Antes de gastar R$ 30 milhões com kit de robótica, Prefeitura de Aparecida teve oferta de empréstimo gratuito

12 abril 2022 às 07h05

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Além de custar quase R$ 30 milhões, plano não atende as necessidades do mercado educacional

Então prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (Patriota) teve opção de levar robótica à rede municipal de ensino por meio de um sistema de comodato – um empréstimo gratuito de algo que deve ser restituído no tempo convencionado pelas partes -, mas ainda assim ele optou por gastar quase R$ 30 milhões na aquisição de 38.617 kits de “Guia Prático Maluquinho Por Robótica”, conforme antecipou o Jornal Opção. Gasto que, inclusive, gerou revolta entre os professores de Aparecida, que alegam que as escolas não têm infraestrutura necessária para utilização dos kits e os professores recebem abaixo do piso nacional do professores, R$ 3.845,63, sob argumento de falta de recursos por parte do Executivo.
Antes de fechar contrato, sem licitação, com a Conexão Intelectual Comércio de Livros e Papelaria, ao custo de R$ 29.916.834,44 para aquisição dos kits de robótica, o empresário Luis Renato, proprietário da Prática Educacional, procurou a Prefeitura de Aparecida de Goiânia durante quatro anos, “de forma incansável”, sem sucesso. A ideia era apresentar um projeto técnico de natureza público-privado sobre robótica que incluía o fornecimento na condição de comodato. Porém, não houve sucesso. Ao Jornal Opção, Luis Renato contou que Prefeitura de Aparecida de Goiânia foi quem se aproximou, pela primeira vez, da empresa para conhecer o projeto de robótica. Eles, então, apresentaram o plano, porém, a Secretaria Municipal de Educação (SME) não devolveu o contato. Luis diz que buscou retorno para entender os motivos da recusa, porém, não obteve êxito.
Além do gasto milionário, Luis aponta erros técnicos do programa Robótica empregado pela prefeitura. Para ele, há falta de capacitação dos profissionais. “A prefeitura não ofereceu cursos de extensão ao corpo docente da rede municipal de Aparecida que vai ministrar essas aulas. Por que usar esses professores que não têm acesso a isso?”, questiona. Outra falha é a aquisição do kit escolhido. “O kit sozinho não funciona. Precisa de tecnologia. Se não tiver um projeto educacional de robótica, não há sustentabilidade no assunto”, reclama. Professores da rede, no entanto, alegam que as unidades de ensino não tem estrutura para operacionalização dos kits comprados pelo Executivo.
Renato pontua, inclusive, que a SME “não comprou um kit de robótica”. “Na verdade, aquilo ali nunca pode ser chamado de robótica educacional, muito menos um kit. O projeto é uma réplica de projeto que foi desenvolvido por uma empresa que durante a pandemia entrou em crise. Essa organização, antes da pandemia, fornecia os nossos sensores. O que me preocupa é a inversão de valores. Precisamos dar nomes as coisas. Por ser um tema novo, há muita distorção. Basicamente a prefeitura do município usa o dinheiro para enganar a comunidade, porque não replica o fato verdadeiro”, critica. De acordo com o empresário, para se falar em robótica deve haver também projeto educacional paralelo, o que não havia na prefeitura. “Coisas de política”, acrescenta.
Compra questionada
O contrato foi assinado em 17 de dezembro do ano passado, ainda na gestão do ex-prefeito Gustavo Mendanha, com dispensa de processo licitatório sob alegação de inexigibilidade, ou seja, quando o produto ou serviço é de exclusividade de uma única empresa. A compra, no entanto, é questionada pelo Comando de Luta da Educação de Aparecida de Goiânia, que no começo deste ano tentou promover uma greve da categoria por reajustes salariais.
“Os valores pagos na compra desses materiais são um absurdo. Uma afronta à inteligência de famílias e servidores. O projeto robótica é mais uma forma de desviar verbas que deveriam ser investidas na alfabetização e defasagem de aprendizagem dos estudantes e na valorização dos servidores”, denuncia um professora vinculado ao Comando.
A entidade reclama que a aquisição do material é uma afronta aos professores, que mesmo com a pandemia da Covid-19, estão com as salas de aula superlotadas, tendo mais de 40 alunos, alguns deles com necessidades educacionais especiais e sem apoio. Somado a isso, servidores adoecidos com sobrecarga de trabalho, escolas com estruturas precárias, sem ventilador ou ar condicionado, sem internet de qualidade para preenchimento dos registros e, inclusive, para uso em sala de aula da tecnologia adquirida por Mendanha com custo milionário. A deficiência estrutural inclusive foi um fatores que deflagrou a greve dos professores de Aparecida.
O jornal entrou em contato com a Secretaria Municipal de Comunicação (Secom) da Prefeitura de Aparecida de Goiânia, por e-mail, para saber detalhes do projeto de robótica e as possíveis sugestões externas, porém, até o fechamento da reportagem, a pasta não havia respondido aos questionamentos. O espaço segue aberto para novas declarações.