O número de afastamentos do trabalho por síndrome de burnout cresceu de forma acelerada nos últimos anos, e já provoca impacto direto nas contas da Previdência Social. Dados do Ministério da Previdência Social (MPS) mostram que os auxílios-doença concedidos por esgotamento profissional saltaram 493% entre 2021 e 2024, passando de 823 para 4.880 registros. Apenas nos seis primeiros meses de 2025, foram contabilizados 3.494 afastamentos, o equivalente a mais de 70% de todo o volume do ano anterior.

O avanço ocorre em meio a um aumento mais amplo dos transtornos mentais como causa de afastamento do trabalho. Em 2024, o INSS concedeu 472,3 mil auxílios-doença relacionados à saúde mental, de um total de 3,6 milhões de benefícios. Já em 2025, entre janeiro e junho, esses transtornos responderam por 271.076 afastamentos, o que representa cerca de um em cada sete auxílios concedidos no período.

Por trás das estatísticas, estão histórias de esgotamento prolongado. A empresária e criadora de conteúdo Carla Ramalho, de 34 anos, relatou ao jornal Estado de Minas que conviveu por meses com sintomas como insônia, lapsos de memória, irritabilidade e queda de desempenho enquanto atuava como gerente de marketing em uma multinacional. “Eu acordava mais cansada do que quando ia dormir”, afirma. Segundo ela, a irritabilidade foi o sinal mais evidente. “Entreguei por meses o trabalho na força do ódio, ignorando totalmente os sintomas.”

O diagnóstico de burnout veio após um longo período de exaustão tratado como algo normal. Afastada por 15 dias, Carla tentou retornar ao trabalho, mas sofreu uma crise de pânico e acabou pedindo demissão. Ela não chegou a receber auxílio-doença e reconhece que só conseguiu se recuperar por contar com rede de apoio e estabilidade financeira.

Psicóloga Marilene Martins | Foto: Divulgação

Para a psicóloga Marilene Martins, ouvida pelo Jornal Opção, o burnout não pode ser confundido com o estresse comum do dia a dia. “O burnout é proveniente de um estresse crônico não tratado”, explica. Segundo ela, o quadro envolve exaustão extrema, alterações de humor, despersonalização e perda do prazer em relação ao trabalho. “É como se a pessoa tivesse uma reserva de energia que normalmente se recompõe com o descanso. No burnout, essa reserva se esgota completamente”, disse.

Marilene destaca que muitos sinais iniciais são ignorados, especialmente a incapacidade de descansar de forma reparadora. “A pessoa tenta descansar e não consegue. A mente não para, o sono não é restaurador e surge um desinteresse progressivo pelo trabalho”, afirma. De acordo com a psicóloga, ambientes marcados por jornadas exaustivas, metas excessivas, liderança abusiva e cultura do medo contribuem para o adoecimento.

O crescimento dos afastamentos também acendeu um alerta no governo federal. Estudos sobre o impacto do adoecimento mental no trabalho começaram ainda na transição de governo, em 2022, quando já se observavam efeitos prolongados do pós-pandemia. A ampliação do home office, o aumento do tempo conectado, a informalidade e a chamada “uberização” do trabalho passaram a ser apontados como fatores estruturais do novo cenário.

Do ponto de vista financeiro, as despesas com auxílios por incapacidade cresceram mais rapidamente do que outros benefícios previdenciários. Os gastos passaram de R$ 18,9 bilhões em 2022 para R$ 31,8 bilhões em 2024, alta de 68%. No mesmo período, as despesas totais da Previdência subiram de R$ 734,3 bilhões para R$ 876,9 bilhões.

Para Carla, ainda há muito preconceito em torno do tema, o que impede trabalhadores de buscar ajuda. “Não é questão de não aguentar o tranco. É questão de adoecer. Burnout não é frescura, não é desculpa. É um problema de saúde reconhecido pela Organização Mundial da Saúde”, afirma.

Marilene Martins ressalta que, embora as empresas tenham responsabilidade sobre o ambiente e as condições de trabalho, o adoecimento deve ser analisado de forma ampla. “A empresa é responsável pelo contexto laboral, pela cultura, pelos processos e pela liderança. Quando ela ignora sinais de adoecimento, o risco não é só para o trabalhador, mas para toda a organização”, diz.

A orientação para quem percebe sinais de esgotamento é buscar ajuda profissional e recorrer a informações de fontes confiáveis. “É fundamental contar com uma rede de apoio e não normalizar sintomas que indicam que o limite já foi ultrapassado”, conclui a psicóloga.

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