Mulheres investem no café e ajudam impulsionar o cultivo por Goiás
07 março 2026 às 21h00

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Na semana passada, o Jornal Opção mostrou uma reportagem sobre a cultura do café em Goiás. O Estado tem se destacado quando falamos em produtividade da cultura, chegando a produzir quase 39 sacas por hectare. Mulheres têm se mostrado interessadas em investir no café, que levou Goiás a produzir 215,5 mil sacas em 5,5 mil hectares plantados no ano passado, segundo a Secretaria de Estado de Pecuária e Abastecimento (Seapa).
A reportagem conversou com três Ana’s que, além de terem o mesmo nome, dividem a mesma paixão pelo café. A primeira personagem é a Ana Rita dos Santos Vieira. Ela conta que acreditava que o plantio do café só era voltado para grandes produtores, com lavouras enormes, afastando qualquer possibilidade da cultura se encaixar na agricultura familiar. A ideia começou a ser desmistificada quando a Secretaria de Agricultura de Goianésia, cidade onde ela realizou o plantio das mudas, apresentou um projeto voltado aos pequenos produtores, cujo qual ela foi selecionada.
Ana Rita plantou 3 mil pés de café. “Tudo que é novo é um desafio. Mas, quando você tem parceiros orientando e dando suporte, o desafio fica muito menor. Eu moro em um assentamento e entrei nesse experimento do café na propriedade onde vivo. Além disso, a região onde moro tem muita história com o café. Antigamente havia grandes produções e até existe um Museu do Café. Tudo isso foi despertando ainda mais esse interesse em participar do projeto.”
Ela conta que a atual forma de plantar café é diferente de como era feito antigamente, como técnicas diferentes para manejo, colheita e cuidados específicos das plantas. “Primeiro vem a preparação do solo: é feita a análise da terra, aplica calcário, adubação e prepara a irrigação. Depois, vem o plantio. É necessário cuidar da adubação das plantas e da irrigação para que as mudas se desenvolvam bem”, destaca.
As mudas são irrigadas por meio do sistema de gotejamento. Segundo ela, é um modelo mais viável para uniformizar a distribuição de água entre os pés, que também acaba absorvendo melhor. Ela afirma que, no momento em que tiver mais domínio da técnica, pretende fazer uma expansão do plantio e fazer a comercialização do café por meio da cooperativa.

Apesar de ser apaixonada pelo café, ela não é uma iniciante no meio rural, pois já cultiva melancia, milho, mandioca, abobrinha e maracujá. Ana conta que não teve medo de pegar no pesado para fazer as culturas vingarem. “Na minha experiência pessoal, eu não tive tanta dificuldade. Sempre trabalhei muito na propriedade. Costumo dizer que a única coisa que nunca fiz foi tirar leite. Mas fazer cerca, capinar, aplicar defensivo, preparar a terra, tudo isso já fiz. Para mim, trabalhar no campo sempre foi algo natural”, conta.
O café plantado por ela é o 100% arábica da variedade Catucaí Amarelo 2SL. Ela explana que decidiu investir na cultura por ela ser muito valorizada. “Comparando com outras produções que já tive na propriedade, acredito que o café pode ser mais rentável. É uma cultura que exige cuidado, mas dura muito tempo e pode garantir uma boa renda”, destaca.
Ela é uma entusiasta do café e acredita que Goiás tem futuro promissor na nova cultura.

Meio de independência financeira
A segunda entrevistada é Ana Rosa Alves da Costa, que vive no assentamento Scarlete, em Mundo Novo. A sua relação com o café começou com o objetivo de auxiliar mulheres a terem sua independência financeira. A partir daí nasce o Projeto Mulheres em Campo. No início, eram 30 mulheres participantes, mas a falta de incentivo fez com que muitas saíssem do programa. “Hoje somos cinco pessoas no projeto: duas mulheres e três homens. Mesmo assim, seguimos com o trabalho e temos expectativa de formar novos grupos de mulheres até outubro”, destaca.
Para isso, foram recém-plantadas 1,5 mil mudas do café arábica, que estão divididas em um hectare de terra. São três variedades: Asa Branca, Acauã Novo e Catucaí Amarelo 2SL. O processo de início, segundo ela, foi difícil. “Graças a Deus encontrei o Cleiton, gerente de pesquisa da Emater, que acreditou no projeto e abraçou a ideia. Ele me deu suporte desde o início, primeiro por telefone e depois presencialmente, quando veio até a propriedade para nos ensinar o passo a passo do plantio e o cuidado com as mudas”, destaca, ao citar mais dois nomes importantes nesse processo: Claydston Gonçalves Bruno e Leandro, conhecido como Noca.

Outro desafio elencado por ela é a falta de apoio institucional e parcerias para viabilizar o projeto, além de convencer para mulheres que vale a pena investir no café. “Minha motivação é justamente trazer mais mulheres para o projeto e garantir essa independência financeira. As principais vantagens do café é a geração de renda e ser uma cultura de longo prazo. Uma lavoura pode produzir por 30 a 40 anos. É um investimento que pode garantir renda por muito tempo”, destaca.

Por ser mulher à frente de plantação, o machismo não se fez ausente na vida de Ana Rosa. Ela afirma que, por diversas vezes, precisou se provar perante aqueles que duvidaram que o café era uma cultura que poderia dar certo na região. “Houve muita resistência e ainda existe. Muitas pessoas não acreditaram que daria certo, ainda mais porque foi um projeto que eu mesma criei. Alguns diziam que aqui na região não se produz café. Essas críticas fizeram com que algumas mulheres desistissem no começo, mas só me motivaram ainda mais. Eu sempre acredito nos projetos que idealizo. Não podemos desistir no primeiro obstáculo. Hoje já tem gente que antes criticava e agora pede mudas de café para plantar. Isso mostra que estamos no caminho certo”, afirma.
Para o futuro, ela afirma que pretende aumentar a área plantada. Atualmente, o projeto ganhou um outro nome: Mulheres Cafeicultoras do Campo em Ação. “Porque estamos sempre em movimento e buscando crescer. A ideia é transformar nosso café em uma marca reconhecida e ampliar cada vez mais a participação das mulheres”, afirma.

Café como pilar de casa
Ana Cristina sempre teve o café como parte do seio familiar. Por anos, mais precisamente 30 anos, o pai dela opera uma torrefação de café em Ceres. Trabalho este que garantiu o sustento à família. O carinho pelo grão é incontestável.
Ana decidiu trilhar o próprio caminho: se formou em biomedicina, onde fez carreira em microbiologia, tendo, inclusive, um laboratório de análises clínicas. Profissionalmente falando, a vida já estava resolvida na sua perspectiva.
“Há cerca de dois ou três anos apareceu uma oportunidade de ajudar mais diretamente na empresa. Eu comecei devagar e, quando entrei nesse universo, me apaixonei. No começo eu achava que café era algo simples: plantar, colher, torrar e moer. Mas descobri que é um mundo enorme e muito interessante”, conta.
Ana buscou conhecimento sobre de onde vinha o café que era torrefado na empresa da família. Ela queria saber de tudo: da história, procedência e do cultivo. Ela se esbarrou em um mito que perdurou por anos na região: que os cafezais foram cortados por não produzirem bem.

“Quando participei de um dia de campo do projeto de café do Instituto Federal Goiano, percebi que eles já estavam cultivando café há cerca de dez anos. Aquilo me chamou muita atenção. Pensei: se eles estão conseguindo plantar café aqui, então talvez seja possível”, afirma.
Ana procurou uma prima e foram atrás de conhecer mais o trabalho no IF Goiano. O objetivo era plantar cerca de 150 mil pés. Com isso, 850 mudas de café que foram doadas pelo projeto, além de todo suporte e orientação técnica. O plantio foi feito em maio do ano passado. Segundo ela, pela formosura das plantas, é quase impossível não chamar atenção de quem passa pela região.
“Muita gente tem visitado a propriedade para ver o plantio e relembrar a época em que havia café na região. Alguns produtores já dizem que, se o nosso cafezal der certo, eles também pretendem plantar”, afirma.
O objetivo, segundo ela, é fazer um café de alto valor agregado, que possa participar de concursos e ter reconhecimento pela qualidade. “O café tem muitas variáveis. O sabor final depende do solo, do manejo, da torra e da cultivar. Mesmo dentro da mesma variedade é possível obter perfis sensoriais diferentes. Hoje, os consumidores valorizam muito cafés especiais, com rastreabilidade e qualidade. Por isso queremos produzir um café diferenciado”, destaca.
Ana reforça que a falta de conhecimento técnico sobre a cultura na região e o preconceito de se ver uma mulher à frente da plantação são os maiores entraves que já passou. “Muita gente diz que mulher não entende de adubação ou manejo de lavoura e que seria necessário um homem para fazer esse trabalho”, afirma.

Ela relembra de um episódio marcante sobre o machismo estrutural presente nos dias atuais na nossa sociedade. “Muitas vezes as pessoas acham que mulher não entende de agricultura. Já aconteceu de eu estar negociando uma máquina para a empresa e a pessoa ligar dizendo que queria falar com o ‘rapaz’ com quem tinha conversado antes. Quando descobriram que era uma mulher, acharam estranho. Eu saí da área da saúde, onde a maioria são mulheres, e entrei em um setor em que quase tudo é dominado por homens: quem vende café, quem vende máquinas, quem trabalha na área”, conta.
Apesar do infeliz episódio, ela conta que não se deixa abalar por isso e que o objetivo é expandir o plantio, mas sempre mantendo o foco na qualidade. “Também queremos fechar todo o ciclo de produção: plantar, colher, torrar e vender o nosso próprio café. Assim teremos um produto com rastreabilidade completa, desde o grão até a xícara”, pontua, não descartando também fazer parte de uma possível rota do café para proporcionar visitas nas plantações.

Atividade promissora
Responsável pelo trabalho científico para identificar o desenvolvimento do café em Goiás feito no IF Goiano — Campus Ceres, Cleiton Mateus Sousa, que também é gerente de pesquisa agropecuária da Emater Goiás, conta que café é uma planta que conta com algumas particularidades. Segundo ele, em cada época do ano, cuidados diferentes precisam ser adotados.
Para ele, o café é uma excelente alternativa para agricultura familiar e para mulheres que querem adentrar no ramo da produção agrícola. “Eu vejo a atividade como muito promissora. A determinação e o desejo de produzir que muitas mulheres demonstram são impressionantes. Além disso, o café exige dedicação e cuidado, mas não demanda necessariamente um esforço físico tão intenso quanto outras atividades agrícolas. Por isso, considero uma ótima oportunidade”, conta.
Entretanto, o professor destaca que é importante se ter em mente qual o objetivo que a produtor quer ter com o café. “Existem dois caminhos principais: buscar volume de produção ou priorizar a qualidade. É possível produzir um café de alta qualidade em áreas pequenas. Esse caminho permite, no futuro, desenvolver cafés especiais e até buscar uma indicação geográfica, especialmente em projetos liderados por mulheres e agricultores familiares”, afirma.
O café tem trazido resultados expressivos a Goiás: no ano passado, o Estado exportou 14,5 mil toneladas de café, o que resultou em US$ 105,6 milhões. Resultado que colocou Goiás em sexto entre os que mais exportaram, tendo Alemanha, Itália, Estados Unidos, Rússia e Países Baixos como os principais destinos do café do Cerrado.
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