A história do Lago Paranoá começa em 1896, na segunda Missão Cruls, com o engenheiro, botânico e paisagista francês Auguste François Marie Glaziou

Mil metros acima do nível do mar, o Paranoá tem o mesmo volume que a Baía de Guanabara | Foto: Reprodução / EBC

Muito antes de Brasília ser concebida, o artificial Lago Paranoá já havia sido enxergado. As propostas dos traçados urbanísticos para a nova capital foram avaliados em 1956 pelo juri do “Concurso para o Plano Piloto de Brasília”; mas aos participantes foram entregues fotografias aéreas e mapas produzidos pela empresa Donald J. Belcher Associates com o  ainda imaginário Lago Paranoá e sua usina hidrelétrica já definidos. 

A história do Lago Paranoá começa em 1896, na segunda Missão Cruls. O engenheiro, botânico e paisagista francês Auguste François Marie Glaziou, observando a hidrografia da região, sugeriu como a área poderia ser represada para a construção de um lago. Em carta sobre a expedição, Glaziou comenta: “Entre dois grandes chapadões na localidade pelos nomes de Gama e Paranoá, existe imensa planície em parte sujeita a ser coberta pelas águas da estação chuvosa”.  

A Missão Cruls,  foram duas expedições de exploradores com objetivo de avaliar o Planalto Central do Brasil para a construção de uma nova capital. A mudança já havia sido prevista na Constituição Provisória de 1890 e, dois anos depois, o segundo presidente da República, Floriano Peixoto, fez cumprir o artigo que previa a demarcação do território: “Fica pertencendo à União uma zona de 400 léguas quadradas, situada no planalto central da República, a qual será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura capital federal” (emenda Lauro Müller, 1890).

Auguste François Marie Glaziou | Foto: Domínio Público

Em quatro anos, os 21 exploradores liderados pelo belga Luís Cruls cumpriram a tarefa de mapear a área ideal, o Quadrilátero Cruls. Entretanto, os presidentes ocuparam a chefatura da República na primeira metade do século XX desrespeitaram a Constituinte da República. O historiador Jarbas Silva Marques, no artigo “Operação Dom Bosco”, publicado em 2017 pela Universidade Federal de Goiás (UFG), apresenta como o retardamento da transferência da capital ocorreu.

No artigo Operação Dom Bosco, se lê: “Prudente de Morais, o primeiro presidente civil, sabotou orçamentária e administrativamente Luís Cruls, para que ele não concluísse a segunda fase do trabalho. Iniciava-se a Primeira República e a hegemonia do Café com Leite, e nem os políticos de Minas Gerais e de São Paulo queriam a mudança”. Jarbas Silva Marques chama atenção para aqueles que denomina “Mudancistas Goianos”, um grupo heterogêneo formado principalmente por lideranças políticas de Santa Luzia (hoje Luziânia, em Goiás), sob a liderança de Evangelino Meireles. 

Os diversos atores que trabalharam para efetivar a mudança da capital levariam meio século para vencer os interesses políticos e financeiros. Enquanto luta era travada no Legislativo nacional, estudos para a construção do Lago eram feitos. Os urbanistas Raul Penna Firme, Roberto Lacombe e José de Oliveira Reis produziram em 1946 um relatório em que descreviam o que hoje é conhecida como a barragem do Paranoá: “Projeta-se uma barragem a jusante do rio, que se transforma num lago ornamental.”

No entanto, a data real da criação do Lago Paranoá ocorre quando da exigência de um lago, a qual constava no edital do concurso que elegeria o projeto arquitetônico e urbanístico da nova capital do país. Em 30 de setembro de 1956 foi lançado o edital e publicado no Diário Oficial. Foram contabilizadas 63 inscrições, e na data de entrega, apenas 26 projetos são conferidos.

Lucio Costa, cumpre a exigência de um projeto urbanístico no qual demandava a construção de um lago cujo nível das águas seria de 1000 metros acima do nível do mar e o volume das águas equivalente ao da Baía da Guanabara. A construção da barragem se iniciou em 1957 e foi concluída no dia 12 de setembro de 1959 (dia do aniversário de Juscelino Kubitschek).

Sobre a luta para transferir a capital

O grupo dos mudancistas goianos formulou ações políticas para reavivar o movimento e Americano do Brasil, recém eleito deputado federal, apresenta um anteprojeto de lei que determinava a edificação no Planalto Central de um marco onde seria edificada a nova Capital do Brasil. O projeto foi aprovado e, no dia 7 de setembro de 1922, foi inaugurado o marco em Planaltina como comemoração do Centenário da Independência.

Como ações complementares, além da edição de jornais, Gelmires Reis, então intendente municipal de Santa Luzia, fez um loteamento denominado Planaltópolis e distribuiu, em escritórios nas principais cidades brasileiras, “lotes para quem quiser morar onde será edificada a futura Capital Federal”.

Novamente, o movimento mudancista entra em declínio na frente parlamentar e, a partir de 1930, o grupo de Santa Luzia muda de tática e empresta o seu apoio à mudança da nova capital do Estado de Goiás. O deputado estadual Sebastião Machado, eleito por Santa Luzia, integrou-se no bloco mudancista que apóia Pedro Ludovico, e Germano Roriz muda­se para a capital goiana em construção. Foi o primeiro funcionário público federal de Goiânia, a primeira família da nascente cidade, e, ainda, seu filho Goiany Segismundo Roriz foi a primeira criança a nascer e a ser registrada e batizada na nova capital do Estado de Goiás. Goiânia é, então, colocada pelo grupo de Santa Luzia como alternativa para sediar a capital federal, a cumprir o dispositivo constitucional.

Vem a Ditadura do Estado Novo e Getúlio Vargas manda retirar da Polaca o artigo 3º que vinha desde a primeira constituição republicana de 1891. Com a democratização em 1946, morava no Rio de Janeiro o advogado Segismundo de Araújo Mello – do grupo de Santa Luzia – que passa a desenvolver, juntamente com o deputado goiano Diógenes Magalhães, um trabalho de articulação política para reinserção do artigo 3º da Constituição de 1891, na Assembléia Nacional Constituinte.

Segismundo de Araújo Mello articulou desapropriações para a construção do Lago e de Brasília | Foto: Domínio Público

Promulgada a Constituição e eleito o presidente da República, marechal Eurico Gaspar Dutra, cumpriu-se o primado constitucional: foi criada uma comissão presidida pelo general Djalma Polli Coelho, para promover os estudos para a escolha do local a ser edificada a nova capital. Inicia­-se aí a luta entre os goianos – representados, na Comissão Polli Coelho, por Jerônimo Coimbra Bueno, o empreiteiro construtor de Goiânia – e mineiros, capitaneados na comissão por Lucas Lopes e, na Câmara dos Deputados, pelos constituintes mineiros Juscelino Kubitschek de Oliveira e Israel Pinheiro. 

Os mineiros pretendiam localizar a nova capital no Triângulo Mineiro, nas proximidades do Delta do Rio Paranaíba, e o general Polli Coelho e Coimbra Bueno, no quadrilátero delimitado por Luís Cruls, em 1892, no Planalto Central. Por um voto de vantagem, a Comissão Polli Coelho delibera que os estudos de Luís Cruls e seus companheiros eram cientificamente corretos, aconselhando o presidente Eurico Dutra a transferir a capital federal para o Quadrilátero Cruls. Com a eleição de Getúlio Vargas, passa a ser o chefe do seu gabinete militar o general Agnaldo Caiado de Castro. Vargas o nomeia para presidir a Comissão de Localização da Nova Capital Federal. 

O general Caiado de Castro contrata, então, a empresa americana Donald Belcher para fazer os mapas do levantamento aerofotogramétrico do Quadrilátero Cruls, realizado pela empresa Cruzeiro do Sul, a fim de que fosse demarcado o local para a edificação da capital federal.

Getúlio Vargas suicida-se e Café Filho, seu vice-presidente, ocupa a Presidência da República e nomeia, para substituir o general Agnaldo Caiado de Castro, o marechal José Pessoa. Este, acompanhado do seu ajudante de ordens, capitão Ernesto Silva, vem ao Planalto Central no dia 5 de fevereiro de 1955 e escolhe o Sítio Castanho. O marechal Pessoa volta ao Rio de Janeiro e pede ao presidente Café Filho a edição de um decreto desapropriando as terras e consideradas de utilidade pública para a edificação da nova capital.

Café Filho, que era da União Democrática Nacional (UDN), contrária à transferência, negou a baixar o decreto. O marechal José Pessoa embarca em um avião da Força Aérea Brasileira no Rio de Janeiro, no dia 29 de abril de 1955, em direção a Goiânia, para falar com o governador José Ludovico de Almeida e expor-lhe o impasse. José Ludovico de Almeida recebe, em audiência, o marechal e o capitão Ernesto Silva e é sensibilizado para que o Estado de Goiás tomasse a iniciativa, caso contrário a Constituição não seria cumprida e a capital não seria transferida.

O governador Juca Ludovico chama Segismundo de Araújo Mello, Jorge de Morais Jardim e outros assessores, que passam a elaborar o decreto que romperia o impasse.

Embora tivesse minoria na Assembléia Legislativa de Goiás, e a mensagem legislativa tivesse de passar por três votações, Juca Ludovico a envia e consegue sua aprovação. Por cautela, a fim de evitar qualquer querela jurídica, o decreto foi assinado no dia 1º de maio de 1955, mas com a data de 30 de abril. Altamiro de Moura Pacheco é nomeado presidente da Comissão de Cooperação da Mudança da Capital Federal que iria promover as compras e as desapropriações e Segismundo de Araújo Mello, consultor jurídico.

Até novembro de 1956, a quarta parte das terras do novo Distrito Federal que pertenceram a 114 fazendeiros, dos quais 55 eram possuidores de mais de uma propriedade, já havia sido desapropriada. A historiadora Darcy Dornelas de Farias, em sua tese de mestrado publicada pela História pela Universidade de Brasília(UnB) em 2006, enumera algumas das maiores propriedades da área.

A Fazenda Barra Alta, tinha 2.950 alqueires e pertencia a José Guimarães Zuzu e irmãos; a Fazenda Bananal com 5.632,7 alqueires e pertencia a Hélio Rodrigues Queiroz, a Deodado Louly e a Salvador Ribeiro de Freitas. Posteriormente, Hélio Rodrigues vendeu a Jorge Pelles e a Jerônimo José da Silva, o seu quinhão, que equivalia a uma área de 4.752,066 alqueires. A Fazenda Vicente Pires era de propriedade de Juventino Rodrigues, Benedito Roriz de Paiva e Otaviano Meirelles, com área de 798.000 alqueires. 

Os goianos capitaneados por Juca Ludovico fizeram a história avançar, e passam a preparar as condições objetivas, 26 dias antes de Juscelino Kubitschek ser interpelado por Antônio Soares Neto, conhecido por Toniquinho, no seu primeiro comício de campanha em Jataí, sobre “se cumpriria a Constituição e transferiria a capital para o Planalto”.