As novas diretrizes brasileiras de colesterol e hipertensão estão redefinindo a forma como os médicos avaliam e tratam o risco cardiovascular. Em entrevista ao Jornal Opção, o cardiologista Murilo Meneses, do Hospital Israelita Albert Einstein, detalhou como o uso do PREVENT Score, de novos biomarcadores e de metas mais rigorosas deve transformar o cuidado com o coração nos próximos anos.

Segundo Meneses, o principal avanço das diretrizes de dislipidemia é deixar de olhar apenas para o número isolado de colesterol e passar a enxergar o paciente como um todo.

“O PREVENT Score passa a ser o método central para estimar o risco de eventos cardiovasculares, porque incorpora variáveis como pressão arterial, função renal, tabagismo, diabetes e composição corporal”, afirma. “Isso torna a avaliação muito mais fiel ao risco real de cada pessoa.”

O médico explica que a análise pode ser refinada com novos marcadores que ajudam a revelar quem tem mais propensão à aterosclerose, mesmo com LDL aparentemente controlado. Entre eles estão Lipoproteína(a), ApoB, colesterol não-HDL, o escore de cálcio coronariano e o Doppler de carótidas.

“Quando combinamos o PREVENT com esses parâmetros, conseguimos diferenciar com precisão quem é realmente de baixo risco, e pode focar quase exclusivamente em estilo de vida, de quem precisa de metas mais rigorosas e, às vezes, de tratamento medicamentoso mais intensivo”, destaca.

Metas mais rígidas, mas sem medicalização excessiva

As novas metas para o LDL variam de acordo com a classificação de risco, de baixo a extremo. Mas, segundo o cardiologista, isso não significa aumento automático na prescrição de estatinas.

“A indicação de tratamento medicamentoso não mudou de forma relevante, o que evita prescrição desnecessária”, explica. “Pessoas de baixo risco têm meta de LDL abaixo de 116 mg/dL, mas só iniciam remédio em situações específicas. Na grande maioria dos casos, o tratamento é não farmacológico.”

A principal novidade está na categoria de risco extremo, que passa a exigir meta de LDL < 40 mg/dL. “Esses pacientes têm risco muito alto de novos eventos. Para esse grupo, o uso de terapias combinadas é justificado”, afirma.

Para Meneses, o recado é claro: “A maior rigidez das metas não significa medicalizar a população. O objetivo é identificar quem realmente precisa de intervenção medicamentosa mais forte e reforçar que a maioria das pessoas se beneficia sobretudo de estilo de vida saudável”.

Pré-hipertensão: mais prevenção, menos rótulo

As diretrizes de hipertensão também trazem mudanças importantes. A faixa entre 12×8 e 14×9 passa a ser chamada de pré-hipertensão, o que gerou dúvidas entre pacientes.

“O objetivo não é rotular pessoas saudáveis como hipertensas”, esclarece o cardiologista. “A mudança reforça a prevenção precoce, porque sabemos que, ao longo dos anos, esses níveis estão associados a maior risco de hipertensão e eventos cardiovasculares.”

Quem está nessa faixa deve receber orientação mais firme sobre hábitos de vida, monitorar a pressão com maior regularidade e ser investigado quando houver suspeita de hipertensão mascarada. “O ‘12 por 8’ deixa de ser considerado perfeito e passa a ser um ponto de atenção”, diz Meneses. “Isso permite agir antes que a doença se instale.”

Tratamento mais personalizado

As novas diretrizes tornam o cuidado mais individualizado. “Tanto a dislipidemia quanto a hipertensão passam a ser guiadas pelo risco global, não apenas por números isolados de colesterol ou pressão”, explica.

Segundo ele, isso significa que pacientes de baixo risco devem receber menos medicação e foco intensivo em alimentação, exercícios, controle de peso, sono e manejo de estresse.

Por outro lado, pacientes de risco alto, muito alto ou extremo terão metas mais rigorosas e podem precisar de múltiplos medicamentos. “O resultado é um cuidado mais preciso, evitando medicalização desnecessária e intensificando o tratamento apenas para quem realmente se beneficia”, resume.

Para Meneses, as mudanças funcionam tanto como alerta educativo quanto como desafio para os profissionais de saúde. “As novas classificações e metas mostram que cuidar do coração deve começar cedo”, afirma. “Elas incentivam as pessoas a medir pressão com regularidade, fazer exames e ajustar o estilo de vida.”

Mas a comunicação precisa ser equilibrada: “O desafio é orientar sem alarmar. Pré-hipertensão ou LDL limítrofe não significam doença, significam oportunidade de prevenção.”

O cardiologista conclui que, se bem compreendidas, as diretrizes podem trazer impacto positivo em larga escala. “Elas fortalecem o vínculo médico-paciente e têm potencial para reduzir infarto e AVC de forma significativa.”

Cardiologista Murilo Meneses | Foto: Arquivo pessoal

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