“É necessário uma aldeia inteira para educar uma criança”, diz um provérbio africano. Ao se deparar com a realidade dos pequeninos acolhidos em abrigos, é impossível não se lembrar dessas palavras. Quando pais e mães são derrotados pelo vício, pela violência ou pela miséria, quem cuida dos seus filhos até que se recuperem?

Quantas crianças assistimos, inertes, a pedir esmolas? Quantas notícias vemos, calados, sobre violências indescritíveis praticadas contra meninos, meninas e até bebês? Qual o tamanho dessa tragédia? É possível medi-la? É possível combatê-la?

Muitas perguntas não têm respostas, ao menos não respostas satisfatórias. Mas há o que pode ser feito. Famílias estruturadas podem acolher crianças e bebês retirados do convívio familiar, evitando o acolhimento institucional, que enfrenta sérios problemas, sem a necessidade de adotá-los, oferecendo proteção, afeto e cuidado até que a família de origem se restabeleça e possa criar esse ser humano com dignidade.

É preciso compreender as consequências do afastamento das crianças do convívio familiar, assim como entender os desafios orçamentários e de gestão dos abrigos institucionais para, por fim, saber o que a sociedade, a “aldeia” citada no início, pode e deve fazer para ajudar esses meninos e meninas que, muitas vezes, ainda nem saíram da primeira infância.

Para exemplificar o poder transformador da família acolhedora, a reportagem apresenta a experiência da família de Adriane Helena e Fernando da Silva que, junto às duas filhas, recebeu um garoto de 5 anos durante três meses. A criança havia sido retirada do convívio familiar e, após esse período, foi encaminhada aos cuidados da avó. Nesse tempo, conta Adriane, orgulhosa, ele aprendeu a contar até 15, identificar cores, dizer “eu te amo” e pedir perdão a quem o havia ferido.

A reportagem também ouviu a neuropediatra Tainá Maia, a fim de compreender a complexidade do desenvolvimento infantil na primeira infância e como a família acolhedora contribui nesse processo. Além disso, foram entrevistados o promotor do Ministério Público na área da Infância e Juventude, Pedro Florentino, e a secretária de Desenvolvimento Social de Goiânia, Eerizânia Freitas.

Escolha pela família acolhedora e o processo até receber uma criança

Adriane Helena destaca a importância de toda a família estar de acordo com o processo. Tanto ela e o marido quanto as duas filhas concordaram com a decisão. Ela contou ao Jornal Opção que o desejo de adotar sempre existiu, desde a época de namoro, mas complicações de saúde os fizeram repensar o futuro e decidir por não adotar.

Ela ainda não conhecia o programa de família acolhedora quando foi convidada para uma palestra sobre o tema e relatou como se sentiu ao sair do evento.“Fui assistir à palestra e saí de lá muito impactada, muito emocionada com a possibilidade. Eu acredito que é algo acessível a muitas famílias, não é algo distante, porque a adoção acaba sendo um pouco mais distante da realidade de muitas pessoas. Já a proposta da família acolhedora é muito acessível à maioria de nós. Saí de lá até um pouco eufórica e falei para o meu esposo: ‘olha, já achei o que podemos fazer para intervir de forma real e prática na vida das crianças órfãs’.”

Assim, iniciou-se o processo de diálogo até que toda a família concordasse e ingressasse no projeto. Adriane também destaca que tiveram apoio do Ministério Público para matricular o menino em uma escola pública e que parte do valor recebido para cuidar da criança foi utilizada em um tratamento dentário particular, já que ele estava com várias cáries.

A Secretaria de Assistência Social de Goiânia informa que, apesar de o acolhimento familiar ser priorizado pela Constituição, a capital conta com apenas sete famílias cadastradas no serviço. Eerizânia Freitas explica que as famílias acolhedoras recebem um salário mínimo por criança acolhida.

“O programa exige que a família seja acompanhada, capacitada e passe por uma formação, sendo monitorada pelo Judiciário, pela Vara da Infância e Juventude. Assim, quando uma criança estiver em situação de violência, o Conselho Tutelar pode encaminhá-la ao acolhimento familiar durante a diligência”, detalha as exigências e o processo de acolhimento.

A gestora explica que o acolhimento é sempre a última opção, utilizado apenas quando outros parentes próximos não podem receber a criança. Além disso, a medida é transitória, até que a família de origem esteja apta a reassumir ou que outros familiares, como tios e avós, possam assumir os cuidados.

O promotor Pedro Florentino comenta a situação específica de Goiânia dentro do contexto do acolhimento familiar. “Hoje, no país, há um movimento nacional para ampliar esses serviços. Goiânia foi uma das últimas, se não a última capital, a instituir o acolhimento familiar. E nós temos trabalhado para ampliar esse serviço. As primeiras crianças começaram a ser acolhidas nesse modelo na capital apenas no ano passado.”, relatou.

Afastamento familiar e suas consequências neurológicas

Adriane Helena destaca a importância de toda a família estar de acordo com o processo. Tanto ela e o marido quanto as duas filhas concordaram com a decisão. Ela contou ao Jornal Opção que o desejo de adotar sempre existiu, desde a época de namoro, mas complicações de saúde os fizeram repensar o futuro e decidir por não adotar.

Ela ainda não conhecia o programa de família acolhedora quando foi convidada para uma palestra sobre o tema e relatou como se sentiu ao sair do evento. “Fui assistir à palestra e saí de lá muito impactada, muito emocionada com a possibilidade. Eu acredito que é algo acessível a muitas famílias, não é algo distante, porque a adoção acaba sendo um pouco mais distante da realidade de muitas pessoas. Já a proposta da família acolhedora é muito acessível à maioria de nós. Saí de lá até um pouco eufórica e falei para o meu esposo: ‘olha, já achei o que podemos fazer para intervir de forma real e prática na vida das crianças órfãs’.”, relatou.

Assim, iniciou-se o processo de diálogo até que toda a família concordasse e ingressasse no projeto. Adriane também destaca que tiveram apoio do Ministério Público para matricular o menino em uma escola pública e que parte do valor recebido para cuidar da criança foi utilizada em um tratamento dentário particular, já que ele estava com várias cáries.

A Secretaria de Assistência Social de Goiânia informa que, apesar de o acolhimento familiar ser priorizado pela Constituição, a capital conta com apenas sete famílias cadastradas no serviço. Eerizânia Freitas explica que as famílias acolhedoras recebem um salário mínimo por criança acolhida.

“O programa exige que a família seja acompanhada, capacitada e passe por uma formação, sendo monitorada pelo Judiciário, pela Vara da Infância e Juventude. Assim, quando uma criança estiver em situação de violência, o Conselho Tutelar pode encaminhá-la ao acolhimento familiar durante a diligência”, detalha sobre as exigências e o processo de acolhimento.

A gestora explica que o acolhimento é sempre a última opção, utilizado apenas quando outros parentes próximos não podem receber a criança. Além disso, a medida é transitória, até que a família de origem esteja apta a reassumir ou que outros familiares, como tios e avós, possam assumir os cuidados.

“Hoje, no país, há um movimento nacional para ampliar esses serviços. Goiânia foi uma das últimas, se não a última capital, a instituir o acolhimento familiar. E nós temos trabalhado para ampliar esse serviço. As primeiras crianças começaram a ser acolhidas nesse modelo na capital apenas no ano passado.”, comenta o promotor Pedro Florentino sobre a situação específica de Goiânia dentro do contexto do acolhimento familiar.

Desafios orçamentários e sociais nos abrigos diante da negligência do Ministério do Desenvolvimento Social

A Secretaria informa que o Ministério do Desenvolvimento Social repassou, em 2025, R$ 164 mil para Goiânia investir nos abrigos. Atualmente, há 65 crianças acolhidas na capital. Isso representaria cerca de R$ 2.523 por criança ao longo de um ano, considerando apenas os recursos federais. Vale lembrar que também há complementação com verbas do Estado e da Prefeitura.

Além disso, ao ser questionado sobre valores, número de crianças abrigadas, campanhas de capacitação de funcionários e fiscalização, o Ministério informou que Goiânia tinha 13 crianças acolhidas em 2025. Caso esse dado esteja correto, haveria um aumento de 52 crianças em três meses. Os valores informados também não foram específicos para abrigos: para o bloco de proteção social de Média e Alta Complexidade, foram destinados cerca de R$ 190 mil em 2025.

As informações fornecidas pelo Ministério também abordaram o cenário nacional. Assim como em Goiânia, os dados não coincidem com os registros do Poder Judiciário. O Executivo federal informou que havia 6.931 crianças acolhidas no país em 2025. Já o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aponta mais de 36 mil crianças atualmente. A diferença sugere um aumento superior a 29 mil crianças em apenas três meses, caso ambos os dados estejam corretos.

Ao serem questionados sobre as divergências e se a interpretação dos dados estava correta, o Ministério não respondeu a nenhuma das tentativas de contato. A ausência de retorno indica falhas de gestão, transparência e domínio do tema por parte do poder público federal.

Além dos desafios orçamentários, da falta de investimento e do abandono enfrentado pelos abrigos, há ainda denúncias de violência dentro dessas instituições no Brasil. O promotor, no entanto, afirma que “não são denúncias comuns”. Pedro Florentino ressalta que qualquer alegação desse tipo é apurada com rigor, acompanhada de perto e, caso confirmada, resulta no afastamento e na responsabilização dos envolvidos.

O Ministério Público tem o dever de fiscalizar esses abrigos semestralmente, mesmo na ausência de denúncias. Em Goiânia, o último abrigo público chegou a ser interditado por falta de condições mínimas de funcionamento durante a gestão do ex-prefeito Rogério Cruz, que antecedeu a atual administração.

A secretária também destaca os desafios no funcionamento dos abrigos: “No congresso, vimos que crianças que permanecem apenas em abrigos, quando comparadas às que estão em acolhimento familiar, apresentam diferenças significativas no desenvolvimento cognitivo. Não há comparação”. Ela explica que a falta de estímulos está relacionada à sobrecarga das equipes: “São, no mínimo, 20 crianças por cuidador. Como oferecer atenção individualizada nesse contexto? Há abrigos que conseguem, mas são exceções”.

A neuropediatra detalha os impactos do acolhimento institucional: “Pode trazer prejuízos relacionados à menor individualização do cuidado, à rotatividade de cuidadores e à dificuldade na formação de vínculos estáveis. Esses fatores impactam negativamente o desenvolvimento emocional, social e cognitivo da criança”. A médica acrescenta que estudos apontam que o quociente de desenvolvimento de crianças institucionalizadas pode ser até 29 pontos inferior ao de crianças criadas em ambiente familiar.

Além disso, há impactos biológicos relevantes. O acolhimento institucional pode afetar o metabolismo nos córtices temporal e frontal, reduzir a conectividade da substância branca, diminuir a atividade elétrica cerebral, desregular o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e alterar o volume de estruturas como a amígdala, responsável pelo processamento do medo e da ansiedade. A especialista também afirma: “Crianças institucionalizadas apresentam taxas significativamente maiores de transtornos do neurodesenvolvimento e psiquiátricos, incluindo depressão, ansiedade, transtornos disruptivos e TDAH”.

Importância da família acolhedora e o bom retorno

Tainá afirmou ao Jornal Opção que o acolhimento familiar proporciona mais estabilidade, vínculo afetivo contínuo e cuidado individualizado, o que “favorece a regulação emocional, o desenvolvimento da linguagem, das habilidades sociais e a construção de segurança, aspectos essenciais para um desenvolvimento neurológico saudável”.

Ela destaca que, mesmo sendo temporário, o ambiente familiar melhora a saúde emocional e comportamental da criança, além de contribuir para o neurodesenvolvimento de forma geral. Adriane relata, na prática, a diferença que o afeto faz no cotidiano. “Gostaria de enfatizar a importância de ter uma rotina afetiva. Perceber como ele aprendeu a dormir em paz, a ouvir ‘eu te amo’. Ele falava isso o tempo todo, porque ouvia aqui o tempo todo que era amado, que estava sendo cuidado, que estava protegido. A gente repetia muito: ‘aqui você está protegido, você não precisa ter medo’. E ele começou a dormir”.

Ela também conta que, ao ter acesso a comida quente e frutas, o menino dizia: “Tia, é muito bom ter coisas boas”. Adriane compartilha ainda uma experiência que a marcou. “Uma coisa que me comoveu muito foi a capacidade dele de orar até pela agressora, pedindo para que Deus curasse o coração dela. Conseguimos trabalhar o perdão e a resiliência, mesmo com um coração tão pequeno”, contou.

Diante disso, é comum imaginar que o afastamento da família acolhedora seja uma fase difícil. Sobre isso, Adriane pondera: “Não é sobre nós, que somos adultos. É sobre o que é melhor para essa criança. E o melhor para ela é estar com os seus”.

Eerizânia afirma que a separação pode ser difícil, mas é necessária e benéfica para a criança. Do ponto de vista neurológico, Tainá explica que “A ausência de vínculo é mais prejudicial do que a vivência de separações quando estas são conduzidas de forma adequada e acompanhada. Crianças precisam de vínculo para se desenvolver adequadamente, mesmo que esse vínculo não seja permanente”, explanou.

A neuropediatra também orienta sobre como conduzir esse processo de forma saudável. “É fundamental preparo prévio, construção de uma narrativa compreensível para a criança, previsibilidade no processo e acompanhamento técnico especializado. Sempre que possível, deve-se manter referências afetivas e oferecer suporte emocional tanto à criança quanto à família acolhedora”.

“Na primeira infância, é essencial um ambiente estável, sensível e estruturado, com rotinas consistentes e preparação para mudanças. Em todas as idades, recomenda-se acolher emoções, validar sentimentos, manter limites claros e oferecer presença afetiva, incluindo momentos exclusivos com o cuidador. A preparação para transições reduz o estresse e, em pré-escolares, é importante reconhecer medos e reforçar a sensação de segurança”, acrescenta neuropediatra.

Adriane afirma que a relação familiar, entre ela, o marido e as filhas, melhorou após a experiência de acolhimento. Questionada se pretende acolher novamente, respondeu. “Nós queremos, vamos acolher sim. Só vamos esperar passar julho, porque temos uma viagem marcada. Depois disso, voltamos aos acolhimentos, com certeza”.

Por fim, Adriane deixa um recado para quem tem condições de participar do programa. “Deixe de lado os medos. Vá a uma palestra e escute. Eu queria muito que as pessoas dessem esse primeiro passo. Depois, cada um decide se é isso que quer ou não, mas é importante ao menos ouvir”.

Interessados podem entrar em contato pelo número (62) 99205-6826 para obter informações sobre as próximas palestras sobre o programa Família Acolhedora em Goiânia.

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