Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima

“T is vain to struggle – let me perish youg”

              Byron

“Foi por ti que num sonho de ventura

A flor da mocidade consumi,

E às primaveras digo adeus tão cedo

E na idade do amor envelheci!

Vinte anos! Derramei-os gota a gota

Num abismo de dor e esquecimento…

De fogosas visões nutri meu peito…

Vinte anos!… não vivi um só momento!         

      (AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. São Paulo: Ed. FTD, 1994, p. 96.)

Este poema, denominado “Saudade” é epigrafado por uma frase de George Gordon Byron, 6º Barão Byron, poeta britânico (1788-1824, conhecido como Lord Byron uma das figuras mais influentes do Romantismo). A frase traz a seguinte instrução: “É inútil lutar – deixe morrer moço!”

A Poesia Ultrarromântica de Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo viveu profundamente o Romantismo e marcou a fase aguda, a Segunda Geração da nossa poesia romântica, escrevendo entre o Indianismo de Gonçalves Dias (ainda tão amarrado ao Classicismo) e os versos inflamados de Castro Alves (com seu engajamento político e literário).

Influenciado pelos britânicos George Gordon – Lord Byron, Mary Shelley   (Mary Wollstonecraft Shelley, nascida Mary Wollstonecraft Godwin – (Somers Town, Londres, 30 de agosto de 1797 – Chester Square, Londres, 1 de fevereiro de 1851) mais conhecida por Mary Shelley, foi uma escritora britânica, filha do filósofo William Godwin e da feminista e escritora Mary Wollstonecrafte, pelos franceses,) Alfredo de Mussete, Victor Hugo, Alvares de Azevedo enfatizou a imaginação criadora, o subjetivismo, a solidão, o desânimo, a melancolia, o pessimismo, o sonho e a morbidez. Sua poesia foi contagiada pelo mal-do-século e transpira byronismo, satanismo, paixões exasperadas, saudades. Porém, se por um lado Byron foi sua mola propulsora, por outro, não se pode passar por cima de uma das maiores contribuições deste poeta à literatura brasileira: ele foi dos primeiros a utilizar a ironia como técnica poética e a incorporar à sua poesia a descrição de objetos cotidianos como o charuto, a lamparina, o conhaque, sua cama, seus livros.

Álvares de Azevedo deu um banho de concretude e prosaísmo num período em que, para a literatura, tudo era fluído e esfumado. Apesar de ter escrito poesias lacrimosas, melosas, tão carregadas de spleen, demonstrou uma veia sarcástica e brincalhona em boa parte de sua obra.

Liberdade criadora e subjetivismo

Expoente do Ultrarromantismo brasileiro, o jovem poeta, Álvares de Azevedo, proclamou sua independência pessoal para julgar o que era belo ou verdadeiro. Não seguiu as regras clássicas ditadas exclusivamente pela razão e eliminou os preconceitos gerais que tendem a uniformizar os estilos e cortar as asas da imaginação pessoal; exaltou o gênio criador e renovador do artista, criou mundos imaginários, livres, solitários e únicos; deixou descer o gênio da poesia e do romantismo sobre sua vida. No poema “Lágrimas de Sangue” (AZEVEDO, Álvares, 1994 p. 109), tem como epigrafe de Jó (Jó 10,1) (BÍBLIA SAGRADA. , 2012, p. 651) “Taedet animam meam vitae meae”, que na tradução de São Jerônimo, explicou como Vulgata, (vulgata editio ou vulgata versio ou vulgata lectio, respectivamente “edição, tradução ou leitura de divulgação popular) – e, muito acertadamente, é bastante literal, mas sem a estrutura do hebraico antigo, e diz algo como: “minha alma está cansada da minha vida” ou “ Estou cansado de viver”.

Lágrimas de Sangue” exprime: Indolente Vestal, deixei no templo / A pira se apagar – na noite escura / O meu gênio descreu. / Neste poema percebemos, de um lado, a auto idealização do poeta, que se considera um ser em exceção entre os homens. Por outro lado, um gênio solitário, poeta livre, criativo, que não se apega a leis e não tem a morte como alívio para dores da vida.

 As composições de Álvares de Azevedo seguem a forma da emoção, por isso, possuem métrica e rimas variáveis, reguladas pelo sentimento e pela criatividade. Muitas vezes, são escritas em versos brancos, cuja cadência está muito próxima da prosa. Em seus textos, a realidade sempre é revelada através da atitude pessoal do escritor, não se preocupando, com modelos. O artista traz à tona o seu mundo interior, com plena liberdade.

Sonho x realidade

O embate sonho x realidade é uma das tensões da poesia de Álvares de Azevedo. O sonho permite a criação de um ambiente pessoal, povoado de situações e figuras idealizadas, que permite ao escritor fugir para um mundo de idealizações à base do sonho e das emoções pessoais. O poeta procura universos de ilusões, mulheres imaginárias, fantásticas, amores impossíveis, como no fragmento do poema “Ideias Íntimas”: “Junto a meu leito, com as mãos unidas, /Olhos fitos no céu, cabelos soltos, /Pálida sombra de mulher formosa/Entre nuvens azuis pranteiam orando. /É um retrato talvez. Naquele seio/Porventura sonhei doiradas noites:/Talvez sonhando desatei sorrindo/Alguma vez nos ombros perfumados/Esses cabelos negros, e em delíquio/Nos lábios dela suspirei tremendo. /Foi-se minha visão. E resta agora/Aquela vaga sombra na parede/– Fantasma de carvão e pó cerúleo, /Tão vaga, tão extinta e fumarenta/Como de um sonho o recordar incerto”.   (Ibidem p. 142-143)

No texto acima há uma descrição de uma mulher formosa. Esta descrição aproxima-se de uma imagem angelical, intocável e sagrada que caracteriza a Senhora, a “Mulher anjo” da concepção medieval: “com as mãos unidas, / Olhos fitos no céu, / entre nuvens azuis pranteia orando”.

Ao mesmo tempo, não sabemos até que ponto se trata de uma imagem, uma visão, ou um sonho:“Pálida sombra de mulher formosa / É um retrato talvez” … um retrato onde a sensualidade, o erotismo, também aparecem: “cabelos soltos, […] /[…] seio /[…] ombros perfumados / [[…] lábios[…]”.Observe que aqui o elemento mais importante e presente nos versos é o predomínio do sonho sobre a realidade. Apenas sonhando, o poeta aproxima-se da mulher. Isto porque, embora se possa perceber com clareza o desejo carnal, sensual, a “imagem” que o desperta não passa de uma imagem, de uma visão que se esvai e se transforma em “Fantasma de carvão e pó cerúleo, / … vaga… extinta e fumarenta / Como de um sonho o recordar incerto”.

Temos, assim, a presença de um erotismo doentio e reprimido neste poema. Um erotismo que torna sagrada, ideal e, por isso, intocável e medieval a imagem da mulher que o desperta. Ultrarromantismo: contradição entre desejo e satisfação, entre o ideal e o real, entre o sonho e a realidade no seu mais alto grau, na sua mais expressiva e radical voz poética, em termos de literatura brasileira: a voz lírica de Álvares de Azevedo.

O antológico soneto “Pálida, a luz da lâmpada sombria” (Ibidem p. 72) é outro exemplo desse clima de sonho. Nele, o poeta devaneia e se compraz em contemplar a mulher, ora virgem do mar, ora Anjo entre nuvens d’alvorada; tudo em profunda atmosfera de irrealidade. Veja o poema: Pálida à luz da lâmpada sombria, /Sobre o leito de flores reclinada, /Como a lua por noite embalsamada, /Entre as nuvens do amor ela dormia! //Era virgem do mar, na escuma fria/Pela maré das águas embalada! /Era um anjo entre nuvens d’alvorada/Que em sonhos se banhava e se esquecia! //Era mais bela! O seio palpitando…/Negros olhos as pálpebras abrindo…/Formas nuas no leito resvalando…//Não te ria de mim, meu anjo lindo! /Por ti – as noites eu velei chorando, /Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!  (Idem p. 72).

Na primeira estrofe, o “eu” lírico já anuncia a temática do poema na menção à mulher, sugerida por pálida, comparada com a lua, envolvida por flores e nuvens de amor: A mulher dos sonhos.

Em “Meu Sonho”, Álvares de Azevedo cria um clima onírico de galopada fantasmagórica: Cavaleiro das armas escuras, /Onde vais pelas trevas impuras/Com a espada sangrenta na mão? /Por que brilham teus olhos ardentes /E gemidos nos lábios frementes/Vertem fogo do teu coração? (Ibidem p. 209)

O poeta descreve um sonho em que um fantasma, galopando pelo reino da morte, corporifica sua angústia resultante das frustrações de suas aspirações. A cadência martelada dos versos eneassílabos, acentuados na 3a, 6a e 9a sílabas, faz o som unir-se ao sentido e representar sonoramente a marcha ritmada do galope do cavalo, ao mesmo tempo em que cria o ofego de angústia do eu. O galope insere-se num cenário noturno, visualizado pelo uso de expressões que sugerem obscuridade: “armas escuras”, “trevas impuras”, “macilento qual morto na tumba”.A atmosfera do poema é típica do Romantismo a noite favorece e intensifica o mistério, o inexplicável, o indefinível. Na compreensão do mundo, o romântico pouco utiliza a razão. Por isso, mergulha no seu inconsciente onde tudo é caótico, misterioso e extraordinário. O escritor romântico está aberto para o sobrenatural e o fantástico. Álvares de Azevedo é, por excelência, o poeta da noite, do sono e do sonho. A esta atmosfera acrescenta-se o clima de mistério e fantasmagoria em torno do cavaleiro, que galopa dentro da noite de um sonho com conotações de pesadelo, medo, reforçando o lado macabro dos versos Azevedianos.

A idealização da mulher

Um dos elementos mais constantes nos versos de Álvares de Azevedo é a mulher, que aparece ora virgem adormecida, pálida, inocente, inatingível, ora prostituta. A figura feminina povoa seu universo, numa obsessão de adolescente, cujo caráter sonhador e irreal, além de irrealizável, dá o tom às cenas das quais participam estas figuras mágicas e idealizadas.

A mulher, entre os românticos, aparece convertida em anjo, em figura poderosa, inatingível, capaz de mudar a vida do próprio homem. No decorrer de sua Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo, somando espiritualismo e temperamento sonhador, reveste a mulher com áurea angelical, tipicamente romântica.

O Platonismo amoroso

O adolescente Álvares de Azevedo explicita sua inexperiência amorosa em versos como na estrofe IX de “Ideias Íntimas” (Ibidem p. 144): “Oh! ter vinte anos sem gozar de leve / A ventura de uma alma donzela! / E sem na vida ter sentido nunca /na suave atração de um róseo corpo / Meus olhos turvos se fechar de gozo!”.

O jovem adolescente não conhece o amor, vive no mundo suprassensível ou inteligível, teorizado por Platão. Desta forma, o amor para o jovem poeta existe apenas no mundo das ideias, é platônico. Do platonismo de Álvares surgem as mulheres idealizadas, puras, santas, donzelas, virgens e mortas. Vejamos alguns versos do poema “Virgem Morta”:  Ó minha amante, minha doce virgem, /Eu não te profanei, e dormes pura:/No sono do mistério, qual na vida, /Podes sonhar apenas na ventura.  (Ibidem p. 101-102)

A virgem é um símbolo da mulher imaculada, pura, santa, altamente idealizada. A morte salva a criatura de ser conspurcada pelo amor carnal, pelo mundo sensível, real de que nos fala Platão em suas teorias das ideias. Assim, morrendo a donzela, desaparece a possibilidade da realização amorosa no plano terreno, real, para transcender-se ao espiritual e ideal na concepção romântica.

O amor e a morte são inseparáveis no Romantismo. O amor é, em princípio, a face afirmativa de um ideal, da vida, do anseio de viver extremamente, sentindo todos os prazeres e o gozo supremo da vida, êxtase que se realiza plenamente no prazer amoroso: “Amemos! Quero de amor / Viver no teu coração! / Sofrer e amar essa dor / Que desmaia de paixão!” (Ibidem p. 199).

Por outro lado, o romântico é um ser insatisfeito, vive no plano das ideias. Diante da plena irrealização amorosa durante a vida, busca no seu extremo, na morte, a realização do seu sonho de amor. Se a vida negou-lhe o amor supremo, na morte nenhum ideal lhe será negado: “Ó minha virgem dos errantes sonhos, / Filha do céu, eu vou amar contigo!”(Ibidem p. 119). A morte é a ponte para concretizar o sonho do platônico amor e onde a limitação dos instintos é sublimada e o erotismo é levado ao plano das sensações espirituais.

A imagem da mulher adormecida

A imagem da donzela adormecida é a figura central dos sonhos do poeta adolescente. No poema “Cantiga” (Ibidem p. 94), o “eu” lírico apresenta:  “Em um castelo doirado /Dorme encantada donzela; /Nasceu – e vive dormindo /– Dorme tudo junto dela”. (Idem p. 94)

Os versos acima fazem alusão ao mito da bela adormecida ou da branca de neve, também bela, adormecida, virgem, fragilizada e semimorta. Imagens semelhantes encontram-se em outros poemas, especialmente na estrofe sete de “Ideias Íntimas”:  Em frente do meu leito, em negro quadro /A minha amante dorme. É uma estampa/De bela adormecida. A rósea face/Parece em visos de um amor lascivo/De fogos vagabundos acender-se…/E com a nívea mão recata o seio…/Oh! quantas vezes, ideal mimoso,/Não enchestes minh’alma de ventura, /Quando louco, sedento e arquejante, /Meus tristes lábios imprimi ardentes/No poento vidro que te guarda o sono. (Ibidem p. 143)

Verifique nos dois fragmentos acima que a mulher adormecida aparece como objeto de adoração, próxima, mas distante. O poeta limita-se a ser um contemplador reverente, apaixonado. No fragmento sete de “Ideias Íntimas”, o poeta é mais do que um observador, é um jovem extremamente deslumbrado com “os vícios de um amor lascivo / de fogos vagabundos” acender-se.

Em Álvares de Azevedo o amor é sempre irrealizado e só ocorre no plano do sonho, da fantasia. Ou o “eu” lírico sonha a posse sexual da amada, ou a amada dorme; a contemplação do sonho estimula os desejos do poeta adolescente. O amor carnal está sempre associado à culpa e à punição; coexistem o desejo e o medo do amor.

O NOIVO DA MORTE

Além da figura feminina, Álvares de Azevedo versejou sobre outro tema com igual constância A Morte – numa espécie de prenúncio do trágico desfecho de sua vida, a tal ponto do biógrafoVicente de Azevedo denominá-lo de O Noivo da Morte.

De fato, a morte é mais forte do que a vida na obra azevediana. Em poemas antológicos como “Se eu morresse amanhã” (que não faz parte da Lira dos Vinte Anos e foi escrito, segundo os biógrafos, em seu leito de agonia); “Um cadáver de poeta” (Ibidem p. 125) e “Lembrança de Morrer” (Ibidem p. 118), a morte domina.

Lembrança de morrer

O livro de poemas Lira dos Vinte Anos traz como epígrafe principal as seguintes palavras deBocage: “Cantando a vida, como cisne a morte”(Ibidem p. 22). Esta frase predispõe o espírito do leitor para a temática do fim da vida e para visão pessimista do “eu” lírico, que encara o viver como um ato agônico e mórbido e sua poética como um canto desse ato.

A existência é uma fonte de angústia, tédio e prisão, seu fim é alegria e libertação. É o que expressa os versos de “Lembrança de Morrer”:

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
……………………………………..
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
………………………………
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.
            (Ibidem p. 118-119)    

Os temas da obsessão pela morte, do desencantamento pela vida, da morbidez e da solidão: “Não derramem por mim uma lágrima / Em pálpebra demente – Não quero que uma nota de alegria / Se cale por meu triste pensamento”, são a base destes versos”. Tal espécie de masoquismo atinge um grau máximo na terceira estrofe, quando o poeta se identifica com o “poento caminheiro”, que se despede do deserto. Assim, também, o “eu” lírico despede-se da vida, metaforizada aqui, “como as horas de um longo pesadelo que se desfaz ao dobre de um sineiro […]” Deste modo, quando os sinos dobrarem pelo poeta, será um momento de silêncio, paz e, também, de alegria.

O terceiro fragmento apresenta objetivamente o descaso do poeta pelo fio vital. O Canto do Cisne – o momento supremo –, o fim, aparece como alívio, já que o pulsar do coração é dor e “um longo pesadelo”. O único valor positivo que o “eu” lírico encontra no hálito que vivifica é apresentado através da expressão “amorosa ilusão”. Para o artista a vida é ilusão que as pessoas embelezam de acordo com suas fantasias. Finalmente, expõe o famoso epitáfio gravado na lápide de seu túmulo: “Foi poeta – sonhou – e amou na vidaresumindo o sentido da existência de quem fez da sua lira, sua profissão de fé, de amor, de vida e de morte.

O pálido poeta

O eterno sono é configurado ainda mais nas palavras “pálido”, “palor”, “palidez”, “macilento”,presentes em praticamente todos os seus poemas e produção em prosa, transmitindo à sua obra um aspecto doentio (tuberculoso). Uma outra maneira do noivo da morte aproximar-se das sombras do túmulo é o gosto pelo macabro e fantasmagórico. Muitos de seus textos estão povoados de cadáveres, caveiras e castelos fantásticos. Álvares de Azevedo incorporou o estilo de Lord Byron e reproduziu com primazia o tédio e o spleen desse mal do século.

O tom sóbrio conferido ao próprio rosto e ao próprio livro da vida reforça o estereótipo do poeta ultrarromântico, de sensibilidade doentia e mórbida. Sua Lira é o espelho de alguém que em seus vinte anos cantou mais o fim do que o princípio.

O crítico Antonio Candido “definiu o mal-do-século como um sentimento de inadaptação da vida a seus fins”(CANDIDO,A. (1959), p. 28).Ora, a vida é lume nos olhos e não, sombras. A vida pode até ser uma ilusão ou até uma reinvenção como afirma Cecília Meireles: “A vida só é possível reinventada/ Anda o sol pelas campinas/ e passeia a mão dourada/ pelas águas, pelas folhas…/ Ah! tudo bolhas/ que vêm de fundas piscinas/ de ilusionismo… – mais nada” (MEIRELES,C. (1996), p. 48).Porém, essa última concepção não é tão pessimista quanto a dos ultrarromânticos, pois, para a poetiza modernista, o homem tem a capacidade de criar, reinventar e fazer da ilusão da vida, uma realidade mais brilhante, mais sol do que noite. Para os românticos não existe sol, vida; a noite e a morte reinam em suas fantasias.

Brasileirismo malandro

Surgido e desenvolvido no período da independência e de afirmação nacional, o Romantismo parece ligado às ideias verde-amarelas de brasilidade. Assim, falar de Romantismo é, de alguma maneira, falar também em nacionalismo. Mesmo porque o sentimento nacional era geral, ocorrendo não só na literatura brasileira como também na literatura (e política) europeia.

Álvares de Azevedo, à primeira vista, parece ter fugido à regra, já que seus poemas mais conhecidos estão voltados para o cenário europeu e impregnados de imagens byronianas e shakesperianas. Porém, seu brasileirismo não aconteceu por meio da celebração de índios, palmeiras, onças, mas através de pronunciamentos como o discurso proferido por ocasião da instalação da Sociedade Acadêmica de Ensaio Filosófico, onde discutiu a necessidade de uma filosofia e literatura brasileiras e, principalmente pelas vias do sarcasmo, da ironia, da descrição de suas coisas (ideias)íntimas e da sugestão da malandragem.

Homem da cidade, ele não conheceu o Brasil floresta, mas a emergência do nosso país urbano. E, aí, é o precursor. Seus melhores escritos tratam de um Brasil próprio de estudantes de Direito, afeitos à galhofa, à brincadeira, à piada. Em “Namoro a cavalo”, temos um exemplo do brasileirismo malandro, atrevido, desabusado e, sobretudo, astuto e matreiro:  “Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça/Que rege minha vida malfadada/Pôs lá no fim da rua do Catete/A minha Dulcinéia namorada(…)   /Circunstância agravante. A calça inglesa/Rasgou-se no cair de meio a meio, /O sangue pelas ventas me corria/Em paga do amoroso devaneio! … (Ibidem p. 190)

 Observe como o poeta apresenta notas intencionalmente prosaicas, num largo deboche ao romantismo sublime de sua época. O casamento tão respeitado pelos românticos, aqui é visto como uma comédia, o que nos faz lembrar o poema “Amor”, de Oswald de Andrade, que conceitua esse sentimento amoroso com a seguinte palavra do poema-piada-relâmpago “humor” (ANDRADE,O. (1990), p. 41). Portanto, para o modernista, amor é humor; e para o romântico Álvares, casamento é comédia. Logo, a veia sarcástica de Álvares de Azevedo tem a mesma concepção sobre o sentimento amoroso ou sua consagração.

Outro poema que possui sugestão malandra, típica do brasileiro boa-vida, ocioso e valdevino, que não se preocupa com tempo, dinheiro e trabalho, é o poema “Vagabundo” (Ibidem p. 176), citado anteriormente. Veja como os seguintes versos trazem o espírito macunaímico, imortalizado por Mário de Andrade com seu “Macunaíma”: “[…] a preguiça a mulher por quem suspiro. / […] Ora, se por aí alguma bela/ Bem doirada a amante da preguiça/ Quiser a nívea mão unir à minha/ Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa”. Este poeta ultrarromântico, sem dúvida, foi um precursor do humor, do brasileirismo malandro tão festejado pelos poetas da primeira geração modernista.

IDEIAS ÍNTIMAS

Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, em 12 de setembro de 1831. Criou-se no Rio de Janeiro, voltando a São Paulo em 1948, para cursar a Faculdade de Direito, época em que a Paulicéia Desvairada era uma cidade pouco iluminada, cheia de buracos e tediosa como se queixava o próprio Álvares, em correspondência à mãe e irmã:

[…] Não há passeios que entretenham nem bailes, nem sociedades, parece isto uma cidade de mortos – não há nem uma cara bonita em janela – só rugosas caretas desdentadas – e o silêncio das ruas só é quebrado pelo ruído das bestas sapateando no ladrilho das ruas.

Esse silêncio convida mais ao sono que ao estudo, enlouquece, e entorpece as imaginações e pode-se dizer que a vida aqui é um sono perpétuo.(AZEVEDO,A. (1942), p. 493).

Uma saída para o tédio paulista eram as famosas, quando pouco verossímeis, orgias estudantis, com presença de certas moças que enchiam de amor nossos poetas. Além de algumas festas de salão, outro passatempo era a bebida. Isto acontecia devido ao caráter boêmio da época e, também, como fuga do dia a dia. Contudo, especular sobre o assunto é coisa que não trará grande contribuição à compreensão da literatura da época: pouco ou nada interessa saber os quanto boêmios eram Álvares de Azevedo e seus amigos Bernardo Guimaraens e Aureliano Lessa. Interessa, sim, entender a presença do conhaque e do vinho em suas obras. Qualquer byroniano que se prezasse deveria citá-los, ao menos, já que estas bebidas eram símbolos de um estado de espírito. O conhaque e o Johannisberg, vinho branco alemão, são constantes na poesia de Álvares de Azevedo, como nos versos de “Ideias Íntimas”: I … O Lamartine – É monótono e belo como a noite, /Como a lua no mar e o som das ondas…/Mas prateia uma eterna monodia, (…)  Do nobre Johannisberg! Nos teus romances/Meu coração deleita-se… Contudo/Parece-me que vou perdendo o gosto, /Vou ficando blasé, passeio os dias/Pelo meu corredor, sem companheiro, /Sem ler nem poetar. Vivo fumando. (Ibidem p. 139/141)

Em “Ideias Íntimas”o poeta descreve por meio de referências visuais, toda a sua vida de boêmio e de estudante. A atmosfera domiciliar em que se desenvolvia seu cotidiano de estudos e de criação literária é apresentada com detalhes: a cômoda, a cama, travesseiros, livros etc. Nesse seu modus vivendi o “eu” lírico isolava-se no seu estado blasé, “pelo corredor, sem companheiro”.

Ora limitava-se a ler e fumar; ora ficava apenas fumando sem ler nem poetar; ora bebia, fumava e lia romances lascivos, sonhava com Margaridas, Elviras saudosas e Clarisses símbolos de fantasias de grandes amantes da literatura; e lia, antes de tudo, Afonso de Lamartine (1790-1869), Alfredo de Mussett (1810-1857), Shelley (1792-1822), Goethe (1749-1832), Cervantes (1547-1616), Luís Vaz de Camões (1524/5-1580), Ariosto (1474-1533), Horácio (65 a.C. – 8 d.C.), Homero (século IX a.C.), Vigny (1797-1863), Dante (1265-1321), a Bíblia, Shakespeare (1564-1616) e Lord Byron (1788-1824).

Em todos os fragmentos de “Ideias Íntimas” aparecem momentos de devaneio, motivados pelo fumo, pelo álcool e pela solidão que são sempre interrompidos por momentos de lucidez: XIV “Parece que chorei… Sinto na face /Uma perdida lágrima rolando… /Satã leve a tristeza! Olá, meu pajem, /Derrama no meu copo as gotas últimas/Dessa garrafa negra…/Eia! bebamos! /És o sangue do gênio, o puro néctar/Que as almas de poeta divinizam, /O condão que abre o mundo das magias! /Vem, fogoso Cognac! É só contigo”. (Ibidem p. 147)

Os dois primeiros e os três últimos versos revelam consciência por parte do “eu” lírico. Os versos intermediários sugerem um estado de embriaguez, motivado pelo conhaque e pelo estado blasé do poeta.

Nestes fragmentos, Álvares de Azevedo trabalha o poético e o prosaico, dando asas ao seu intimismo, quer por meio do erotismo, quer do amor irrealizado que só ocorre no plano do sonho, da fantasia (quando o poeta sonha a posse sexual da amada): “Meus olhos turvos a se fechar de gozo”; ou quando lê os grandes mestres, fala dos pais, fica em estado de embriaguez, fica lúcido e volta de novo ao devaneio.

Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima é autora de 50 obras, ensaísta, crítica literária, escritora de obras da literatura infanto-juvenil, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras – Literatura e Crítica Literária – Mestrado e Doutorado da PUC Goiás e Titular da Cadeira nº 5 da Academia Goiana de Letras (AGL)