Colisões contra postes disparam em Goiás e já ultrapassam 10 casos por dia em 2026
14 fevereiro 2026 às 21h00

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Os acidentes automobilísticos envolvendo colisões contra postes estão entre as principais causas de interrupção no fornecimento de energia elétrica da concessionária Equatorial Goiás. Somente em 2025, a empresa identificou 4.381 postes danificados por carros, motocicletas ou veículos pesados, o que representa uma média de ao menos 365 registros mensais, segundo levantamento da concessionária obtido pelo Jornal Opção. Em comparação com o ano anterior, quando foram registradas 3.816 ocorrências, houve um crescimento de 15% nos casos.
Contudo, a empresa aponta que o ano de 2026 já começa com um precedente preocupante de aumento nas colisões contra postes da rede elétrica. Somente no primeiro mês de 2026, já foram contabilizados 325 postes danificados, o equivalente a cerca de 10 batidas por dia e aproximadamente 80% do total registrado nos três primeiros meses de 2025, quando foram contabilizadas 408 ocorrências no período.
Para efeito de comparação, no estado do Rio de Janeiro — que possui quase o triplo da população goiana e aproximadamente o dobro da frota de veículos — foram registradas apenas 445 colisões contra postes da rede elétrica da distribuidora Enel Rio. Enquanto isso, somente a cidade de Goiânia registrou 514 ocorrências no mesmo intervalo, um número 15% superior ao total registrado em todo o estado fluminense.
Necessidade de um planejamento urbano
Segundo o professor e pesquisador de transportes da Universidade Federal de Goiás (UFG), Ronny Aliaga, os dados representam um sinal de alerta para as autoridades e indicam desafios futuros no planejamento urbano estadual, especialmente em períodos de maior movimentação, como o Carnaval. “Pelos dados, percebemos que campanhas de conscientização, como o Maio Amarelo, já não possuem a mesma efetividade de antes. O mesmo pode ser observado em relação às ações de fiscalização”, afirma.
O pesquisador também atribui o aumento dos acidentes à falta de investimentos em transporte público ao longo das últimas gestões, o que contribuiu para o crescimento da frota de veículos particulares e para a redução da utilização do transporte coletivo. “Goiânia sempre teve uma preferência por políticas públicas que incentivam o uso do carro e da motocicleta.”
Isso leva as pessoas a migrarem para esses meios de transporte e aumenta a quantidade de veículos nas vias”, completa, destacando que o próprio desenho urbano, com a construção de viadutos e grandes avenidas, reflete essa inclinação voltada à motorização individual.

Por outro lado, o especialista em trânsito, Marcos Rothen, pondera que o aumento das ocorrências também está diretamente relacionado à educação dos motoristas goianos. Segundo ele, esse comportamento é perceptível no cotidiano do trânsito local, frequentemente marcado por condução imprudente. “É muito comum observar motoristas e motociclistas trafegando em alta velocidade.”
Da mesma forma, ele afirma que a ausência de fiscalização rigorosa e contínua contribui para o aumento das infrações e dos acidentes. “Sem fiscalização efetiva, os abusos aumentam. Os condutores conhecem os riscos, mas acabam negligenciando, e isso se agrava ainda mais com o consumo de álcool”, afirma.
Em cidades onde há fiscalização constante, o comportamento dos motoristas é completamente diferente, diz.

Para ambos os especialistas, a solução passa pelo fortalecimento da fiscalização aliado a políticas permanentes de educação no trânsito e incentivo ao transporte coletivo. Sobre esse ponto, o pesquisador da UFG ressalta que mudanças estruturais baseadas em educação são processos de longo prazo, citando o exemplo de países europeus, que investiram durante décadas na formação de condutores mais conscientes. “Não é um processo rápido, porque as crianças que educamos hoje só serão condutoras quando atingirem a idade legal.”
Paralelamente, Ronny defende a necessidade de uma revisão no planejamento urbano e a retomada do Plano Municipal de Mobilidade, elaborado pela UFG e entregue à Prefeitura em 2023, como instrumento essencial para reorganizar o trânsito da capital. “Seria importante que a prefeitura retomasse o Plano de Mobilidade, pois esse instrumento permite estabelecer diretrizes claras para a organização da circulação urbana.”
Fiscalização constante
Enquanto isso, o diretor de Trânsito da Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET), Luís Tiago, afirma que o poder público realiza fiscalizações por meio de videomonitoramento com câmeras do tipo PTZ (Pan, Tilt e Zoom), conectadas à Central de Monitoramento. Ao mesmo tempo, ele reconhece a impossibilidade de manter fiscalização presencial constante em toda a cidade por meio de agentes de trânsito.
Segundo Tiago, a maioria dos acidentes envolvendo colisões contra postes resulta de imprudência, como excesso de velocidade e condução sob efeito de álcool. Ele afirma ainda que essas ocorrências estão distribuídas por todo o território urbano e são mais frequentes durante a madrugada, à noite, em feriados e fins de semana, períodos em que o fluxo menor favorece o aumento da velocidade.
Temos essa característica nessas ocorrências, que geralmente acontecem nas madrugadas de segunda-feira, logo após o domingo, ou no intervalo entre sábado e domingo.

Ele também destaca que o crescimento da frota de veículos particulares contribui diretamente para o aumento das ocorrências, sobretudo quando associado à condução imprudente. Segundo Tiago, além da fiscalização, o município atua por meio de ações educativas em escolas, empresas e campanhas de conscientização, como blitz educativas. “Nosso departamento visita empresas e escolas para promover a redução do excesso de velocidade, do consumo de álcool e incentivar a direção defensiva.”
Além disso, ele afirma que a Prefeitura mantém parcerias com a Equatorial para identificar os locais com maior incidência de colisões, visando direcionar ações educativas e preventivas de forma mais eficiente.
Centro de Operações
Segundo a concessionária de energia, outras quatro cidades estão entre as que registram maior número de postes danificados: Rio Verde (174), Aparecida de Goiânia (153), Anápolis (110) e Catalão (90). Os casos são monitorados diretamente pelo Centro de Operações Integradas (COI), localizado no Jardim Goiás, em Goiânia, por uma equipe que atua em duas frentes principais: manutenção de linhas de alta e média tensão, com operação ininterrupta, 24 horas por dia, correspondendo à maior infraestrutura da modalidade no grupo Equatorial.
Segundo o gerente do COI da Equatorial, Vinicyus Lima, Goiás é o estado com maior número de postes danificados por acidentes automobilísticos entre todas as concessionárias do grupo Equatorial.
Ele ressalta que as danificações representam uma das principais causas externas de interrupção no fornecimento de energia, devido ao rompimento de cabos energizados, o que pode gerar risco de choque elétrico, incêndios e bloqueio de vias públicas. Para Lima, o cenário atual representa um alerta preocupante para 2026, considerando a média superior a 10 postes atingidos por dia.
Segundo o gerente, há preocupação especial com o período do Carnaval, quando há previsão de ao menos 50 novas estruturas danificadas durante o feriado prolongado, elevando o total para 374 ocorrências. “O Carnaval é um período crítico. Por isso, reforçamos nossas equipes e desenvolvemos um plano especial para manter o fornecimento de energia estável”, afirma.

Ele ressalta, contudo, que apenas a atuação da concessionária não é suficiente, necessitando a conscientização da população para reduzir os acidentes, que colocam em risco pessoas e o fornecimento de energia.
O COI funciona como um sistema de monitoramento contínuo da rede elétrica, permitindo acompanhamento detalhado do fornecimento em todo o estado. Técnicos da concessionária monitoram falhas e interrupções seguindo protocolos rigorosos. O sistema detecta automaticamente qualquer desligamento na rede de média ou alta tensão. Quando ocorre uma falha, a equipe de Primeiro Impacto identifica o trecho afetado e envia uma equipe para verificação.
Simultaneamente, a área denominada Ilha de Risco verifica informações recebidas de consumidores e entra em contato com solicitantes para confirmar detalhes da ocorrência antes mesmo da chegada das equipes. “Identificamos o trecho desligado e direcionamos as equipes para verificar a causa, que frequentemente é o abalroamento”, explica.

Após a confirmação do dano, comandos remotos são acionados para redirecionar o fluxo de energia e reduzir o número de consumidores afetados. Ao todo, existem mais de 8 mil equipamentos telecomandados instalados na rede elétrica estadual.
Essa tecnologia permite restabelecer o fornecimento de energia para até 90% dos consumidores impactados em menos de três minutos em determinados casos. Enquanto isso, o trecho danificado permanece desligado para que as equipes realizem os reparos com segurança, evitando riscos de eletrocussão. O Corpo de Bombeiros e o Samu também são acionados para atendimento às vítimas.
Responsabilização das ocorrências
Segundo o gerente, a substituição de um poste em área urbana pode levar até seis horas, com variações em áreas rurais ou em casos com vítimas fatais, quando há necessidade de perícia técnica. “Isso não significa que todos os consumidores ficarão sem energia por seis horas, mas aqueles diretamente ligados ao trecho danificado podem permanecer sem fornecimento por mais tempo.”

Em todos os casos, os custos de reparo ou substituição são atribuídos ao condutor responsável pelo acidente. A identificação é feita por meio de relatos e imagens de videomonitoramento, e a cobrança ocorre inicialmente de forma extrajudicial.
Caso não haja acordo, a concessionária ingressa com ação judicial para ressarcimento dos danos. “Quando há negociação, o caso é encerrado. Caso contrário, segue para a esfera judicial para indenização”, conclui.
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