Ao Jornal Opção, capitão do Bope explica por que RJ está deixando status de ‘porto seguro’ dos líderes de facções de outros estados
10 janeiro 2026 às 17h26

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Com colaboração de Raphael Bezerra
Em entrevista exclusiva ao repórter Raphael Bezerra, do Jornal Opção, o Capitão Wellington Moreira, diretor de comunicação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), explicou por que lideranças do Comando Vermelho de outros estados, incluindo Goiás, passaram a buscar refúgio no Rio — e porque essa estratégia tem falhado.
O avanço das operações integradas entre as forças de segurança de Goiás e do Rio de Janeiro tem reduzido o tempo de permanência de criminosos de alta periculosidade que tentam se esconder em comunidades dominadas por facções no território fluminense.

Segundo o oficial, a escolha do Rio de Janeiro como destino obedece a uma lógica estratégica do crime organizado, baseada principalmente nas características geográficas e operacionais das áreas dominadas por facções.
“A lógica é puramente estratégica e defensiva. O Rio virou uma espécie de ‘porto seguro’ para lideranças [criminosas] de fora por três motivos principais”, afirma o capitão Wellington Moreira.
O primeiro fator é o que o BOPE chama de “bunker geográfico”. De acordo com Moreira, comunidades instaladas em morros e áreas de alta densidade populacional oferecem proteção natural contra a atuação do Estado.
“Diferente de outros estados, o Rio possui comunidades dominadas territorialmente, com geografia complexa, cheias de vielas, barricadas e população. O criminoso não vem apenas para se esconder, ele vem para se valer desse escudo populacional. É o que chamamos de refúgio em área conflagrada”, explica.
Outro ponto destacado pelo capitão é o interesse logístico por trás do abrigo desses criminosos. A presença de líderes de fora fortalece as conexões do tráfico em nível nacional.
“Quando uma facção do Rio abriga um criminoso de Goiás, por exemplo, ela fortalece a própria rede. O Centro-Oeste é uma rota estratégica de armas e drogas. Esses indivíduos trazem contatos, fornecedores e rotas, criando uma espécie de ‘joint venture’ do crime”, afirma.
Além disso, o ambiente das comunidades dominadas oferece um sistema permanente de proteção aos foragidos.
“Esses criminosos contam com seguranças armados 24 horas por dia e sistemas de alerta. Eles se sentem mais seguros ali do que em uma casa de luxo ou numa fazenda, onde a inteligência policial consegue localizá-los com mais facilidade”, detalha Moreira.
Apesar dessa estratégia, o capitão ressalta que o cenário mudou nos últimos meses, especialmente com o avanço da cooperação entre as forças de segurança dos dois estados.
“A mensagem que estamos passando com essas prisões recentes é clara: o Rio não é mais o esconderijo que eles pensam. A integração de inteligência entre as polícias de Goiás e do Rio de Janeiro quebrou essa sensação de impunidade”, conclui.
Caso recente
Cássio Dumont Martins Tavares, de 36 anos, conhecido como Cascão, foi preso na manhã desta sexta-feira, dia 9, no Rio de Janeiro. Segundo as investigações, ele é apontado como líder da facção criminosa Comando Vermelho em Trindade, na Região Metropolitana de Goiânia, e mantinha ligação com outras lideranças do grupo. Cascão coordenava o tráfico interestadual de drogas por meio de um esquema de entregas no modelo “delivery”.
A prisão foi realizada pela Polícia Militar do Rio de Janeiro no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. A operação contou com o apoio do setor de Inteligência e do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) de Goiás.
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