Aguada Fénix: complexo maia de 3 mil anos revela conhecimento avançado do cosmos
12 abril 2026 às 10h46

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Um dos mais antigos e impressionantes sítios da civilização maia, o complexo de Aguada Fénix, no sudeste do México, tem revelado novos detalhes sobre como esse povo enxergava o universo.
Descoberto com tecnologia de sensoriamento remoto e divulgado em 2020, o local continua sendo alvo de estudos que aprofundam o entendimento sobre a organização social e religiosa dos maias.
Construído há cerca de 3.050 anos, Aguada Fénix é considerado o maior e mais antigo sítio arquitetônico da região maia. Diferentemente de cidades posteriores, como Tikal e Teotihuacán, o local não possui pirâmides de pedra, sua estrutura principal é um enorme platô artificial de terra.
A construção inclui calçadas, canais e corredores interligados, formando uma espécie de centro cerimonial que foi utilizado por cerca de 300 anos. Por ter sido feito de terra e estar coberto por vegetação, o sítio permaneceu oculto por milênios.
A identificação do complexo só foi possível graças ao uso da tecnologia LiDAR (Light Detection and Ranging), que permite mapear o relevo mesmo sob florestas densas. Essa técnica tem transformado a arqueologia na América Central ao revelar estruturas antes invisíveis a olho nu.
Segundo pesquisadores, a plataforma principal chega a cerca de 15 metros de altura, mas é difícil de perceber do solo, sendo facilmente confundida com uma formação natural.
Estudo publicado na revista Science Advances indica que o desenho do sítio reflete a cosmologia maia. O local apresenta padrões em forma de cruz, com uma cavidade central onde foram encontrados artefatos de jade organizados da mesma forma.
De acordo com o arqueólogo Takeshi Inomata, o complexo funcionava como um modelo simbólico do cosmos. “O universo era concebido com base nesse padrão cruciforme, ligado à ordem do tempo”, explicou.
Além disso, cores associadas a direções, como azul (norte), verde (leste) e amarelo (sul), reforçam a ideia de organização espacial e ritual.
Outro aspecto relevante é o alinhamento da estrutura com o nascer do sol em datas específicas: 17 de outubro e 24 de fevereiro. O intervalo de 130 dias entre essas datas corresponde à metade do calendário ritual mesoamericano de 260 dias.
Isso sugere que o local era utilizado para cerimônias em períodos importantes do calendário, funcionando como um centro ritual e astronômico.
Um dos pontos mais surpreendentes da pesquisa é a ausência de indícios de desigualdade social. Diferentemente de outras cidades maias, não foram encontrados palácios, esculturas de governantes ou sinais claros de elite dominante.
Segundo Inomata, isso indica que o complexo pode ter sido construído por trabalho coletivo voluntário, e não por imposição de uma elite.
Estimativas apontam que mais de mil pessoas participaram da construção, ao longo de vários anos. O volume total da obra exigiu milhões de dias de trabalho, evidenciando um esforço comunitário significativo.
Para especialistas como Stephen Houston e Andrew Scherer, Aguada Fénix representa uma descoberta fundamental para compreender um período ainda pouco conhecido da história mesoamericana.
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