Veja para onde vão os recursos do Obras Cidadãs definidos por vereadores de Goiânia
14 março 2026 às 21h00

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Instituído pelo Decreto nº 30/2026 e publicado no Diário Oficial do Município de Goiânia em 24 de fevereiro, o programa Obras Cidadãs prevê investimento anual de aproximadamente R$ 20 milhões para execução de obras públicas de pequeno porte, reformas e serviços de engenharia em Goiânia.
Com meta anunciada de até 40 intervenções por mês, a iniciativa altera a rotina dos gabinetes na Câmara Municipal: além de indicar, vereadores terão de estruturar, formalizar e negociar cada proposta com base em critérios legais, técnicos e políticos.
O desenho do programa combina participação comunitária obrigatória, subscrição parlamentar e decisão final do Executivo – um arranjo que transforma a seleção das obras em processo administrativo e disputa de prioridades.
A leitura é que, embora o programa tenha desenho participativo, a fila de prioridades começa nos territórios onde o vereador já possui rede ativa. Isso não é ilegal nem vedado pelo decreto; é consequência do modelo que exige intermediação parlamentar.
A questão é como equilibrar redutos eleitorais com áreas de maior carência estrutural — um dilema que atravessa a gestão das duas indicações mensais.
Decreto publicado
O programa Obras Cidadãs define objetivos, critérios e etapas para a tramitação das propostas. O texto estabelece que as demandas devem ser apresentadas por cidadãos, associações ou grupos comunitários por meio de formulário próprio e, obrigatoriamente, contar com o apoio formal de ao menos um vereador. Sem a subscrição parlamentar, a proposta não tramita.
A partir do protocolo, há triagem documental, estimativa detalhada de custos, análise de conveniência e mérito, realização de reunião pública com a comunidade impactada e, somente então, encaminhamento ao órgão de infraestrutura para execução e monitoramento.
Na prática, o decreto cria um fluxo que começa fora do gabinete, mas depende do gabinete para existir. A comunidade apresenta a demanda; o vereador assume a intermediação e a responsabilidade formal; o Executivo avalia viabilidade técnica, disponibilidade orçamentária e oportunidade administrativa. O próprio decreto prevê que, nos casos em que houver capacidade financeira e viabilidade técnica, caberá ao chefe do Executivo o prévio juízo de conveniência e oportunidade, com autorização em ato próprio, se for o caso. É nesse ponto que o processo deixa de ser apenas técnico e passa a incorporar o filtro político.
Durante o lançamento do programa, o prefeito Sandro Mabel (UB) detalhou o funcionamento operacional. Segundo ele, a expectativa é que cada vereador indique, em média, duas obras por mês, dentro de um limite aproximado de R$ 70 mil por intervenção e teto global mensal de cerca de R$ 1,5 milhão.

As obras são descritas como rápidas e pontuais: conserto de alambrado em campo de futebol, recomposição de piso de praça, pequenas melhorias em unidades básicas de saúde, adequações em parquinhos e calçadas. O município adotará referência de custos oficiais, como o Sinapi, e poderá executar as intervenções por meio de empresa contratada e instrumentos como adesão a ata de registro de preços, desde que observada a legalidade.
A promessa de celeridade, contudo, não elimina as etapas formais. Para que a obra saia do papel, o gabinete precisa transformar a demanda difusa em proposta estruturada. Isso implica organizar reunião nos bairros, produzir ata ou registro da escuta comunitária, preencher formulário, anexar documentação mínima e apresentar justificativa técnica. Quanto mais organizado o gabinete — e mais consolidada a rede de lideranças no bairro — maior a probabilidade de formalização consistente.
Geopolítica das demandas
Com o programa oficialmente instituído e o modelo de tramitação definido pelo decreto, os vereadores já começaram a organizar suas prioridades territoriais e setoriais. O levantamento realizado pela reportagem mostra que as primeiras indicações tendem a se concentrar em saúde básica, revitalização de praças e quadras, além de pequenas intervenções em equipamentos públicos já existentes.
Na Região Norte e no Setor Faiçalville, a vereadora Daniela da Gilka direciona suas prioridades para a humanização da rede de saúde e a requalificação de espaços de lazer comunitário. Entre as indicações estão a cobertura da recepção e da área de hidratação do Centro de Assistência Integrada Médico-Sanitária (Ciams), reforma de forro em unidades de saúde e requalificação de parques infantis considerados inseguros. A vereadora defende o modelo como um mecanismo de orçamento participativo. “Vou parabenizar a gestão por colocar o vereador que está direto ouvindo a população”, afirmou.

No Setor Sul e no Parque das Laranjeiras, a vereadora Rose Cruvinel planeja indicar obras para a recuperação de praças e quadras deterioradas. Ela citou a reforma da quadra do Parque das Laranjeiras, a revitalização no cruzamento das avenidas T-12 com T-2 e a construção de um calçadão em praça no Jardim Presidente. Rose argumenta que a cidade acumula um passivo estrutural significativo. “Cada praça de Goiânia que você vai está com um estrago, seja na iluminação, seja nos brinquedos”, afirmou. Segundo ela, o programa permite atender demandas que vinham sendo represadas pela burocracia.
Na Região Noroeste e no Parque Ateneu, o vereador Tião Peixoto prevê uma atuação mais concentrada e com maior volume de intervenções. Ele estima planejar cerca de 11 obras até o fim do ano, incluindo a reforma de dois campos de futebol e uma praça no Parque Ateneu, além da revitalização de mais de 14 praças na Região Noroeste.
Peixoto adota postura mais centralizada na definição das prioridades. “Ouvir a população não adianta, um quer isso, outro quer aquilo. O vereador tem que ter pulso para dizer que vai fazer tal obra e pronto”, disse. Ao comentar a relação com o Executivo, reconheceu o peso político no processo. “Quem é da base briga pelo prefeito e não pode dar munição para a oposição. Se o povo precisa de uma obra em um setor da oposição, tem que procurar um vereador da base”, afirmou.
Já o vereador Heyler Leão, com atuação nas regiões Noroeste e Oeste, afirma que utilizará critérios técnicos de precariedade para selecionar as obras. Ele defende a recuperação de áreas públicas ociosas e a revitalização de praças em estado avançado de deterioração, além de intervenções que possam estimular o desenvolvimento econômico regional. Para Heyler, uma das prioridades é recuperar a Avenida Goiás Norte.
Dr. Gustavo, que atua nas regiões Central, Norte e Noroeste, priorizará intervenções em unidades de saúde e equipamentos educacionais, como CMEIs e escolas municipais. Segundo ele, as definições ainda estão em fase de elaboração e serão estruturadas com participação popular. “Está em fase de elaboração e será feito por meio da escuta da população e da comunidade, com participação popular”, disse.
Para Sanches da Federal, que se declara vereador independente, a atuação terá foco na revitalização de espaços públicos em bairros como Setor Marista, Bueno e Jaó, além da modernização de unidades de saúde. “O importante é escutar as pessoas para avaliar as demandas recebidas de nossa base e outras comunidades em geral”, afirmou.
O vereador Vitor Hugo concentra suas indicações no Bairro da Vitória e em áreas próximas ao aterro sanitário, regiões que, segundo ele, demandam atenção especial pela vulnerabilidade social. Entre as prioridades estão intervenções em infraestrutura urbana básica e apoio a maternidades locais. Ele afirma que não pretende vincular suas indicações a negociações políticas. “Eu não sou da base e não vou lá pleitear nenhum tipo de obra; quero que seja um relacionamento e não uma troca”, declarou.
O presidente da Câmara Municipal de Goiânia, Romário Policarpo (Sem partido), avalia que o programa acerta ao centralizar e dar maior agilidade à execução de pequenas intervenções consideradas, em muitos casos, emergenciais. Para ele, a prioridade do mandato deverá se concentrar na reforma de unidades básicas de saúde e postos de atendimento à família, além da revitalização de praças esportivas e quadras que necessitam de iluminação e manutenção.
“É uma forma de atender aquele cidadão que não consegue chegar até a prefeitura, mas tem acesso à liderança de bairro ou ao seu vereador para que essas pequenas obras sejam feitas”, afirmou.

Questionado sobre críticas de que o programa poderia favorecer prioritariamente vereadores da base, Policarpo minimizou o risco de exclusão da oposição. Para ele, é natural que governos priorizem parlamentares alinhados, como ocorre em outras esferas federativas, mas isso não impediria o atendimento de demandas legítimas apresentadas por vereadores independentes ou oposicionistas. O presidente citou como exemplo a revitalização da Rua 8, demanda apresentada por parlamentares da oposição e que foi executada.
O líder do governo na Câmara, vereador Wellington Bessa, afirma que o programa permite responder com mais rapidez a demandas recorrentes da população. Entre as primeiras indicações levantadas pelo gabinete estão intervenções na Praça C5, no Setor Sudoeste, e na praça localizada em frente ao Centro de Integração do Setor União.
Segundo ele, a possibilidade de indicar duas obras mensais cria uma dinâmica mais ágil de atendimento às comunidades. “São pequenas reformas, manutenções e revitalizações. Essa possibilidade de duas obras mensais dá para a gente uma flexibilidade e uma resposta célere para demandas importantes da cidade”, afirmou.
Na Região Oeste, o vereador Cabo Senna também aponta a recuperação de espaços públicos como prioridade inicial. Entre as demandas mencionadas estão a drenagem de pequenas minas d’água e a revitalização de uma praça no Bairro Ipanema.
Para ele, o programa pode destravar intervenções de baixo custo que acabam ficando represadas por entraves administrativos. “O vereador é o para-choque da sociedade. A ideia do prefeito é levar essas pequenas obras para as comunidades e destravar algumas pequenas localidades da nossa cidade”, afirmou.
O vereador Isaías Roberto concentra suas indicações em demandas de infraestrutura esportiva e manutenção de equipamentos públicos. Entre os exemplos citados estão a instalação de alambrado no campo da Vila Moal e intervenções em bairros como Novo Horizonte e Taipu. Segundo ele, as prioridades devem ser definidas a partir das demandas apresentadas diretamente pelos moradores. “Às vezes você chega em uma unidade de saúde e faltam três aparelhos de ar-condicionado, uma porta ou algum reparo simples. Quando o povo fala que é preciso, a gente tem que ouvir”, afirmou.
No Setor Sul e em Campinas, o vereador Kitão pretende direcionar indicações para revitalização de praças e bosques inseridos no perímetro do Projeto Cura, além da recuperação de equipamentos esportivos. Entre os pontos mencionados estão a pista de skate e a quadra esportiva em Campinas, além de intervenções em drenagem de pequenos córregos.

Segundo ele, o programa permite corrigir um tipo de demanda urbana que muitas vezes não entra no radar das grandes obras estruturantes. “Às vezes a prefeitura se preocupa com viadutos e grandes intervenções e acaba esquecendo esse ‘varejinho’, que são detalhes que podem melhorar a vida de um bairro”, afirmou.
Na região do Jardim Mirabel 2, o vereador Markin Goya aponta como prioridade a pavimentação de pequenos trechos de vias ainda não asfaltadas, além da criação de uma pequena praça no bairro Beatriz Nascimento e intervenções no CAIS do Bairro Goiá.

Para ele, o programa atende a um tipo de demanda que costuma enfrentar maior demora na administração pública. “As obras maiores dependem de licitações complexas e demoram muito. Essas pequenas intervenções podem atender rapidamente necessidades da população”, afirmou.
O vereador Pedro Azulão Jr. também destaca intervenções em equipamentos de lazer e esporte. Entre as indicações levantadas pelo gabinete estão a implantação de pistas de cooper nos bairros Costa Paranhos e Brisa da Mata, além da instalação de alambrados em campos de futebol no Eldorado Oeste e no Jardim Conquista.
Segundo ele, o modelo prevê participação direta da comunidade na definição das prioridades. “Essa obra não é do vereador. A gente vai até a comunidade, faz reunião, registra em ata e encaminha a demanda de forma transparente”, afirmou.
Na região do Veracruz, o vereador Ronilson Reis aponta como prioridade a reforma do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do Veracruz 2 e melhorias no posto de saúde do Veracruz 1, além da implantação de academia ao ar livre na Avenida Frefalone. Para ele, pequenas intervenções podem ter impacto direto no cotidiano dos moradores. “Às vezes a pessoa convive com uma praça abandonada na porta de casa. Quando você vai lá e arruma, aquilo muda a vida da comunidade”, disse.
O vereador Thialu Guioti, por sua vez, pretende priorizar intervenções em equipamentos esportivos. Entre os pontos citados estão a instalação de alambrado na Arena Dr. José Antônio Guiote, no Jardim Guanabara, além de manutenção na Praça do Birimbau. Segundo ele, a proposta do programa é justamente reduzir a demora na execução de pequenos serviços. “Imagine fazer uma licitação inteira para consertar um alambrado. Demora um ano e não fica pronto. O prefeito Mabel está criando uma forma de agilizar essas reformas”, afirmou.
Já o vereador William do Armazém afirma que ainda aguarda definição mais clara sobre a distribuição dos recursos e o fluxo de execução antes de formalizar as primeiras indicações. Segundo ele, o papel dos parlamentares será apontar as demandas prioritárias apresentadas pela população. “Nós vamos indicar o que precisa ser feito. Agora é esperar para entender como a prefeitura vai distribuir esse dinheiro”, afirmou.
Oposição critica
Na oposição, a vereadora Aava Santiago critica o modelo de distribuição das obras e questiona o risco de concentração política. “[O prefeito] faz uma oferta que vai na contramão daquilo que a cidade espera, que é fracionar o orçamento entre aliados e dizer que a população, se quiser ser atendida, tem que procurar vereadores da base”, afirmou. Para ela, a ausência de critérios técnicos transparentes pode aprofundar desigualdades territoriais.

O professor Edward Madureira também se manifestou de forma crítica ao programa, em vídeo publicado nas redes sociais. Ele questiona a declaração do prefeito de que, “no geral”, atenderá prioritariamente vereadores da base. Para Edward, a vinculação política das obras fere o princípio de universalidade da gestão pública. Segundo ele, o prefeito foi eleito para governar toda a cidade, independentemente da posição partidária dos parlamentares que representam determinados bairros.
No vídeo, o professor sustenta que a população não pode ser penalizada por divergências entre Executivo e Legislativo. Ele argumenta que moradores de regiões representadas por vereadores de oposição não podem ficar condicionados a alinhamento político para ter acesso a pequenas obras de manutenção, como iluminação de campos, reforma de vestiários ou revitalização de praças.
Ao defender alternativa, cita a experiência do orçamento participativo implementado em Goiânia durante a gestão do ex-prefeito Pedro Wilson, do PT, quando as prioridades eram definidas em diálogo direto com a comunidade, lideranças locais e secretarias municipais.
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