Júnior Kamenach e Giovanna Campos

A repercussão da tragédia familiar em Itumbiara não se restringiu ao impacto da violência em si. Nos comentários publicados em redes sociais e portais de notícias, parte dos leitores passou a responsabilizar a mãe das crianças pelo crime cometido pelo pai.

Em meio a manifestações de luto e indignação, surgiram frases que relativizavam a responsabilidade do agressor, associando o crime a um suposto relacionamento extraconjugal da esposa ou à ausência dela no momento do ocorrido. Em comum, os comentários deslocavam o foco do ato cometido para a conduta da mulher.

Para compreender por que, em casos de violência praticada por homens dentro da própria família, a culpa frequentemente recai sobre mulheres — inclusive quando elas não são as autoras do crime — a reportagem ouviu especialistas em estudos de gênero que analisam o fenômeno a partir da construção social da maternidade, da masculinidade e da persistência de padrões culturais de culpabilização feminina.

A lógica da culpabilização

Para a advogada criminal feminista Kelly Cristina, presidente da Articulação de Mulheres Brasileiras, essa reação não é isolada nem circunstancial. “Isso é uma constante. Faz parte da lógica do patriarcado, que sempre vai responsabilizar as mulheres”, afirma. “A gente vive numa civilização fundamentada na misoginia, no ódio às mulheres. São séculos de culpabilização do feminino.”

Segundo Kelly, a transferência de responsabilidade do agressor para a mulher ocorre mesmo quando ela é vítima direta da violência. “Mesmo quando a mulher é uma criança, uma idosa, uma profissional do sexo ou uma freira, muitas vezes ela é culpada pela violência que sofre, inclusive pelo estupro. Essa lógica aparece novamente nesses casos.”

Nos comentários analisados, diferentes versões da mesma narrativa se repetem. “Alguns diziam que ela teria responsabilidade por causa de um suposto relacionamento extraconjugal. Outros a culpavam por não estar em casa, como se fosse dever exclusivo dela vigiar os filhos o tempo todo”, relata.

Para a advogada, esse mecanismo tem função social clara: “É sempre a mesma lógica: retirar a responsabilidade de quem praticou a violência para colocar na mulher. É o próprio sistema se mantendo. É uma forma de impedir mudanças.”

A construção social da maternidade e da honra

Especialistas apontam que a maternidade, no imaginário social, é frequentemente tratada como uma responsabilidade absoluta e exclusiva. A mãe é vista como guardiã permanente dos filhos, mesmo quando o pai está presente e tem igual dever legal e moral de cuidado.

Essa expectativa não é neutra: ela deriva de uma divisão histórica do trabalho que atribui às mulheres o chamado “trabalho reprodutivo” — cuidado com filhos, idosos, organização doméstica e gestão emocional da família. Trata-se de um trabalho socialmente naturalizado como expressão de amor, mas raramente reconhecido como atividade econômica ou responsabilidade compartilhada.

Kelly destaca que essa invisibilização tem impacto estrutural. “Chamam de amor o que é trabalho não pago”, afirma. Segundo dados citados por ela, o trabalho reprodutivo pode representar entre 11% e 30% do PIB de um país, embora permaneça majoritariamente invisível e não remunerado.

Nesse contexto, quando ocorre uma tragédia familiar, a sociedade tende a perguntar: “Onde estava a mãe?” — raramente questionando com a mesma intensidade o papel do pai antes da violência.

Violência vicária e a punição social às mulheres

A professora de Psicologia Social da Universidade Federal de Catalão, Tatiana Machiavelli, afirma que a reação social diante de mulheres que rompem expectativas tradicionais está diretamente ligada à estrutura patriarcal. “As mulheres que não reproduzem essa expectativa social sobre a maternidade, sobre o cuidado no espaço doméstico, na vida familiar, elas vão ser desqualificadas, violentadas, subjugadas, humilhadas socialmente, como se o valor delas, enquanto pessoa, fosse diminuído.” Segundo ela, essa lógica funciona como uma engrenagem de fundo das relações sociais. “Essa é a engenharia que está colocada como pano de fundo do patriarcado.”

Tatiana explica que há um padrão de punição simbólica e social sempre que mulheres rompem papéis historicamente impostos. “Uma sociedade que, toda vez que se depara com uma mulher que rompe com os padrões daquilo que é esperado para ela, uma mulher que escolhe não ter filhos, uma mulher que escolhe fortalecer a sua carreira profissional, uma mulher que não corresponde a esses papéis, a esse lugar historicamente imputado, essa mulher vai ser execrada, essa mulher vai ser humilhada pela sociedade e culpabilizada por tudo aquilo que não corresponder à lógica da família tradicional, a tudo aquilo que não corresponder ao bem-estar da família.”

Para a professora, a misoginia opera como um mecanismo estruturante dessa desigualdade. “A gente pode entender a misoginia como um elemento, sim, da cultura, como uma tecnologia sociopolítica que vai ser fortalecida em diferentes espaços, na escola, a misoginia vai ser reproduzida, nas experiências religiosas, dentro das igrejas, pelo judiciário, por diferentes instituições sociais, e é uma tecnologia que vai fortalecer a ideia de que a mulher tem um valor menor, de que a vida da mulher vale menos do que a vida do homem.”

Ela ressalta que essa lógica coloca a mulher como responsável central pelo equilíbrio familiar. “Então, a mulher passa a ser uma figura central para o bem-estar da família, para o bem-estar do sucesso profissional do marido, para que tudo dê certo, para que tudo funcione da melhor forma em cada família, e isso é muito, é uma experiência profundamente violenta com as mulheres, é também um elemento dessa desigualdade que estrutura as relações.”

Tatiana também chama atenção para uma forma específica de violência pouco debatida no país. “Então, é esse mesmo patriarcado, esse sistema, que vai possibilitar o surgimento de diferentes discursos de ódio, mas também diferentes formas de violências que a gente chama de violência de gênero, violências que se dirigem às mulheres.” Ela destaca a violência vicária como elemento central nesse debate. “No Brasil, nós temos falado pouco de uma forma de violência que está muito próxima a esse crime que nós acompanhamos aqui no contexto de Itumbiara, de Goiás, que é a violência vicária.” E explica: “O homem violenta seus filhos e filhas, mas o alvo é a mulher. Ou seja, o homem tenta destruir algo que, para a mulher, é muito precioso, que é as suas crianças, os seus adolescentes, os seus filhos. Então, ao violentar os filhos, há aqui uma tentativa de aniquilar, de destruir a vida da mulher.”

Masculinidade e gestão das emoções

A análise também aponta para a construção social da masculinidade. Kelly argumenta que o modelo tradicional de homem é marcado pela repressão emocional. “Desde pequenos, os meninos aprendem que não podem chorar, que não podem demonstrar fragilidade. São brutalizados emocionalmente”, afirma.

Esse processo, segundo ela, contribui para dificuldades na elaboração de frustrações, rejeições e conflitos afetivos. “O patriarcado é ruim para todos os gêneros. Ele fere as mulheres, que são as maiores vítimas, mas também produz homens que não aprendem a lidar com emoções.”

A advogada ressalta que há indícios de aumento nos casos de homens que cometem feminicídio e, em seguida, tiram a própria vida. Para especialistas, isso pode estar ligado à incapacidade de lidar com perdas afetivas e à percepção de que a identidade masculina está associada ao controle sobre a parceira e a família.

Violência como instrumento de poder

Para Kelly, a violência de gênero não é um fenômeno isolado ou fruto exclusivo de impulsos individuais. “A violência não é um fim. A violência é um meio”, afirma.

Segundo sua análise, ela funciona como instrumento de manutenção de hierarquias — seja na divisão do trabalho doméstico, na dependência econômica ou na organização das relações afetivas. Quando mulheres conquistam maior autonomia financeira e social, surgem também reações de resistência.

“Há avanços. Não eram a maioria dos comentários culpando a mulher, e isso é importante. Mas toda mudança gera resistência”, observa.

O papel da mídia e das redes sociais

A especialista também chama atenção para a responsabilidade dos meios de comunicação. A repetição exaustiva de detalhes violentos pode, segundo ela, produzir dois efeitos simultâneos: banalização da brutalidade e projeção de poder simbólico sobre o agressor.

“Quando se repete o dia inteiro uma violência bárbara, isso pode naturalizar e até alimentar o sadismo de quem já tem essa inclinação”, afirma. Ao mesmo tempo, o agressor ganha visibilidade e notoriedade que jamais teria como cidadão comum.

Nas redes sociais, onde comentários são publicados de forma imediata e muitas vezes impulsiva, a dinâmica é potencializada. A necessidade de encontrar explicações rápidas para tragédias pode levar à construção de narrativas simplificadas — e, frequentemente, à escolha de um “culpado secundário”

Veja alguns exemplos dos comentários acerca do caso de Itumbiara:

Dados que contextualizam o problema

Kelly lembra que os números da violência de gênero no Brasil permanecem alarmantes. “São 13 mulheres assassinadas por dia no país. Mais de 200 estupros por dia, a maioria contra crianças vulneráveis. Isso mostra que não estamos falando de casos isolados.”

Esses dados reforçam que a violência contra mulheres e meninas não é episódica, mas estrutural. A culpabilização feminina nos comentários não surge no vazio — ela ecoa padrões históricos que associam às mulheres a responsabilidade pela estabilidade moral e emocional da família.

Consciência coletiva e mudança cultural

Para a advogada, enfrentar esse tipo de narrativa exige um movimento coletivo. “Todos nós precisamos tomar consciência de como reproduzimos o machismo. O ódio às mulheres não está só no outro. Está também nas pequenas falas, nas piadas, na rivalidade incentivada entre mulheres.”

Ela defende que homens também precisam participar ativamente da mudança. “São eles que, majoritariamente, agridem e matam. Mas a sociedade inteira precisa revisar como naturaliza essas violências.”

A tragédia de Itumbiara expôs não apenas a brutalidade de um ato extremo, mas também a persistência de discursos que, mesmo sem defender explicitamente o crime, relativizam responsabilidades e deslocam a culpa para mulheres.

Mais do que reações isoladas nas redes, esses comentários revelam como padrões culturais antigos continuam operando no debate público — e como o enfrentamento da violência de gênero passa, necessariamente, pela revisão dessas narrativas.

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