Tradicionalmente utilizadas no tratamento do diabetes, as chamadas canetas emagrecedoras tornaram-se ferramentas amplamente procuradas por pessoas que buscam a perda de peso e o controle da obesidade. Porém, o uso indiscriminado pode ocasionar diversos problemas, inclusive, cardíacos, segundo aponta o médico cardiologista Raphael Manollo Vasconcelos Martins.

Em entrevista ao Jornal Opção, ele explica que as canetas contêm substâncias que imitam hormônios naturais, análogos ao GLP-1 e ao GIP, que atuam no sistema nervoso central aumentando a sensação de saciedade, reduzindo o apetite e retardando o esvaziamento gástrico.

Só que os análogos de GLP-1 podem provocar repercussões cardíacas, como o aumento da frequência cardíaca, agravando quadros em pacientes com arritmias. O médico também alerta para o risco de retenção de líquidos, especialmente em pessoas com insuficiência cardíaca, podendo causar inchaço nas pernas e falta de ar.

Em pessoas muito sedentárias, muitas vezes o coração já é acelerado. Os análogos também podem aumentar a retenção de líquidos. Por isso, a bula recomenda cautela em casos de insuficiência cardíaca avançada.

Médico cardiologista Raphael Manollo Vasconcelos Martins | Foto: Arquivo pessoal

Devido aos efeitos rápidos, as vendas desses fármacos dispararam no país. Um estudo financeiro da UBS BB estima que o mercado deve crescer de R$ 11 bilhões em 2025 para R$ 20 bilhões em 2026. Esse aumento expressivo foi impulsionado pelo vencimento da patente da semaglutida — princípio ativo desenvolvido pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk — em março de 2025, o que possibilitou a comercialização de versões genéricas.

Embora reconheça os benefícios no controle da obesidade e da glicemia, o especialista chama atenção para o uso inadequado por meio da automedicação. “Quando o paciente faz uso sem indicação médica, ou quando o profissional não faz a indicação correta, ele pode ficar exposto a efeitos colaterais ou até perder dinheiro de forma fútil”, pontua.

Outros riscos destacados pelo cardiologista estão os efeitos gastrointestinais, como náuseas, vômitos e interferência na absorção de outros medicamentos. Há ainda contraindicações importantes para diabéticos tipo 1, que podem desenvolver cetoacidose — uma condição grave e potencialmente fatal. Também não há estudos conclusivos sobre a segurança do uso dessas medicações durante a gestação.

Cuidados

Diante dessas implicações, o cardiologista enfatiza a importância de um check-up cardiológico antes do início do tratamento. A avaliação permite identificar doenças silenciosas, como aterosclerose, colesterol elevado e diabetes, que podem evoluir para quadros de descompensação aguda e até exigir internação hospitalar se o medicamento for utilizado sem critério.

Para um emagrecimento seguro, Raphael reforça que a obesidade é uma doença metabólica grave e complexa, que exige uma abordagem multidisciplinar. Entre as recomendações estão a prática de atividade física ao menos três vezes por semana, alimentação rica em vegetais, redução do consumo de açúcares e gorduras e acompanhamento médico rigoroso.

Por fim, o especialista alerta que o uso indiscriminado dessas medicações representa uma “porta aberta para o precipício”, reforçando que o cuidado com a saúde exige seriedade e rigor técnico.

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