A política de Goiás está estruturada atualmente em quatro principais forças: o grupo governista, liderado por partidos como o MDB – do governador e pré-candidato ao governo, Daniel Vilela; a federação União/PP; o PSD, de Ronaldo Caiado, ex-governador e pré-candidato à Presidência da República; e a federação PRD/Solidariedade. Além desse bloco, há o PSDB, comandado pelo ex-governador e pré-candidato Marconi Perillo; o PL, liderado pelo senador Wilder Morais, também pré-candidato ao governo; e o PT, presidido pela deputada federal Adriana Accorsi.

Faltando sete meses para as Eleições Gerais de 2026, teve início, dia 5 de março, a janela partidária, período em que deputados federais, estaduais e distritais podem trocar de partido sem perder o mandato. O prazo encerrou na sexta-feira, 3, quando as mudanças passam a implicar perda de mandato. A regra vale apenas para cargos proporcionais, não se aplicando a funções majoritárias como governador, senador e presidente.

A possibilidade de troca sem punição foi criada após o Tribunal Superior Eleitoral instituir, em 2007, o princípio da fidelidade partidária, posteriormente incorporado à legislação federal. Para vereadores e suplentes, a mudança só ocorre sem risco mediante autorização formal da legenda.

Base governista amplia hegemonia no estado

A base aliada do governo de Goiás, liderada por Ronaldo Caiado, demonstrou força política com o apoio de mais de 200 prefeitos durante o lançamento da pré-candidatura de Daniel Vilela ao governo, realizado dia 14 março, na cidade de Jaraguá, alcançando 223 municípios.

A base política de Caiado atingiu um nível inédito de capilaridade, reunindo cerca de 90% dos prefeitos do estado. O movimento resulta da adesão de lideranças locais, inclusive de partidos de oposição, evidenciando uma convergência em torno do Palácio das Esmeraldas e o enfraquecimento de adversários.

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Caiado é ovacionado em Jaraguá | Foto: Reprodução

As movimentações desde a reeleição de Caiado, em 2022, reforçam a força do grupo para 2026.

Perdas sucessivas atingem o PL

Apesar de o PL ser hoje uma das maiores siglas do país em número de parlamentares no Congresso Nacional, o partido enfrenta perdas expressivas em Goiás.

Dos 26 prefeitos eleitos pelo PL em 2024, 14 já migraram para a base de Caiado e Daniel Vilela, enquanto outros dois estão em tratativas avançadas. Pelo menos três prefeitos já decidiram se filiar ao MDB.

Na Câmara Federal, o partido também perdeu espaço. Deputados como Daniel Agrobom migraram para o PSD, enquanto Professor Alcides se filiou ao PSDB. Atualmente, o PL conta com apenas dois dos quatro deputados eleitos em 2022, podendo perder mais um, caso Magda Mofatto confirme saída para o PSD.

MDB cresce e atrai lideranças

O MDB, liderado por Daniel Vilela, tem ampliado sua base com a filiação de nomes importantes e a migração de prefeitos.

Entre os destaques estão o deputado federal Zacharias Calil, que se filiou ao partido com o objetivo de disputar o Senado, e a deputada Flávia Morais, que deixou o PDT. Também retornou à sigla o experiente deputado estadual e decano Paulo Cezar Martins.

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Zacharias Calil e Daniel Vilela em ato de filiação | Foto: Reprodução

Prefeitos que deixaram o PL e migraram diretamente para a base do MDB incluem Tiago Japiassú (Pilar de Goiás), Rodrigo Fonseca (Ouro Verde de Goiás) e Jerônymo Siqueira (São Miguel do Araguaia).

Além disso, há gestores que permanecem no PL, mas já declararam apoio político a Daniel Vilela, como Márcio Corrêa (Anápolis), Carlinhos do Mangão (Novo Gama), Dr. Luis Otávio (Cristalina) e Simone Ribeiro (Formosa).

PSD se fortalece com Caiado

A filiação de Ronaldo Caiado ao PSD marca um dos movimentos mais relevantes do período. Articulada pelo presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, a mudança posiciona Caiado como nome da centro-direita para a disputa presidencial.

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Ato de filiação de Luiz do Carmo ao PSD | Foto: Reprodução

O PSD reúne novas filiações como José Mário Schreiner, Luiz do Carmo, Fátima Gavioli e Pedro Sales, além de ter recebido o deputado federal Daniel Agrobom.

Há ainda expectativa de novas filiações, como a possível ida de Magda Mofatto para a sigla.

PSDB aposta na reconstrução

O PSDB, sob liderança de Marconi Perillo, busca se fortalecer com novas filiações, incluindo o deputado estadual Clécio Alves, os deputados federais Jeferson Rodrigues e Professor Alcides. Vilmar Mariano, ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, faz parte dos novos filiados.

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Ato de filiação de professor Alcides e Vilmar Mariano | João Reynol/Jornal Opção

Ainda se juntaram à legenda nomes como Felipe Cecílio, Gugu Nader, Flávia Teles, Hélio de Sousa, Ernesto Roller e Walter Vosgrau.

Vale destacar que a sigla perdeu a vereadora Aava Santiago que migrou para o PSB.

Uma fonte ligada ao próprio partido afirma que Marconi está sem alternativas de nomes fortes e, por isso, está buscando aqueles que sobraram da base de Caiado. A fonte completa, enfatizando que, enquanto mais de 200 prefeitos apoiam Daniel, Marconi conta com o apoio de vários ex-prefeitos.

Apesar das movimentações, o partido ainda trabalha para recuperar protagonismo no estado.

PL tenta reagir com novas filiações

Mesmo com perdas, o PL tenta reagir. A principal filiação foi a de Ana Paula Rezende, filha de Iris Rezende, cotada para compor como vice na chapa de Wilder Morais.

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Ana Paula Rezende em ato de filiação | Foto: Reprodução

O partido também recebeu Maria Yvelônia e mantém apoio de prefeitos da sigla como Desterro Santos (Britânia), Garibaldo Neto (Buriti Alegre), Chico Vaca (Corumbá de Goiás) e outros.

Ainda assim, enfrenta dificuldades diante da saída de lideranças e da migração de prefeitos.

PT enfrenta incertezas

O PT, segundo lideranças internas como Luis Cesar Bueno, um dos fundadores do partido em Goiás, pode estar perdendo filiados durante a janela partidária. “Ainda não há definição clara sobre o impacto das movimentações, mas a tendência é de enfraquecimento no estado”, disse.

Luis Cesar Bueno – Foto: Leoiran/Opcao

Cenário projeta base mais forte e oposição fragilizada

Na Assembleia Legislativa de Goiás, a base governista conta com pelo menos 25 dos 41 deputados. Na Câmara Federal, mantém força e perspectiva de reeleição da maioria de seus representantes.

O cenário geral aponta para a consolidação da base liderada por Caiado e Daniel Vilela como a principal força política em Goiás. Em contrapartida, o PL surge como o grupo mais prejudicado pela janela partidária, enquanto PSDB e PT tentam se reorganizar.

Diante desse quadro, a janela partidária não apenas reorganiza as legendas, mas reforça a tendência de hegemonia do grupo governista nas eleições de 2026.

Janela partidária expõe pragmatismo na política, diz especialista

A janela partidária, período em que parlamentares podem trocar de partido sem perder o mandato, funciona como um momento de reavaliação estratégica dentro do cenário político brasileiro. A análise é do professor e estrategista político Marcos Marinho, que aponta predominância do pragmatismo sobre a ideologia nas decisões partidárias.

Recalibragem política

Segundo Marinho, o mecanismo permite que deputados e vereadores recalibrem suas chances eleitorais diante das mudanças que ocorrem ao longo do mandato. “A janela partidária é um momento de recalibragem das estratégias, porque durante o mandato muitas coisas vão acontecendo no contexto político, e cada eleição é uma eleição diferente”, explica.

Ele destaca que fatores como novas alianças, federações partidárias e rearranjos internos influenciam diretamente essas movimentações. “No momento da janela, muitos parlamentares observam que, se continuarem onde estão, podem não ter uma reeleição facilitada. Então, há uma recalibragem: partidos que vão se robustecer e outros que vão ficar mais frágeis”, afirma.

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professor e estrategista político Marcos Marinho | Foto: Acervo pessoal

Pragmatismo acima da ideologia

Para o estrategista, a escolha partidária atualmente está menos ligada a convicções ideológicas e mais a cálculos eleitorais. “A filiação partidária, em poucos casos, advém de uma questão ideológica. Na maior parte, é um pragmatismo matemático: onde eu tenho mais chance de me eleger ou me reeleger”, diz. “Todo mundo está fazendo conta para saber se é melhor ficar ou buscar uma nova legenda com mais possibilidade de garantir o mandato.”

Marinho também relativiza a ideia de fidelidade partidária no Brasil. “Não existe mais essa utopia da fidelidade partidária, isso é um mito. Ela ainda existe por mecanismos de coerção, mas muitas vezes a atuação é em prol de interesses próprios”, pontua.

Projetos pessoais em foco

Na avaliação dele, a janela partidária reforça projetos individuais dentro da política. “É só um momento de confirmação de projetos pessoais. Não existe mais essa utopia dos partidos ideológicos. O partido hoje é quase um mal necessário, porque sem ele não é possível se candidatar”, afirma.

O especialista também não vê relação direta entre o instrumento e o fortalecimento da democracia. “A janela partidária é um instrumento político que opera no bastidor. Ela só dá condição de quem tem mandato recalcular a rota e fazer novas parcerias para tentar se manter no poder. Isso não tem nada a ver com a democracia, na minha leitura”, argumenta.

Disputa por recursos

Além disso, ele ressalta que o movimento beneficia as siglas na disputa por recursos públicos. “Ela é útil para que os partidos atraiam novos filiados e mandatários para se fortalecer e buscar uma fatia maior do fundo partidário e do fundo eleitoral. A dinâmica é essa”, afirma.

Para Marinho, o impacto dessas mudanças no eleitorado tende a ser limitado, já que o voto no Brasil é majoritariamente personalista. “O eleitor, na maioria das vezes, nem sabe qual é o partido do candidato. São poucos grupos que votam por questões partidárias. Para a grande massa, não faz muita diferença”, diz.

Apesar das críticas, ele não considera a janela partidária prejudicial ao processo político. “Ela já faz parte da normalidade. Não vejo problema algum, nem como um malefício ao processo eleitoral”, afirma.

Cenário indefinido

Sobre os efeitos práticos desta janela, Marinho pondera que ainda é cedo para avaliar quais grupos sairão fortalecidos. “Só no dia seguinte ao fim do prazo é que vai dar para ter uma noção clara. Até lá, muitos políticos podem mudar de partido até o último momento”, explica.

Ele cita movimentações recentes para exemplificar a instabilidade do período. “Já vi muita gente dormir em uma chapa e amanhecer em outra. Às vezes, até ficar sem chapa”, relata.

O estrategista observa que, embora algumas bases políticas já demonstrem maior robustez, o cenário segue indefinido. “A base do Daniel Vilela hoje é a maior, o que indica potencial de fortalecimento. Mas há outras lideranças se mobilizando. Ainda não dá para bater o martelo sobre quem sai mais forte ou mais fraco”, conclui.

Janela partidária define estratégias políticas; fidelidade partidária é regra

De acordo com o advogado e ex-juiz membro do TRE-GO, Luciano Hanna, a legislação estabelece regras claras para esse processo, sobretudo no sistema proporcional. “Sempre seis meses antes das eleições há a janela partidária, que dura 30 dias e permite ao parlamentar mudar de partido sem risco de perder o mandato”. Fora desse período, segundo ele, a desfiliação só é permitida em casos específicos de justa causa, como mudança substancial no programa partidário ou discriminação política pessoal.

Hanna ressalta que a fidelidade partidária é um princípio central nesse modelo, uma vez que o mandato pertence ao partido e não ao candidato. “Se não obedecer à janela partidária ou não comprovar justa causa, o parlamentar pode perder o mandato”, afirma. Já cargos do Executivo, como prefeitos, governadores e presidente, não estão sujeitos a essa regra, pois, nesses casos, o mandato é considerado pessoal. “No sistema majoritário, o candidato pode trocar de partido a qualquer momento, porque o mandato pertence à pessoa, não à legenda”, pontua.

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advogado e ex-juiz membro do TRE-GO, Luciano Hanna | Foto: Acervo pessoal

Sistema é fortalecido

Do ponto de vista jurídico, o especialista avalia que a janela partidária fortalece o sistema político ao evitar trocas oportunistas logo após as eleições. “A janela fortalece porque impede que o candidato use o partido para se eleger e saia imediatamente depois. Há uma lógica de fidelidade, já que o mandato é do partido”, destaca. Ele reforça ainda que não há brechas na legislação, que é objetiva e baseada na Constituição Federal e na Lei dos Partidos Políticos (Lei 9.096/1995).

Ao abordar o funcionamento do sistema proporcional, Hanna explica que a distribuição de vagas depende do quociente eleitoral, calculado a partir da divisão dos votos válidos pelo número de cadeiras disponíveis. “Se um partido alcança votos suficientes para duas vagas e meia, por exemplo, ele garante duas cadeiras e disputa o restante nas sobras”, detalha. Esse mecanismo torna a formação de chapas um fator decisivo nas eleições.

Composição de chapas pesa na eleição

Nesse contexto, a escolha do partido pode impactar diretamente as chances de eleição. Segundo o advogado, não há uma regra fixa sobre partidos grandes ou pequenos, já que tudo depende da composição da chapa. “O político experiente sempre pergunta: quem são os candidatos do partido? Porque isso define a média de votos e as chances reais de eleição”, explica. Ele acrescenta que chapas muito fortes podem elevar o nível de disputa interna, exigindo mais votos para garantir uma vaga. “Se você tem muitos candidatos competitivos, o ponto de corte sobe e o jogo fica mais difícil.”

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