Avanço das superbactérias já configura cenário epidêmico, alerta infectologista
10 abril 2026 às 16h46

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Dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que 35% das infecções humanas já são resistentes aos medicamentos disponíveis, e um terço dos países relatou resistência generalizada de patógenos comuns. Somando Estados Unidos e União Europeia, são cerca de 70 mil mortes por ano decorrentes de infecções resistentes.
O principal motivo apontado por infectologistas para o crescimento dessas superbactérias é o uso inadequado de antibióticos em diferentes contextos, desde a pecuária até os hospitais. A Organização das Nações Unidas (ONU), inclusive, divulgou que 50% das prescrições de antibióticos em hospitais estão incorretas, o que fortalece o desenvolvimento da resistência bacteriana de forma generalizada.
Perigos da resistência bacteriana
Para entender melhor os riscos e as possibilidades desse cenário, o Jornal Opção entrevistou o médico infectologista João Victor Soares. O especialista afirma que os dados são, de fato, preocupantes. “Estima-se que 4,95 milhões de mortes estejam associadas à resistência microbiana no mundo.”
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já classificou a resistência bacteriana aos antimicrobianos como uma ameaça à saúde pública até 2050, caso nenhuma medida seja adotada para contê-la. O problema já ultrapassa, em impacto, riscos associados a doenças como câncer, diabetes, hipertensão e depressão.
O médico avalia com preocupação o cenário atual. “Na maioria das vezes, não temos os recursos necessários no sentido de novos medicamentos para tratar essas infecções. Além disso, as tecnologias existentes não são acessíveis devido ao alto custo.” Segundo João, essa dinâmica impõe a necessidade clínica de combinar antibióticos no tratamento, o que pode aumentar a toxicidade para os pacientes.
Cenário epidêmico e causas das superbactérias
O infectologista afirma que é correto dizer que há um cenário epidêmico de superbactérias. “Principalmente após a Covid-19, observamos o surgimento de bactérias com perfis de resistência diferentes e preocupantes, com frequência cada vez maior.”
Ele explica que a prescrição inadequada de antibióticos é a principal causa do surgimento de bactérias super-resistentes. “Os antibióticos servem para tratar bactérias, não vírus. Muitas vezes, pacientes com sintomas de resfriado utilizam esses medicamentos sem necessidade, já que a doença é viral. Isso contribui para a resistência de bactérias que fazem parte da flora natural do organismo.”
Outra prática perigosa é a automedicação. O paciente apresenta sintomas, utiliza sobras de medicamentos e faz uso por conta própria, sem orientação médica. As bactérias possuem níveis de resistência estabelecidos: quando sobrevivem a três antibióticos diferentes, são consideradas multirresistentes. Antes, esse tipo de infecção era mais associado ao ambiente hospitalar, mas hoje muitos pacientes já chegam às unidades de saúde com essas condições.
Por fim, o médico destaca que uma das infecções mais preocupantes é a meningite, devido à área afetada — o sistema nervoso — e ao histórico recente da doença, que tem exigido a combinação de antibióticos. “Outro exemplo são as infecções do trato urinário, que podem evoluir para quadros generalizados. Temos observado resistência às principais classes de antibióticos que utilizávamos anteriormente.”
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