americanos após a Segunda Guerra Mundial. “Eles criaram as regras e se beneficiaram muito delas.”
Com o crescimento de novos atores globais, a disputa por influência se intensifica. “Outros países aprenderam a jogar muito bem esse jogo. Então agora parece haver uma tentativa de redefinir as regras.”
Para o internacionalista, o melhor cenário para o país continua sendo a estabilidade internacional. “O Brasil ganha muito mais em um mundo pacífico do que em um mundo em conflito.” Ele defende que o país mantenha sua postura diplomática tradicional. “O Brasil precisa continuar se posicionando como mediador e defensor do diálogo nas relações internacionais.”

Economia global pode desacelerar
Para o economista e professor Jeferson Castro, ainda é cedo para medir os efeitos concretos sobre a produção rural, mas alguns sinais já acendem um alerta. Em entrevista ao Jornal Opção, o especialista afirmou que a principal variável a ser observada é o preço internacional do petróleo, que influencia diretamente os custos da cadeia produtiva.
“Por enquanto ainda está cedo para fazer esse tipo de previsão. Vai depender muito de quanto tempo vai durar o conflito e até onde o preço do petróleo vai chegar”, afirmou. Segundo ele, o limite crítico para a economia agrícola pode estar na faixa de US$ 80 por barril.
“Se chegar até 80 dólares, acho que dá para suportar. Mas acima disso já começa a ter problema.” Caso o petróleo ultrapasse esse patamar, o impacto tende a se espalhar por toda a cadeia de insumos agrícolas.
“Acima desse nível nós começamos a ter aumento de preços de fertilizantes, ureia, amônia e fosfato. Todos esses insumos são essenciais para o agronegócio e acabam elevando o custo de produção”, explicou.
Ele lembra que uma situação semelhante ocorreu durante a pandemia de Covid-19, quando houve rupturas na logística global. “Nós já passamos por isso. Na pandemia tivemos quebra da logística internacional e aumento expressivo de preços desses insumos.”
Outro fator de risco apontado pelo economista é a fragilidade da infraestrutura logística brasileira. “O Brasil ainda é muito deficitário em termos de logística de transporte de mercadorias e insumos no mercado global. Isso pode trazer problemas adicionais para o agronegócio.”
Segundo ele, eventuais gargalos logísticos podem elevar custos e dificultar exportações. A guerra também pode influenciar a demanda internacional por produtos brasileiros, especialmente em mercados ligados ao Oriente Médio.
“Vai depender muito de como as grandes tradings vão atuar nesse mercado”, disse Castro. Ele explica que uma escalada do conflito pode reduzir compras de commodities agrícolas. “Você pode ter queda nas vendas de carne bovina, frango e também do complexo soja, que são produtos muito exportados para aquela região.”
De acordo com o economista, a instabilidade pode afetar não apenas um país, mas vários mercados ao mesmo tempo. “Estamos falando de uma região que envolve praticamente uma dúzia de países. Se a logística ou o comércio forem afetados, isso pode impactar bastante o agronegócio.”
Além do comércio, os fluxos de investimento também podem ser afetados. Segundo Castro, países do Oriente Médio têm ampliado investimentos no Brasil, inclusive no setor agrícola. “Esses países têm fundos muito importantes que investem no Brasil. Em um primeiro momento, eles podem pisar no freio com relação a novos investimentos no agronegócio.”
Em momentos de tensão internacional, é comum que o dólar se valorize, o que tende a beneficiar exportadores. No entanto, Castro afirma que ainda é difícil prever o comportamento da moeda americana.
“No primeiro momento o dólar sobe, mas é muito difícil saber para onde ele vai.” Caso a valorização se consolide, o agronegócio pode ser favorecido. “Se o real se desvalorizar e o dólar se valorizar, o setor exportador tende a se beneficiar.”
Por outro lado, isso não garante aumento da demanda. “Você pode ganhar no valor da moeda, mas a questão é saber se a demanda por commodities vai aumentar ou diminuir.” O economista também vê risco de aumento nos custos de transporte e seguros no comércio internacional.
“O Brasil é muito deficitário no balanço de serviços em fretes e seguros internacionais. Nós pagamos muito mais do que recebemos.” Segundo ele, qualquer elevação nesses custos tende a pesar na balança comercial.
“Se esses custos subirem, isso certamente vai impactar o agronegócio.” Apesar das incertezas, Castro destaca que o Brasil vem adotando uma estratégia de diversificação de mercados para reduzir riscos. “O Brasil tem buscado diversificar seus parceiros comerciais. Não fica dependente de um único mercado.”
Essa estratégia pode ajudar o agronegócio a enfrentar crises regionais. “Se um mercado entra em crise, o país pode direcionar suas exportações para outros destinos.” Para o economista, a principal preocupação é a possibilidade de o conflito gerar inflação global.
“A pergunta é: essa guerra vai gerar aumento da inflação mundial?” Caso isso aconteça, os efeitos podem atingir diretamente o agronegócio brasileiro. “Se tivermos inflação global, isso pode atrasar a redução da taxa Selic no Brasil.”
Castro lembra que o setor agrícola já enfrenta um cenário de forte endividamento. “O agronegócio se endividou bastante nos últimos anos. As taxas de juros subiram e o volume de recursos do Plano Safra não foi suficiente para atender todo o setor.”
Nesse contexto, a manutenção de juros elevados seria prejudicial. “Se a Selic continuar alta, isso vai deixar o agro em uma situação complicada.” Segundo ele, o impacto seria direto sobre os custos de produção. “Juros altos batem na veia do agronegócio. Os custos não caem e continuam elevados.”
Entre os fatores de risco, o economista cita aumento de fertilizantes, transporte e seguros internacionais. “Estamos falando de aumento de custo de fertilizantes, ureia, amônia, fosfato, transporte e seguros internacionais.”
Para Castro, esse conjunto de fatores pode pressionar o planejamento agrícola. “Não é um cenário positivo para o agronegócio.” Mesmo assim, ele reforça que ainda é cedo para medir os impactos reais da crise. “Tudo vai depender de quanto tempo esse conflito vai durar e de como o mercado internacional vai reagir.”

Para o produtor goiano, a consequência é direta: diesel mais caro encarece plantio, colheita e transporte rodoviário até portos como Santos e Itaqui. Em uma cadeia já pressionada por custos logísticos elevados, variações relativamente pequenas no barril podem representar aumento relevante no custo por hectare.
Além disso, o frete marítimo internacional pode sofrer reajustes, sobretudo se houver aumento do risco geopolítico em rotas estratégicas. A reportagem ainda pediu nota para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), mas não recebeu resposta.
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