As apostas tecnológicas de Daniel Vilela para impulsionar a economia goiana além das fronteiras
12 abril 2026 às 06h00

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Empossado governador de Goiás no último dia 31 de março, o emedebista Daniel Vilela completou, na última sexta-feira, 10 dias de gestão. Filho de Maguito Vilela, assumiu o Palácio das Esmeraldas sinalizando, nos primeiros atos, o que já era esperado: fará uma gestão de continuidade, mantendo as políticas e a linha institucional de seu antecessor e padrinho político, o agora ex-governador e atual pré-candidato à Presidência da República, Ronaldo Caiado.
Contudo, apesar de já ter deixado claro que seguirá o jeito “caiadista” de governar o Estado, o que não é uma escolha ruim, uma vez que Caiado deixa a cadeira no Esmeraldas com quase 90% de aprovação em Goiás, mantendo praticamente intocáveis algumas áreas como a segurança pública, que foi, inclusive, uma das únicas partes do alto escalão com quase nenhuma alteração, Daniel teria dito a auxiliares, e explicitado isso também ao eleitorado, que quer deixar sua própria marca.
Jovem e ao mesmo tempo engajado, Daniel vem acumulando experiência no trato com o Executivo desde que foi empossado como vice de Caiado, após ser derrotado por ele nas eleições estaduais. Conforme já noticiado em diversas ocasiões pelo Jornal Opção, Ronaldo Caiado, já em processo de preparação de seu sucessor, deixou Daniel Vilela à frente de vários projetos grandiosos do Estado, justamente para que tivessem a impressão digital do emedebista.
Entre as diversas “missões” assumidas por Daniel, destacam-se, por exemplo, as comitivas internacionais lideradas por ele e as iniciativas tecnológicas voltadas sobretudo para a infraestrutura e segurança pública, principal mote do governo anterior e que deve seguir assim no atual.
Já não era de se esperar que a integração econômica internacional e a expansão tecnológica serão, pelo que se desenha, dois dos principais propulsores das ações de Daniel Vilela para o estímulo da economia.
Incorporação de reforço tecnológico para o Estado
Entre os projetos já definidos como prioritários para a gestão está a criação da Goiás Tecnologia. Conforme apurado pela reportagem, a elaboração do projeto que cria a empresa está em fase final na Casa Civil, hoje sob o comando de Bruno Belém, e deve ser enviada à Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) para votação já na próxima semana.
A Goiás Tecnologia será criada a partir da incorporação reversa da Goiás Telecom pela Planalto Solar Park, um dos últimos ativos da CelgPar, que hoje está em processo de liquidação. A nova empresa, que, em termos de estrutura, utilizará as sedes físicas das empresas já existentes e que serão incorporadas, terá como objetivo dar suporte técnico ao Estado na chamada “transformação digital” pretendida por Daniel Vilela.
Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o gestor de marketing e profissional de TI João Grego, escolhido por Daniel para dirigir a Goiás Tecnologia, destacou que a ideia principal da nova empresa é ser um “indutor da economia” e “potencializar” o uso das ferramentas tecnológicas espalhadas e em uso pelas secretarias, além da obtenção de novas soluções nesse segmento para o Estado.

“Queremos otimizar o uso dos talentos e das plataformas de tecnologia já existentes. Ao fazer isso, otimizando esses recursos, esperamos trazer mais vantagens ao cidadão. O Estado não é um gerador de receita. Portanto, ele deve ser um facilitador para quem gera receita. Ele precisa atuar como um indutor da economia. Ele tem que ser um indutor. Não pode funcionar como um agente que trava; precisa, acima de tudo, impulsionar”, disse.
Ainda segundo Grego, tão logo seja oficialmente criada, a Goiás Tecnologia será responsável por definir as políticas de tecnologia a serem aplicadas pelo Estado e formatar os meios de gestão e utilização de recursos tecnológicos.
“Tem a parte de comunicação, por exemplo. Temos a cobertura de [internet via] fibra, que a Goiás Telecom administra, e essa empresa vai continuar administrando. Temos o provimento de energia, que hoje a Planalto faz, e vamos continuar administrando isso também. O parque de geração de energia fotovoltaica, que abastece as empresas do Estado, vai estar dentro dessa estrutura também. É uma estrutura bastante ampla, além de toda a parte de soluções”, detalhou o futuro presidente da Goiás Tecnologia.
João Grego detalhou que as iniciativas da nova empresa poderão expandir e aperfeiçoar, por exemplo, a ferramenta de IA contra crimes implantada no ano passado pelo governo estadual.
O plano do governo, em fase de implantação desde 2025, é instalar, até este mês de abril, mais de 5 mil câmeras de videomonitoramento com uso de IA em cidades turísticas e na Região Metropolitana de Goiânia. A meta é alcançar 22 mil dispositivos instalados e integrados em todo o Estado, formando o chamado “cinturão virtual” de vigilância.

A plataforma não depende apenas de bancos de dados de placas ou de reconhecimento facial. O sistema também permite a identificação por características semânticas, como cor do veículo, tipo de vestimenta, como camisa vermelha, adesivos em automóveis e comportamentos considerados atípicos.
“Potencializando o uso de tudo isso que eu mencionei, em vez de buscarmos no mercado todas as soluções de que precisamos, algumas demandas poderão ser resolvidas internamente. Mas, como eu disse, o foco será integrar as soluções. Hoje, o Estado possui diversas estruturas de TI separadas entre as diferentes secretarias, e precisamos integrar tudo isso, construindo uma visão única, com uma base de dados unificada”, concluiu.
Avanço nas terras raras
Iniciados ainda durante a gestão Caiado, os investimentos no mapeamento e na exploração conjunta das chamadas “terras raras” em Goiás devem ganhar destaque também no governo de Daniel Vilela.
Em fevereiro deste ano, o governo estadual, por meio da Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e Serviços (SIC), firmou com a Universidade Federal de Goiás um acordo que prevê investimentos na ordem de R$ 28 milhões para a criação do Centro de Ciências e Tecnologia Mineral. A estrutura será instalada na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT/UFG), no câmpus de Aparecida de Goiânia.
Vale destacar que a mina Pela Ema, da Mineradora Serra Verde, em Minaçu, por exemplo, tem atraído crescente interesse de governos e compradores desses metais em todo o mundo, por ser uma das únicas produtoras de terras raras pesadas fora da China. Entre os minerais produzidos, destacam-se o disprósio e o térbio, considerados críticos para a fabricação de componentes de alta tecnologia utilizados em áreas como automotivo, médico, energias renováveis, eletrônicos, robótica, defesa e aeroespacial.
O projeto vinculado ao convênio foi batizado de “Cluster Mineral” e funcionará como instrumento para o desenvolvimento de ações e implementação de políticas públicas voltadas ao fortalecimento das principais cadeias produtivas de base mineral.

Os cerca de R$ 28 milhões serão destinados à construção do Centro de Ciências e Tecnologia Mineral, vinculado à FCT da UFG, no câmpus de Aparecida de Goiânia, além da aquisição de equipamentos e do fomento a projetos estratégicos, como as ações do HUB GO Agrominerais-CEFENP.
Vice-diretora da FCT-UFG, a professora Gradisca de Oliveira Werneck de Capistrano explicou que o convênio também prevê a formação profissional, com a criação de cursos e intercâmbios. “Como o campus está em plena expansão, com cursos importantes como engenharias e geologia, além de já contar com parcerias consolidadas com empresas e outros institutos de pesquisa, a ideia é fortalecer a pesquisa e os pesquisadores”, afirmou.
Já o diretor da FCT-UFG, professor Tiago dos Santos Almeida, destacou que o convênio é resultado do que foi proposto no Plano Estadual de Recursos Minerais (PERM), marcando o início da fase de implementação dos programas previstos. “O objeto é a implementação do Programa Cluster Mineral, fundamentado diretamente no PERM. O plano também prevê iniciativas como o Programa de Aproximação do Setor Produtivo com Ciência e Tecnologia e o Programa de Qualificação Profissional, que sustentam as metas deste convênio”, explicou.
Segundo o diretor, o Centro de Ciências e Tecnologia Mineral atuará prioritariamente nas cadeias de base mineral apontadas no PERM como estratégicas para Goiás.
“Estamos falando de minerais críticos e estratégicos, agrominerais, minerais para construção civil e gemas. O centro está sendo planejado para desenvolver projetos em parceria com empresas, com foco em pesquisa de caracterização mineral e geoquímica de depósitos, além da futura implementação de plantas experimentais para o desenvolvimento de rotas tecnológicas, também em parceria com outros institutos de pesquisa”, detalhou.
Almeida acrescentou que outro ponto relevante será a atuação na área de reaproveitamento de resíduos minerais, com foco na recuperação de bens minerais.
“Naturalmente, entre os minerais estratégicos, também estão as terras raras”, ressaltou.
Para o diretor, a estruturação da pesquisa mineral é fundamental para impulsionar novas oportunidades a partir do potencial já existente no estado.
“Temos pesquisadores qualificados, de diferentes áreas, que poderão contribuir para avanços ao longo do tempo. As parcerias para o desenvolvimento de soluções também tendem a crescer. Vamos trabalhar com minerais estratégicos que vão muito além das terras raras e ampliar a atuação da academia, em parceria com o governo, junto ao setor mineral”, concluiu.
Pequi Digital
O Pequi Digital, banco digital que deve colocar o estado no mercado de serviços financeiros digitais e ampliar a gestão de recursos públicos com apoio da tecnologia, é outra iniciativa de Daniel Vilela que integra o pacote voltado à inovação.
O projeto, conduzido pela Agência de Fomento de Goiás, pode movimentar mais de R$ 16 bilhões por ano ao final de sua implantação, segundo estimativas do edital de chamamento público.
O processo teve tramitação considerada ágil: foram cerca de quatro meses entre a contratação de consultorias para modelagem do projeto e a conclusão da seleção da instituição parceira. O edital foi publicado em 30 de dezembro de 2025, e a assinatura do contrato deve ocorrer nos próximos dias.
Ao Jornal Opção, a Goiás Fomento explicou que a plataforma será estruturada com base em uma instituição financeira autorizada pelo Banco Central e com certificações internacionais de segurança, como ISO 27001, PCI DSS 4.0 e SOC 2 Type 2.
O modelo prevê mecanismos de proteção desde o cadastro dos usuários, com validação biométrica e captura de documentos, até o monitoramento das operações. O edital também proíbe práticas irregulares, como o uso de contas-bolsão, e estabelece a obrigatoriedade de comunicação de transações à Receita Federal e ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras.

Ainda segundo a Goiás Fomento, no campo financeiro, o projeto adota um modelo de partilha de receitas “50% x 50%”. “Esse resultado líquido é apurado subtraindo os custos operacionais das receitas geradas. Para proteger o Estado, foi criado um teto rígido chamado Custo de Operação Projetado Máximo (COPM); qualquer ineficiência ou gasto da parceira que ultrapasse esse limite não será considerado para efeitos de apuração”, detalhou.
A operação vai funcionar em regime de “Livro aberto”, com contabilidade segregada e auditorias anuais realizadas por empresa independente registrada na Comissão de Valores Mobiliários.
A adesão dos usuários será voluntária. O governo vai apostar na oferta de serviços digitais para atrair servidores públicos e beneficiários de programas sociais. O aplicativo deve reunir funcionalidades como cartões de crédito e pré-pagos, integração com carteiras digitais e acesso facilitado a crédito consignado.
Segundo a Goiás Fomento, “para os servidores, a plataforma vai oferecer funcionalidades de ponta, como a integração nativa com carteiras digitais (Apple Pay, Google Pay, Samsung Pay), além da atratividade das linhas de crédito consignado. Já para os beneficiários de programas sociais, a grande vantagem é um ambiente simplificado onde múltiplos benefícios estarão unificados num único cartão inteligente, facilitando a gestão do seu dinheiro no dia a dia”.
O modelo de negócio elimina custos diretos para o Estado. A instituição privada será responsável por todos os investimentos iniciais e pela manutenção da plataforma, assumindo também os riscos da operação.
Com isso, o retorno financeiro para o governo começa a partir do momento em que os serviços entram em funcionamento e passam a gerar receita. Com a proposta, o governo de Goiás tentará criar uma estrutura digital própria para movimentação de recursos, ampliando, simultaneamente, o acesso da população a serviços financeiros.
Goiás para os gringos
O governador Daniel Vilela também vai encaminhar à Assembleia Legislativa de Goiás um projeto de lei para a criação da InvestGO, agência estadual voltada à atração de investimentos, promoção comercial e estímulo às exportações.
A proposta se inspira no modelo da InvestSP e foi estruturada a partir de um estudo realizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento.
A nova agência terá como uma de suas principais estratégias a abertura de escritórios no exterior, com o objetivo de ampliar a presença institucional de Goiás em mercados internacionais e facilitar a conexão com investidores estrangeiros.
A iniciativa busca apoiar, orientar e incentivar empresas, tanto nacionais quanto internacionais, a se instalarem no estado. A expectativa do governo é que a atuação da InvestGO contribua para a atração de novos investimentos, com impacto direto no fortalecimento da economia goiana.
Fontes ligadas à Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação evitam comentar o projeto, já que ainda está em fase inicial e será remetido ao Legislativo, mas adiantaram, em off, que a intenção é instalar escritórios representativos de Goiás em grandes países da Europa e da América, capazes de representar o Estado e atrair grandes investidores.

