No Natal de 2019, o restaurante português Tertúlia — ou Tertúlia Bistrô, como é identificado nas redes sociais —, localizado nas proximidades da Praça dos Peixes, em Aveiro, no centro-norte de Portugal, passou a desempenhar um papel que extrapola o da gastronomia. A partir daquele período, o estabelecimento consolidou uma relação direta com o Brasil e, de forma mais específica, com Goiânia — conexão que hoje sustenta, inclusive, a possibilidade de um projeto de geminação entre os dois municípios.

Foi durante uma viagem à chamada “Veneza de Portugal”, como Aveiro é conhecida na Europa, que o ex-governador de Goiás Irapuan Costa Junior, acompanhado de sua mulher, Sueli Costa, conheceu o proprietário do restaurante, Silvio Oliveira Tavares. O encontro casual deu início a uma amizade que se tornaria contínua e duradoura. Para Silvio, a relação se transformou em algo definitivo: “É a melhor pessoa que conheci na minha vida”, afirma ao se referir ao ex-governador.

Ao longo dos anos, o vínculo se fortaleceu por meio de encontros frequentes no próprio restaurante e em outros espaços de lazer da cidade portuguesa. Parte dessa trajetória foi registrada em fotografias hoje expostas nas paredes do Tertúlia, que funcionam como uma espécie de memória visual da relação construída entre portugueses e brasileiros, especialmente goianos, ao que inclui uma bandeira de Goiás entregue pelo ex-dirigente estadual.

Seis anos depois do primeiro encontro, essa amizade ultrapassou o ambiente informal e alcançou o campo institucional. Na quinta-feira, 5, Silvio Oliveira Tavares recebeu o título de Cidadão Goianiense, concedido pela Câmara Municipal de Goiânia. A homenagem foi proposta pelo vereador Coronel Urzêda (PL), em maio de 2025, e aprovada pelo Legislativo da capital.

Além do reconhecimento pessoal, a relação também teve reflexos diretos na projeção turística do Tertúlia. A partir de textos, relatos e recomendações feitas por Irapuan Costa Junior, o restaurante passou a integrar o circuito de visitação de brasileiros em Aveiro, consolidando-se como um ponto de referência gastronômica e uma espécie de Embaixada de Goiânia em Aveiro.

O tema foi detalhado em entrevista exclusiva concedida ao Jornal Opção, com a presença de Irapuan, Silvio e o seu irmão, o cantor Arsénio Tavares, na manhã do dia 5.

Silvio Tavares conta trajetória até o recebimento do título de Cidadão Goianiense | Foto: Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Trajetória com vínculos brasileiros

Apesar da proximidade com o ex-governador goiano, Silvio já mantinha laços com o Brasil antes desse contato. Ele foi casado com a brasileira Aparecida Oliveira, natural de Recife. Ainda assim, nunca havia visitado a capital pernambucana. Sua primeira experiência em território brasileiro ocorreu apenas agora, em Goiânia, por ocasião da homenagem recebida.

Segundo o empresário, a relação com brasileiros também se aprofundou a partir de experiências vividas no próprio restaurante, envolvendo figuras conhecidas do Brasil e de Portugal, como o apresentador Carlos Massa (Ratinho) e a escritora e poeta portuguesa Rosa Alice Branco (autora dos livros “Traçar um Nome no Coração do Branco” e “As Cores das Coisas”).

Um dos episódios citados foi a ida de seu afilhado à Universidade de Aveiro em 2016, onde concluiu o mestrado em Engenharia, que teria proporcionado o primeiro encontro de Silvio com Aparecida. “O filho de Aparecida veio estudar na Universidade de Aveiro para fazer o mestrado em Engenharia, há oito anos, e nessa viagem ela conheceu o restaurante Tertúlia e a mim”, relatou.

Silvio Oliveira e Arsénio Tavares (de costas) | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Silvio assumiu formalmente a administração do estabelecimento em 2016, após a morte de um sobrinho que era responsável pela gestão do local. Originalmente o negócio era da família deste parente, mas o sobrinho assumiu o local com o episódio do falecimento da mãe do jovem.

À época, Silvio vivia na França e retornou a Aveiro para assumir o restaurante. “Antes do meu sobrinho morrer, o Tertúlia era a casa dele e tinha me pedido para eu voltar para Aveiro da França — onde eu morava até então — para assumir o restaurante. E eu voltei porque ele não gostava de trabalhar com isso e era quase que uma obrigação”, afirmou.

Apesar das circunstâncias, o empresário avalia a decisão como determinante. “Fico feliz de ter voltado, porque conheci pessoas que não teria conhecido de outra forma, como Irapuan e Aparecida”, acrescentou.

Na avaliação de Silvio, a presença de trabalhadores brasileiros também foi fundamental para a consolidação do Tertúlia ao longo dos anos e a construção da atual conjuntura. Diversos goianos passaram pelo restaurante como funcionários, que também teriam contribuído para a identidade multicultural do espaço.

O empresário afirma que prioriza a contratação de brasileiros e cabo-verdianos em relação a outras nacionalidades. Segundo ele, a escolha está relacionada à forma como esses trabalhadores se inserem no mercado português, que difere de outras etnias, como o paquistanês, por exemplo. “O trabalhador brasileiro é mais humilde, ele precisa do trabalho e busca se regularizar em Portugal.”

Muito além da gastronomia

Sobre o restaurante, Silvio atribui o perfil do Tertúlia à própria trajetória familiar, marcada pela convivência com diferentes expressões culturais e atividades ligadas ao atendimento ao público. “A nossa vida foi muito ligada ao convívio com várias pessoas porque na nossa família temos músicos, cabeleireiros e o meu pai tinha um cinema em Aveiro. Portanto, nós sempre convivemos com muita pessoas diferentes.”

O restaurante funciona com estrutura reduzida e atendimento direto, feito pelo proprietário e uma equipe enxuta, ao qual também serve para vender uma experiência interpessoal e caseira. O cardápio é centrado na culinária tradicional portuguesa e mediterrânea, com pratos como bacalhau, polvo e francesinha, acompanhados por vinhos nacionais.

O modelo adotado resultou em forte adesão do público, sobretudo em períodos de alta temporada de turismo na região, quando o restaurante chega a registrar mais de 400 atendimentos diários, divididos entre almoço e jantar. Para o ex-governador e escritor Irapuan Costa Junior, o local se tornou parada obrigatória para brasileiros que visitam Aveiro, ao que funciona como um “consulado” estrangeiro.

“O Tertúlia passou a ser um ponto de encontro nosso, um consulado informal, com o acolhimento do Silvio que já se sentia meio goiano.”

Entre os frequentadores ilustres está o apresentador de televisão Carlos Massa, o Ratinho, que esteve no Tertúlia e elogiou a experiência ao proprietário. “Foi simplesmente o melhor restaurante, o melhor bacalhau, a melhor cidade, o melhor atendimento e a melhor companhia. Vocês fizeram com que saíssemos de Portugal com uma impressão melhor do que aquela que já tínhamos”, afirmou ao empresário em mensagem de áudio compartilhada com a reportagem.

O vereador Coronel Urzêda (PL) também esteve no restaurante, acompanhado de sua mulher, para um almoço com Irapuan e um irmão de Silvio já falecido. Para o parlamentar, o Tertúlia funciona como um ponto de acolhimento aos goianos em Portugal. “Ele é como um embaixador informal de Goiânia em Aveiro.”

Silvio observa que, apesar do espaço físico limitado, o restaurante recebe visitantes de diversas nacionalidades, reflexo do crescimento turístico de Aveiro na última década. “Vai desde sul-coreanos a canadenses, norte-americanos, suíços e holandeses. Todos vão a Aveiro.”

Amizade inseparável

A relação entre Silvio e Irapuan se consolidou a ponto de o restaurante se tornar local frequente de celebrações pessoais do ex-governador. Nos últimos cinco anos, o escritor e colunista do Jornal Opção comemora seu aniversário (23 de dezembro) e as festas de fim de ano no Tertúlia, com familiares e amigos.

Contudo, a origem desta amizade ocorreu em uma visita comum — classificada como “sorte” por Silvio — a um restaurante nas proximidades do imóvel que Irapuan comprou na cidade, que fica a cinco minutos de caminhada. “A aproximação foi natural, e também por parte dos outros goianos trabalhando em Aveiro.”

Irapuan Costa Júnior: escritor e ex-governador de Goiás | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Em uma dessas ocasiões, o restaurante foi fechado exclusivamente para um grupo de 38 goianos, que celebrou a virada do Ano-Novo de 2026 no local. A concentração foi representada por familiares e amigos de Irapuan.

Uma bandeira de Goiás foi emoldurada e afixada na parede do estabelecimento, como símbolo da relação construída e celebrar a “gente boa” de Goiás como um símbolo de uma amizade que rompe fronteiras geográficas e culturais. “São os goianienses que vão para o restaurante e que possibilitaram essa história, sendo gente boa e gente que gostamos de estar juntos.”

Segundo Irapuan, o símbolo veio a pedido de Silvio logo no início da amizade. “Quando ele reabriu o restaurante coincidiu com o início da nossa amizade. E o acolhimento dele foi um acolhimento muito cordial com os goianos e, após poucos dias, ele me pediu uma bandeira de Goiás.”

Amizade institucionalizada

O reconhecimento institucional veio com a concessão do título de Cidadão Goianiense. Durante a cerimônia, realizada na Câmara Municipal de Goiânia, Silvio se emocionou, segundo relato do vereador Coronel Urzêda. “Ele chorou muito por essa homenagem. Tem homenagens que algumas pessoas recebem e não dão muito valor, mas tem outras que aquilo é tudo para eles — e o Silvio é uma dessas pessoas.”

Além da homenagem, a relação entre Goiânia e Aveiro pode avançar para o campo formal. Silvio articula, junto a vereadores portugueses, a apresentação de um projeto de lei para reconhecer as cidades como irmãs (geminadas). A proposta também deve ser discutida no âmbito da Câmara Municipal de Goiânia, pela articulação de Urzeda e Irapuan durante o ano de 2026.

Entrega da comenda para Silvio na Câmara Municipal de Goiânia | Foto: Reprodução

Segundo o empresário, a ideia é ampliar a cooperação turística, cultural e institucional entre os dois municípios. “Quero dar continuidade a esse projeto”, disse.

Durante a cerimônia, Irapuan sintetizou o simbolismo do gesto. “Os 8 mil quilômetros de distância entre Goiânia e Aveiro se anulam nesse gesto de entrega do título que a Casa outorga ao homenageado”, afirmou.

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