A pouco mais de seis meses das eleições presidenciais, o debate público começa a se organizar em torno de uma pergunta central: o que, de fato, vai pesar na decisão do eleitor brasileiro?

Embora temas como corrupção ainda apareçam no radar, especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o voto tende a ser guiado principalmente por fatores concretos do cotidiano, com destaque para economia, segurança pública e acesso a serviços essenciais.

Na segurança pública, por exemplo, a sensação no Brasil varia de acordo com a região e nem sempre reflete a realidade dos índices criminais. A avaliação é do bacharel em Direito e especialista em segurança pública pela Universidade de Brasília (UnB) Leder Pinheiro, que aponta diferenças entre a percepção da população e a efetividade das políticas adotadas pelos estados.

Segundo ele, há um contraste claro entre Goiás e outras unidades da federação. “Hoje temos um cenário em segurança pública em Goiás em que a pessoa vê que o estado está mais seguro, as pessoas têm mais tranquilidade em transitar nas ruas”, afirma Pinheiro, que também é especialista em Altos Estudos em Segurança Pública pela Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Em contrapartida, relata que a percepção fora do estado é mais negativa. “De modo geral, fora de Goiás, a sociedade entende que não está segura, principalmente pela sensação de impunidade”. Para Leder, essa sensação está diretamente ligada à descrença no sistema penal.

“Hoje a sociedade tem a certeza de quando uma pessoa vai presa, ela não vai ficar presa, ela volta para o crime de novo”, diz. Apesar do avanço de facções criminosas no país, o especialista ressalta que a população não percebe o crime organizado de forma direta.

O impacto maior vem dos delitos do dia a dia. “O cidadão enxerga o crime como aquilo que afeta ele diretamente: roubo, furto de celular, roubo de veículos. Ele não faz essa conexão com organizações criminosas por trás disso”, explica.

Essa visão, segundo ele, limita o entendimento sobre a complexidade da segurança pública e reforça a cobrança por soluções imediatas. Leder contesta a ideia de que mais policiais nas ruas, por si só, garantem mais segurança.

“A sociedade acha que segurança é quantidade de polícia, viatura, giroflex. Mas, na prática, o que faz diferença é a integração entre as forças e o investimento em inteligência”, afirma. Ele cita Goiás como exemplo.

“Hoje temos o menor efetivo da história do estado, mas somos referência em segurança pública por conta da integração e do controle maior do sistema carcerário”, pontua. Segundo o especialista, ações estratégicas e análise de dados são mais eficazes do que medidas visíveis, mas superficiais.

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Ferramenta faz busca por características em rede de câmeras de segurança | Foto: Rafael Messias/Jornal Opção

Sistema prisional é peça-chave

O papel do sistema carcerário também é central para o controle da criminalidade. Leder usa uma metáfora para explicar sua importância: “O sistema carcerário é o teclado que digita todo o crime na sociedade”.

De acordo com ele, líderes de organizações criminosas continuam operando mesmo presos. “Quando você corta a comunicação e faz com que a pena seja realmente cumprida, essas lideranças perdem o comando e o crime enfraquece fora dos presídios”, afirma.

A segurança pública tende a ganhar protagonismo no debate político, especialmente em períodos eleitorais. Para Leder, o tema já é uma das principais preocupações da população.

“É o grito maior da sociedade hoje. A segurança pública mexe diretamente no bolso do trabalhador. O pouco que sobra, o criminoso vai lá e leva embora”, diz. Ele avalia que candidatos capazes de apresentar soluções concretas terão vantagem.

No entanto, alerta que o sucesso depende de articulação entre diferentes níveis de governo. “A segurança pública não está só na mão do presidente. É preciso integração com os estados para que as ações cheguem na ponta”, afirma.

Na hora de escolher, o eleitor não se guia apenas por propostas técnicas, segundo o especialista. “A sociedade quer saber quem está por trás da gestão. Não adianta só trazer dados. É preciso confiança em quem vai executar”, explica.

Ele compara a situação a escolher um profissional adequado para resolver um problema. “Se você precisa de um médico e te levam um mecânico, não resolve. Na segurança pública é a mesma lógica”, diz.

Leder também diferencia políticas populistas de estratégias eficazes na área. “O discurso populista é aquele que promete mais viaturas, mais armas. Isso agrada de imediato, mas não resolve o problema”, afirma. Já políticas eficientes, segundo ele, são menos visíveis no curto prazo.

“São ações estratégicas que impactam os índices criminais ao longo do tempo. O resultado aparece quando você compara os dados antes e depois”, explica. O uso de tecnologia tem sido cada vez mais relevante no combate ao crime.

Para o especialista, ferramentas como inteligência artificial e reconhecimento facial ajudam a compensar a falta de efetivo. “Esses mecanismos têm trazido resultados concretos e colaborado para reduzir os índices de criminalidade”, afirma.

“É o grito maior da sociedade hoje. A segurança pública mexe diretamente no bolso do trabalhador. O pouco que sobra, o criminoso vai lá e leva embora” | Foto: Arquivo pessoal

Violência e insegurança

Para o especialista em segurança pública Cássio Thyone, membro do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a sensação de insegurança no Brasil tem se tornado cada vez mais presente no cotidiano da população, ainda que isso não signifique, necessariamente, um aumento proporcional da violência em si.

Em entrevista ao Jornal Opção, ele afirma que há uma diferença importante, embora muitas vezes confusa, entre os conceitos de violência e insegurança. “Se você perguntar isso numa pesquisa, as pessoas vão dizer que está mais inseguro. Embora esses conceitos se confundam”, afirma.

Thyone explica que a violência está mais associada à experiência concreta de ser vítima, enquanto a insegurança diz respeito a um medo projetado.

“A percepção da violência acontece mais quando você já foi vítima. Já a insegurança é um medo futuro. É o receio de sair de casa, de andar por uma rua mal iluminada. Não necessariamente você vai ser vítima, mas isso influencia o seu comportamento”, pontua.

Para ele, esse sentimento é amplificado por um imaginário coletivo que permeia a sociedade. Na análise do especialista, o crime organizado é hoje o principal fator de preocupação, sobretudo por sua capilaridade.

“Ele está em tudo: no roubo de carga, na mineração ilegal, no contrabando, no tráfico de drogas e até em homicídios, muitas vezes ligados a disputas entre facções”, diz. Apesar disso, Thyone ressalta que nem todos os crimes violentos atingem diretamente o cidadão comum.

“Muitos homicídios estão relacionados a disputas internas dessas organizações. Ainda assim, o impacto na percepção social é enorme”, observa. Ele destaca que, no dia a dia, o que a população busca é algo mais básico: tranquilidade.

“As pessoas querem se sentir seguras. Querem andar numa praça ou num calçadão sem medo de serem abordadas. Esse é o sonho de um país seguro.” Ao contrário do discurso recorrente sobre falta de policiamento, Thyone defende que o principal problema da segurança pública no Brasil está na gestão.

“Não dá para dizer que o Brasil gasta pouco com segurança. Talvez a gente gaste mal”, critica. Para ele, o caminho passa por políticas públicas baseadas em dados e maior uso de tecnologia.

“Trabalhar com inteligência é incorporar sistemas, câmeras com inteligência artificial, melhorar a prevenção e a resposta rápida”, afirma. O especialista também cobra a efetivação do Sistema Único de Segurança Pública (Susp).

“A integração entre forças é um discurso de décadas, mas precisa sair da retórica. Sistemas precisam se comunicar. Você deve conseguir acessar informações de um estado em outro. Isso parece básico, mas ainda não acontece como deveria.”

Policiais militares | Foto: Divulgação / SSP-GO

Thyone faz duras críticas ao que chama de “populismo” na segurança pública, medidas que agradam à opinião popular, mas carecem de eficácia comprovada. “A política populista se baseia no senso comum, mas não encontra respaldo em estudos ou boas práticas”, afirma.

Ele cita como exemplo operações recorrentes em comunidades. “Se isso fosse o caminho certo, por que fazemos há 40 anos e não temos resultados?”, questiona. Outro ponto criticado é o chamado populismo penal.

“Achar que aumentar penas resolve o problema da criminalidade não é verdade. Isso precisa ser feito com critério, não apenas para atender ao clamor popular.” O especialista também aponta o sistema carcerário como peça-chave na dinâmica da violência.

“Temos uma das maiores populações carcerárias do mundo, o que pressiona os gastos públicos e, muitas vezes, fortalece organizações criminosas dentro dos presídios”, explica. Segundo ele, a incapacidade de controle básico evidencia falhas estruturais.

“A gente propõe soluções mirabolantes, mas não consegue impedir a entrada de celulares em presídios. Isso mostra o tamanho do problema.” Para Thyone, a segurança pública tem potencial de influenciar diretamente eleições, ainda que não seja o único fator decisivo.

“Quando você pergunta ao eleitor o que ele quer ver resolvido, segurança aparece entre as primeiras opções”, afirma. Ele alerta, no entanto, para a necessidade de qualificar o debate eleitoral. “O eleitor precisa votar em propostas, não em nomes ou polarizações. Falta capacidade de apresentar planos concretos.”

Por fim, o especialista defende que temas estruturais, como a implementação efetiva do Susp, ganhem espaço no debate político. “Crime organizado estará na pauta de todos os candidatos. O que espero é que isso seja tratado com propostas, e não com achismos”, conclui.

“Achar que aumentar penas resolve o problema da criminalidade não é verdade” | Foto: Arquivo pessoal

Segurança, economia e percepção do eleitor

Para a cientista política Denise Paiva, em entrevista ao Jornal Opção, a corrida presidencial deste ano tende a ser marcada por temas já conhecidos do eleitor brasileiro, como segurança pública e economia, mas também por novos desafios, como o impacto das redes sociais e da inteligência artificial.

Segundo ela, a sensação de insegurança deve ocupar papel central na escolha do voto. “Um tema que tem estado presente na agenda e indicado como problema pelo eleitorado é a questão da segurança pública. Eu acho que esse tema deve surgir na agenda do eleitor”, afirma.

Ao lado disso, a economia segue como fator determinante. “O custo de vida, a inflação, isso está sempre presente. Na hora de decidir o voto, o eleitor faz uma avaliação da sua qualidade de vida, da expectativa de compra, do emprego”, explica.

De acordo com Denise Paiva, a lógica do voto em eleições presidenciais passa, em grande medida, por uma avaliação retrospectiva do governo em exercício, atualmente liderado por Luiz Inácio Lula da Silva.

“Se o presidente é candidato à reeleição, o eleitor vai fazer uma avaliação retrospectiva. Se ele estiver satisfeito com suas condições de vida, pode votar nesse candidato”, diz. No entanto, ela observa uma oscilação nesse cenário: “A gente tem visto que a avaliação do presidente Lula tem caído um pouco”.

A cientista política também avalia que a polarização continuará sendo uma marca da disputa. Entre os nomes colocados, ela cita Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado como representantes do campo da direita.

“Eu acho que é muito difícil fugir dessa polarização”, afirma. Segundo ela, mesmo candidaturas que tentem se apresentar como alternativa tendem a ser enquadradas nesse espectro ideológico.

Outro tema recorrente no eleitorado é a corrupção, que, segundo Denise, nunca deixa de mobilizar. “É um tema que sempre está presente. Existe uma desconfiança sobre o governo e os políticos”, aponta.

Ela ressalta que o impacto desse assunto pode variar conforme o avanço de investigações em curso. “Dependendo do andamento de casos como o do Banco Master, isso pode surgir com mais força ou não”.

Fake news
Fake news em celular | Foto: Ilustração

A influência das redes sociais deve ser ainda mais intensa nesta eleição, especialmente com o uso crescente da inteligência artificial. “Essa vai ser a primeira eleição com impacto direto da IA. Isso traz um desafio enorme de fiscalização e combate às fake news”, afirma.

Para Denise Paiva, o problema não é novo, mas ganhou escala. “Fake news sempre existiram, antes eram boatos e folhetos apócrifos. O que mudou foi o alcance e a velocidade dessa disseminação”.

Apesar de indicadores econômicos não apontarem para um cenário crítico, a percepção do eleitor pode contar mais do que os números. “Os índices não estão ruins, mas a percepção da economia é negativa. Isso impacta diretamente o voto”, explica.

Ela acrescenta que, entre violência e desemprego, a sensação de insegurança tende a ser mais presente no cotidiano. “Talvez a violência esteja mais presente na percepção das pessoas”. A cientista política também destaca a dinâmica entre voto por afinidade e voto por rejeição.

“No primeiro turno, o eleitor vota no candidato da sua preferência. Já no segundo turno, geralmente escolhe aquele que menos rejeita”, afirma. Por fim, Denise Paiva chama atenção para pautas relevantes que devem ficar de fora da campanha. Entre elas, o feminicídio e o envelhecimento da população.

“Os índices de feminicídio são assustadores, mas infelizmente não devem estar no centro do debate”, lamenta. Outro ponto negligenciado, segundo ela, é a transição demográfica. “O Brasil está envelhecendo e precisamos discutir políticas públicas para isso, mas esse tema também tende a ficar de lado”.

“Os índices não estão ruins, mas a percepção da economia é negativa. Isso impacta diretamente o voto” | Foto: Arquivo pessoal

Outra análise

Já para o cientista político José Ferreira, a eleição presidencial de 2026 tende a ser definida menos por temas tradicionais, como saúde, educação ou segurança pública, e mais pela percepção concreta da qualidade de vida do brasileiro.

Segundo ele, em entrevista ao Jornal Opção, o principal clamor do eleitor hoje está ligado à dificuldade financeira enfrentada por grande parte da população, especialmente entre trabalhadores informais e endividados.

“A principal questão hoje não são os temas tradicionais. É resolver a situação do brasileiro médio, que está na informalidade e endividado”, afirma. Ferreira destaca que, embora o governo tenha conseguido aprovar medidas econômicas recentes, elas atingem principalmente trabalhadores com vínculo formal, o que limita seu impacto eleitoral.

“A maior parte dos brasileiros está na informalidade. Então, essas políticas acabam não alcançando esse eleitor na mesma medida”, explica. Para o cientista político, há um descompasso entre indicadores macroeconômicos e a realidade percebida pela população.

Mesmo com sinais positivos na economia, o cotidiano segue pressionado. “O Brasil pode até ter indicadores favoráveis, mas o brasileiro não sente isso no dia a dia. O termômetro é o mercado, é fazer compra no fim do mês e não sobrar nada”, diz.

Esse cenário, segundo ele, deve colocar a economia doméstica no centro do debate eleitoral. “As finanças dentro de casa vão pautar muito a eleição”, resume. Embora reconheça a relevância da segurança pública, Ferreira avalia que o tema tende a ocupar um papel secundário, a não ser que seja impulsionado por candidaturas específicas.

Ele cita o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como exemplo de liderança para nacionalizar a pauta. “Candidaturas como a do Caiado podem trazer essa agenda para o debate, forçando outros candidatos a apresentarem propostas na área”, afirma.

Diferentemente de 2018, quando a corrupção foi central, o tema perdeu intensidade nas disputas mais recentes e deve seguir em segundo plano em 2026. “Ela ainda é relevante, mas não na mesma medida. Já diminuiu em 2022 e a tendência é continuar assim”, avalia.

Corrupção e improbidade administrativa | Foto: reprodução
Corrupção e improbidade administrativa | Foto: Ilustração

Ferreira também aponta a continuidade da polarização política como característica do cenário atual, mas relativiza seus impactos. “A polarização em si não é um problema para a democracia. O problema é não aceitar resultados eleitorais ou questionar as instituições”, pondera.

Na avaliação do cientista político, o eleitor brasileiro tende a decidir seu voto com base nas dificuldades imediatas, e não em projeções futuras. “O brasileiro vota pensando no presente, nas dificuldades do dia a dia. E isso é um desafio para o governo, porque a melhora prometida não foi plenamente sentida”, afirma.

Embora resultados concretos sejam mais determinantes no longo prazo, eventos pontuais e narrativas podem influenciar o eleitor em momentos decisivos. “No médio prazo, são os resultados que pesam. Mas, no curto prazo, a narrativa pode ter impacto, como já vimos em eleições anteriores”, explica.

Ferreira avalia ainda que o voto em 2026 pode ter forte componente de rejeição, diante do desgaste acumulado das principais forças políticas. “O brasileiro já conhece os dois lados. Então, muitas vezes, o voto acaba sendo mais contra alguém do que a favor de alguém”, diz.

Ele também critica a possível candidatura de Flávio Bolsonaro, apontando fragilidades eleitorais. “É uma candidatura com vulnerabilidades. Há rejeição ao nome Bolsonaro em parte da direita, o que pode dificultar a ampliação de votos”, analisa.

Por fim, Ferreira chama atenção para um tema que, segundo ele, é negligenciado no Brasil: a política externa. “O eleitor brasileiro ignora essa pauta, e os candidatos também. Mas ela é fundamental, especialmente em um cenário de crises internacionais”, afirma.

Para ele, o debate público superestima áreas tradicionais, enquanto ignora fatores estruturais que impactam diretamente o país. “Não adianta melhorar indicadores se a população não percebe essa melhora. No fim, o que pesa é a sensação de qualidade de vida”, conclui.

“A principal questão hoje não são os temas tradicionais. É resolver a situação do brasileiro médio, que está na informalidade e endividado” | Foto: Arquivo pessoal

Economia

O cenário econômico segue como um dos principais termômetros do humor do eleitor brasileiro. Em entrevista ao Jornal Opção, a presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO) Adriana Pereira de Sousa afirma que o principal clamor da população está diretamente ligado ao bolso: menos dívidas, preços mais baixos e melhores condições de emprego.

“O eleitor brasileiro tem reclamado muito de uma redução do nível de endividamento das famílias e também de preços mais baixos e melhores condições de emprego”, afirma. Segundo a economista, embora a inflação esteja sob controle, o problema central continua sendo a baixa renda combinada com o alto comprometimento financeiro das famílias.

“A inflação hoje é considerada baixa, mas a renda ainda não é suficiente para atender às necessidades básicas. Um salário mínimo não dá conta de aluguel, alimentação, transporte, saúde e educação”, diz.

Ela destaca que o endividamento, intensificado durante a pandemia, ainda não foi superado e segue limitando o consumo. “A crescente do endividamento dificulta o consumo e isso pesa muito para a população em geral”, afirma.

Adriana explica que há um descompasso entre os indicadores oficiais e a percepção da população. “Em alguns momentos, a percepção não condiz com os dados. Isso acontece porque o custo de vida não diminui e as famílias seguem endividadas. Não sobra dinheiro para investir ou realizar sonhos”, pontua.

Para a economista, esse cenário gera a sensação de que a economia está pior do que os números sugerem. “Existe uma percepção de custo de vida muito elevado, que piorou após a pandemia”, completa.

Apesar da insatisfação popular, Adriana ressalta que a inflação controlada é, na verdade, um sinal positivo para a economia. “A gente precisa de uma inflação baixa e controlada. Quando os preços sobem de forma moderada, isso indica que há consumo, produção, emprego e renda”, explica.

Por outro lado, ela reconhece a dificuldade de comunicar esse conceito ao eleitor. “Quando os preços não sobem ou caem, pode indicar desaceleração econômica, menos emprego e menos renda. E isso não é bom”, afirma.

Na avaliação da presidente do Corecon-GO, embora o nível de emprego seja importante, o fator decisivo para o eleitor é o poder de compra. “Para o eleitor, pesam as duas coisas, mas pesa muito mais a capacidade de sobreviver de forma digna com a renda que recebe”, diz.

Brasil tem apresentado baixos níveis de desemprego, mas especialistas ouvidos pela reportagem alertam sobre a alta informalidade | Foto: Ilustração

Ainda assim, ela ressalta que uma coisa depende da outra. “Só conseguimos melhorar o poder de compra quando temos baixo desemprego”, acrescenta. Historicamente, a economia tem peso nas eleições brasileiras, mas não é o único fator determinante.

“As questões econômicas influenciam, especialmente após o Plano Real, mas não com tanta intensidade isoladamente”, afirma. Segundo Adriana, programas sociais também exercem forte influência sobre o voto.

“Eles impactam uma parcela representativa da população, mas os indicadores macroeconômicos também pesam porque afetam o setor produtivo e o emprego”, explica. Caso o cenário econômico atual seja mantido, a tendência é de continuidade do governo, avalia a economista.

“Não há nenhum impacto econômico forte que justifique uma mudança. Se for pelos indicadores, a tendência é de permanência”, afirma. Ela ressalta que a manutenção do emprego, o controle da inflação e o aumento da renda são fatores-chave.

“Se o governo garantir esses pontos, do ponto de vista econômico, ele tem a eleição praticamente garantida”, diz. Adriana alerta, no entanto, para riscos vindos do cenário internacional, como conflitos que impactam o preço de combustíveis.

“A elevação do diesel pode refletir no supermercado. Se o eleitor entender isso como culpa do governo, pode haver prejuízo eleitoral”, afirma. A economista também critica o que considera uma distorção no debate público.

Para ela, há uma supervalorização do discurso sobre gastos públicos. “Muitas vezes se fala que o governo gasta demais, mas não se analisa a qualidade desse gasto. Programas de transferência de renda, por exemplo, funcionam como investimento, pois geram consumo, produção e emprego”, explica.

Por outro lado, ela aponta que temas estruturais seguem negligenciados. “A reindustrialização do Brasil é um assunto ignorado. O país perdeu muita indústria nos últimos 20 anos e precisa investir em tecnologia e em um projeto de longo prazo para crescer e se desenvolver”, defende.

Adriana Pereira de Sousa é presidente do Corecon-GO | Foto: Arquivo pessoal

Percepção negativa da economia

Para o economista Everaldo Leite, apesar de indicadores macroeconômicos considerados positivos, como inflação controlada, baixo desemprego e aumento de investimentos estrangeiros, o eleitor brasileiro, especialmente das classes média e baixa, tem uma percepção negativa da economia.

Em entrevista ao Jornal Opção, ele afirmou que há um descompasso entre os dados oficiais e a realidade sentida no cotidiano das famílias. “Eu acredito que o eleitor médio hoje é uma pessoa um pouco confusa em relação à economia”, afirma.

“Os números não são ruins, são números bons, mas a visão que a pessoa tem disso muitas vezes é nublada.” Leite destaca que essa percepção não se explica apenas pelo cenário atual, mas por um processo acumulado ao longo dos anos.

“Houve um acúmulo nos preços que prejudicou o acesso da população a bens e serviços. E quando você chega a um patamar de preços mais altos, você não retroage mais”, explica.

De acordo com o economista, mesmo com a desaceleração da inflação, os preços continuam elevados, o que compromete o poder de compra. “Os preços cresceram e não caíram depois. E a renda não subiu da mesma forma”, diz.

“Hoje, a renda média é mais baixa do que o necessário para as pessoas consumirem aquilo que consumiam anos atrás.” Ele cita como exemplo o mercado de automóveis, que se tornou mais inacessível ao trabalhador médio.

“O automóvel quintuplicou de valor nos últimos anos. Antes, com políticas como IPI zero e crédito mais acessível, havia mais possibilidade de acesso”, relembra. Essa perda de capacidade de consumo, segundo Leite, impacta diretamente a percepção de progresso social.

“As pessoas não conseguem mais pensar em consumo que traga uma sensação de mudança de status. Elas sentem que estão ‘derrapando em falso’.” Outro fator central para o mal-estar econômico é o alto nível de endividamento da população.

“São mais de 70 milhões de endividados no Brasil”, aponta. “Estamos chegando a um ponto em que mais da metade da população economicamente ativa está endividada, muitas vezes sem conseguir pagar as contas.”

Mesmo com juros elevados, o crédito segue sendo amplamente utilizado, muitas vezes por necessidade. “As pessoas não deixaram de fazer empréstimos ou financiamentos. Pelo contrário, houve aumento. Isso acontece porque a renda não acompanha o custo de vida”, explica.

Ele também chama atenção para o uso crescente do cartão de crédito e para o avanço de práticas de risco financeiro. “As pessoas passaram a abusar do crédito e, pior, algumas entraram na ideia de ganhar dinheiro fácil, como com apostas.”

Na avaliação de Leite, o principal problema para o governo federal está justamente na diferença entre os bons resultados macroeconômicos e a realidade enfrentada pelas famílias. “A macroeconomia está ótima, está indo tudo bem. Mas na visão micro, das famílias, as coisas não estão boas”, afirma.

Esse cenário, segundo ele, influencia diretamente a percepção política da população. “As pessoas se sentem mal com a economia por causa do que está acontecendo com elas, no dia a dia, e acabam colocando a culpa no governo”, diz.

Embora reconheça que decisões individuais também pesam no endividamento, o economista ressalta que o contexto econômico limita as escolhas. “O governo não pediu para ninguém se endividar, mas o custo de vida exige. Para manter um padrão mínimo, a pessoa precisa pagar por isso, e muitas vezes recorre ao crédito.”

Sobre a política de juros durante a pandemia, quando a taxa básica chegou a 2% ao ano, Leite avalia que a medida foi adequada ao contexto. “Foi um momento específico, com inflação muito baixa e queda no consumo. A redução dos juros fazia sentido naquele cenário”, afirma.

Ele pondera, no entanto, que o ambiente atual é diferente, com crédito mais restritivo e custo de vida elevado, o que agrava a sensação de dificuldade econômica. Para o economista, o principal clamor do eleitor brasileiro na área econômica está ligado à melhoria concreta das condições de vida.

Mais do que indicadores positivos, a população busca aumento real de renda e alívio no orçamento doméstico. “O que falta é uma condição que permita às pessoas equilibrar seus gastos sem precisar recorrer a tantos empréstimos e dívidas”, resume.

Cartão de créditio é o vilão do endividamento | Foto: Agência Brasil
Cartão de créditio é o vilão do endividamento | Foto: Agência Brasil

Reeleição ou mudança?

Para Leite, em outros momentos históricos, como nos anos 1990 ou início dos anos 2000, o atual cenário da economia poderia ser suficiente para garantir ampla aprovação popular. “Se fosse naquela época, Lula estaria imbatível. A economia reforçava nas pessoas a ideia de que estava havendo mudança. Hoje, isso não acontece”, afirma.

O economista destaca que a precarização das relações de trabalho tem peso central nessa percepção negativa. “A perda de estabilidade profissional causa um drama na vida das pessoas. Quem não tem estabilidade não sabe como será o amanhã”, explica.

Ele cita como exemplo trabalhadores que deixam empregos formais e passam a depender de atividades informais ou por aplicativo. “Essa pessoa está ocupada, mas não está empregada. As incertezas são muito maiores que as certezas.”

Esse ambiente, segundo Leite, alimenta o endividamento e o pessimismo das famílias. “Isso cria um clima de que o processo de endividamento não vai ter fim”, afirma. Na análise do economista, programas sociais continuam importantes, mas deixaram de ser um diferencial eleitoral.

“Essas políticas já foram incorporadas pela sociedade como obrigação do governo. Elas viraram políticas de Estado, não mais de governo”, diz. Ele avalia que promessas de ampliação de benefícios, como Bolsa Família ou Vale Gás, tendem a ter impacto limitado nas eleições.

“Não faz sentido insistir nisso como diferencial. A população já não vê isso como algo extraordinário.” Outras pautas, como transporte público gratuito ou o fim da escala de trabalho 6×1, também podem aparecer no debate, mas com alcance restrito.

“Não é algo que atinge todo mundo. Há mais interesse no mundo político e ideológico do que entre os próprios trabalhadores”, pondera. Ao analisar o debate público, Everaldo Leite aponta que temas relevantes têm sido subestimados, especialmente a política externa e o comércio internacional.

“A atuação do governo no mercado externo é muito mais importante do que as pessoas entendem. O Brasil não é uma ilha, precisa de relações comerciais fortes”, afirma. Ele destaca que o país tem buscado se posicionar como destino de investimentos e cita episódios recentes nas relações com os Estados Unidos como exemplo de articulação bem-sucedida.

“O Brasil se deu muito bem nessas negociações. Isso é fundamental para o desenvolvimento.” Para o economista, o crescimento do país depende diretamente da inserção internacional. “O mercado interno é grande, mas não é o motor do crescimento. O motor é o comércio exterior”, diz.

Por outro lado, Leite considera que algumas pautas têm recebido atenção excessiva, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. “Isso é superestimado. Era uma necessidade básica, não um favor do governo”, afirma.

Segundo ele, a medida não deve gerar ganhos políticos significativos. “O governo não ganha voto com isso.” Ele argumenta que grande parte dos beneficiados já considera a mudança uma obrigação.

“Quem ganha até R$ 5 mil é classe média baixa. Essas pessoas acham um absurdo pagar imposto, então tirar isso é o mínimo”, diz. Para Leite, insistir na medida como estratégia eleitoral pode ser um erro. “Se o governo acha que vai fazer marketing em cima disso, não adianta. Isso não resulta em voto”, conclui.

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“A perda de estabilidade profissional causa um drama na vida das pessoas. Quem não tem estabilidade não sabe como será o amanhã” | Foto: Arquivo pessoal

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