As discussões sobre a entrada de estudantes pessoas trans na Universidade Federal de Goiás (UFG) por meio de cotas começaram no final de 2023. O coletivo Xica Manicongo teve protagonismo nesse processo.  A alteração da resolução do programa UFGInclui aconteceu no final de 2024 e a primeira entrada de alunos aconteceu um ano atrás, ou seja, no primeiro semestre de 2025.

Segundo levantamento feito a pedido do Jornal Opção, a UFG tem até o momento 10 pessoas trans que entraram na universidade pelo Programa UFGInclui. Desse total, uma aluna foi excluída por não ter feito o primeiro semestre e outra trancou o curso. Efetivamente, são oito estudantes ativos – sendo sete no Bacharelado e dois na Licenciatura. Existe um quantitativo bem maior de 132 alunos trans na instituição, porém entraram antes dessas cotas.

A aluna da UFG, Caiene Reinier, que se autodeclara travesti e negra, também entrou antes das cotas. Ela é engenheira ambiental e sanitarista pela UFG e, atualmente, continua na instituição como mestranda em Ciências Ambientais. É coordenadora executiva no Coletivo Xica Manicongo, que tem a coordenação geral de Larissa Engelmann – a primeira professora travesti da Universidade Federal de Goiás.

“Ingressei na UFG inicialmente no curso de Matemática, em 2012. Após um período fora do Brasil, na Universidade de Coimbra (Portugal), enfrentei situações muito duras de racismo e transfobia e resolvi retornar. Então, ingressei no Bacharelado em Engenharia Ambiental e Sanitária, curso no qual me formei em 2025”, contextualiza.

Formatura de Caiene Reinier em 2025 | Foto: Arquivo Pessoal

A mestranda explica que durante todo o período de graduação na UFG precisou residir na Casa de Estudantes. “Sempre lutei, junto ao Movimento de Casas de Estudantes, por políticas de permanência qualificadas e socialmente referenciadas”, afirma Caiene em entrevista ao Jornal Opção.

Antes mesmo de entrar no ensino superior, tinha que conciliar o ensino médio com o trabalho que exercia de garçonete e uma rotina exaustiva de deslocamento. “O meu acesso ao ensino superior não foi linear e nem simples. Eu sou do município de Varjão, no interior de Goiás, e cresci estudando em escola pública”, completa.

“Entrar na universidade pública foi, para mim, uma conquista coletiva, familiar e política. Não foi apenas um projeto individual, mas a tentativa de romper um ciclo histórico de exclusão e vulnerabilidade que atinge travestis e pessoas trans no Brasil”, diz Caiene Reinier.

Reparação histórica

A coordenadora executiva do Coletivo Xica Manicongo afirma que ter cotas para trans e travestis na UFG foi uma vitória coletiva de enfrentamento institucional.

Essa política nasce da articulação direta do Coletivo Xica Manicongo, formado majoritariamente por travestis e pessoas trans negras, muitas em situação de extrema vulnerabilidade social em Goiânia e na Região Metropolitana — inclusive pessoas em contexto de prostituição compulsória e moradia coletiva precária

Caiene Reinier detalha que foi elaborado um documento técnico-argumentativo, mostrando a invisibilidade de pessoas trans e travestis na UFG. “Esse documento foi apresentado na I Semana da Visibilidade Trans e Travesti da UFG, em janeiro de 2023, em uma mesa com toda a gestão superior da universidade”, complementa.

Caiene Reinier com famíliares e amigos na formatura | Foto: Arquivo Pessoal

Outro ato importante do coletivo foi a ocupação da reitoria em fevereiro de 2024. “Foi somente após essa ocupação que a universidade assumiu compromissos concretos: edital específico de moradia, inclusão de pessoas trans no UFGInclui, minuta de reformulação institucional do programa e ações de letramento antitransfobia”, completa.

As cotas não são concessão, são reparação histórica. Saber que, desde 2025, outras pessoas trans não precisarão atravessar o mesmo percurso solitário e violento que muitas de nós atravessamos é algo profundamente transformador

Hoje o maior desafio, segundo o Coletivo Xica Manicongo, é a permanência na UFG. O problema não é apenas entrar na universidade — é permanecer, concluir e produzir conhecimento.

“As dificuldades são estruturais: insegurança financeira, dificuldade de acesso à moradia estudantil, evasão forçada por violência simbólica e institucional, transfobia cotidiana em sala de aula, ausência de políticas de cuidado e acolhimento, além do impacto direto da precarização da vida”, finaliza a coordenadora executiva do Coletivo Xica Manicongo.

Secretaria de Inclusão da UFG

A nova secretária de Inclusão da UFG, Jaqueline Araújo, se intitula uma mulher negra. É licenciada em Matemática da UFG, com doutorado em Didática da Matemática pela Universidade de Barcelona e pós-doutorado na PUC-SP. É professora titular e orienta pesquisas, que tratam de inclusão do público da educação especial e pessoas neurodivergentes.

Dentro da UFG, Jaqueline Araújo foi pró-reitora de Graduação de 2019-2021 e sobre assumir neste mês de janeiro da Secretária de Inclusão diz que o sentimento é de responsabilidade e compromisso social. “Minha história de vida, pelo fato de ser uma mulher negra, nascida em uma família pobre e inter-racial, desde cedo foi marcada pelo preconceito e discriminação”, contextualiza.

Jaqueline Araújo é a atual secretária de inclusão da UFG | Foto: Arquivo Pessoal

Ainda de acordo com a secretária de inclusão da UFG, é importante as políticas públicas que visam a diminuição e a extinção das desigualdades sociais, econômicas, culturais, educacionais entre outras, de pessoas historicamente e culturalmente excluídas, invisibilizadas e marginalizadas.

São público que a SIN atende, entre elas destacamos indígenas, negros (as) quilombola, pessoas negras, mulheres, pessoas com deficiência, pessoas trans, entre outras

“Na minha avaliação todas as etapas do programa UFGInclui e do próprio debate sobre o tema, é oriundo das lutas, movimentos e demandas do público contemplado pelo programa e a coerência da universidade em reconhecer a legitimidade destas lutas. Além do seu compromisso com a democratização da educação e a socialização dos seus benefícios, princípios estes que estão no cerne do programa”, contextualiza Jaqueline Araújo.

Segundo a secretaria de inclusão, o plano de gestão da atual reitoria valoriza e amplia meios, canais, instrumentos, ações e programas que solidifiquem a inclusão na UFG.

“Nosso objetivo é fortalecer a política de inclusão institucional, inclusive àquelas voltadas para as pessoas trans, que fazem parte da comunidade universitária”, complementa.

Permanência

Para garantir a permanência de estudantes da graduação, segundo a UFG, há uma série de políticas e de assistência estudantil. Só que elas são, exclusivamente, para estudantes que comprovarem baixa renda, vulnerabilidade socioeconômica e pertencimento a segmentos sócio-historicamente discriminados.

Imagem comemorativa de 15 anos do UFGInclui | Foto: Evelyn Parreira

Dentre os programas em vigência, existem os de bolsas de Alimentação, Moradia, Monitoria, Iniciação Científica, Licenciatura, Extensão, Cultura e de Estágio. Há também a reserva de vagas para pais/mães no Centro de Educação Infantil, moradia estudantil, serviço odontológico, programa de saúde mental, Restaurante Universitário e o programa de concessão de passagens de transporte viário para alunos de graduação.

Retrato nacional

Hoje, no Brasil, são pelo menos 38 universidades federais e estaduais que oferecem cotas trans na graduação. No Centro-Oeste são três universidades, no Sul quatro, Norte são cinco universidades, Nordeste e Sudeste são 13 em cada uma das regiões.  

Região Centro-Oeste

  • Universidade Federal de Goiás (UFG)
    • Universidade de Brasília (UnB)
    • Universidade Federal de Catalão (UFCAT)

Região Norte

  • Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
    • Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)
    • Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)
    • Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA)
    • Universidade do Estado do Amapá (UEAP)

Região Sul

  • Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
    • Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA)
    • Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)
    • Universidade Federal do Rio Grande (FURG)

Região Nordeste

  • Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB)
    • Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
    • Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB)
    • Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar)
    • Universidade Federal da Bahia (UFBA)
    • Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB)
    • Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE)
    • Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
    • Universidade Federal de Sergipe (UFS)
    • Universidade Federal do Ceará (UFC)
    • Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
    • Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)
    • Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)

Região Sudeste

  • Universidade Federal Fluminense (UFF)
    • Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
    • Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)
    • Universidade Federal de Lavras (UFLA)
    • Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
    • Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
    • Universidade Federal do ABC (UFABC)
    • Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
    • Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
    • Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
    • Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG)
    • Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF)
    • Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

Leia também:

Em 17 anos de cotas, UFG registra 16 mil ingressantes e quase 3 mil formados