Aflag: a escrita das mulheres que transformou Goiás
31 março 2026 às 14h15

COMPARTILHAR
Andréa Luísa Teixeira e Dani de Brito
A história da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (AFLAG) é, antes de tudo, a história de uma conquista silenciosa e persistente. Não se trata apenas a fundação de uma instituição, mas a afirmação de um espaço de voz, de pensamento e de criação em um tempo em que a presença feminina ainda buscava reconhecimento pleno no campo das letras e das artes.
Fundada em 9 de novembro de 1969, a AFLAG teve como principais articuladoras Rosarita Fleury, Ana Braga e Nelly Alves de Almeida, mulheres que compreenderam, com rara lucidez e notável valentia, a urgência de criar um espaço onde a produção feminina pudesse não apenas existir, mas florescer com autonomia e dignidade. Sob a presidência inaugural de Rosarita Fleury, a instituição nasceu com o propósito claro de valorizar a literatura e as artes produzidas por mulheres em Goiás, inscrevendo-se, desde o início, como um gesto de afirmação cultural e histórica.
Nesse contexto, é significativo destacar que a AFLAG configura-se como a terceira academia feminina do Brasil. Sua criação não apenas amplia a presença institucional das mulheres no campo cultural, mas também revela um diferencial importante: a integração entre literatura e artes, que expande os limites da atuação feminina e fortalece sua expressão em múltiplas linguagens.
Em um cenário frequentemente marcado por estruturas excludentes, a criação da Academia representou um deslocamento necessário: o da mulher que deixa de ser apenas objeto de narrativa para tornar-se autora de sua própria história, protagonista de seus sonhos e desbravadora de espaços ainda considerados como de competência exclusivamente masculina.
Ao longo de sua trajetória, a AFLAG consolidou-se como um território de pertencimento e de produção simbólica. Mais do que um espaço institucional, tornou-se uma comunidade de partilha e construção coletiva, onde a palavra feminina não apenas ecoa, mas se inscreve, se fortalece e se projeta.
Sua importância ultrapassa os limites da literatura e das artes. Trata-se de um lugar de memória e de constante construção. Cada acadêmica, ao ocupar sua cadeira, carrega consigo não apenas uma obra, mas uma trajetória que dialoga com tantas outras mulheres que vieram antes e com aquelas que ainda virão. Há, nesse gesto, uma dimensão profundamente simbólica: a continuidade de uma linhagem intelectual feminina que se recusa a ceder ao apagamento.
Em Goiás, onde a tradição cultural é rica e profundamente enraizada, a atuação da Academia adquire um significado ainda mais potente. Ela amplia o horizonte cultural do Estado ao reafirmar a mulher como agente ativa na construção dessa identidade. Seus encontros, saraus, publicações, apresentações teatrais, exposições e homenagens revelam um compromisso contínuo com a cultura, a educação e a sensibilidade.
Mas talvez o aspecto mais profundo de sua existência esteja naquilo que não se vê de imediato: o impacto subjetivo que ela produz. Ao reconhecer e valorizar a produção feminina, a AFLAG inspira outras mulheres a escrever, a criar, a pensar. Ela inaugura possibilidades e as legitima.
Em um mundo ainda atravessado por desigualdades, neste mês de março, quando celebramos o Dia da Mulher, instituições como a AFLAG não são apenas importantes, são necessárias. Elas nos lembram que a cultura se constrói na pluralidade.
Celebrar sua história é celebrar a força da criação e a delicadeza de uma resistência que se faz, dia após dia, com inteligência, sensibilidade e compromisso.
E, acima de tudo, é reconhecer que, quando mulheres escrevem sua própria história, elas não apenas ocupam o mundo, elas o transformam.
Leia também: Os novos caminhos da literatura em Goiás: 10 escritores em foco

