O mercado editorial em Goiânia sempre existiu num terreno ambíguo: ao mesmo tempo fértil em produção literária e frágil em estrutura de circulação. Desde o surgimento dos primeiros grupos modernistas, passando pelas editoras universitárias e chegando às iniciativas independentes contemporâneas, o livro goiano nunca deixou de ser escrito — mas quase sempre teve dificuldade para permanecer em circulação. A história da edição em Goiás é, antes de tudo, a história de um esforço contínuo para transformar criação em permanência, autoria em leitura efetiva, e lançamento em vida longa.

Durante décadas, publicar um livro em Goiás foi um gesto mais simbólico do que mercadológico. A publicação servia como afirmação de identidade, registro de trajetória ou marco biográfico, mas raramente como início de um percurso editorial contínuo. O livro nascia, era celebrado em lançamentos e eventos pontuais, e depois desaparecia do circuito, restrito a acervos pessoais, bibliotecas pouco frequentadas ou caixas acumuladas nas casas dos próprios autores. Essa dinâmica moldou uma cultura literária intensa, porém fragmentada, em que o valor simbólico do livro superava sua circulação concreta.

Para a União Brasileira de Escritores – seção Goiás, presidida por Ademir Luiz, o cenário atual carrega um paradoxo central. De um lado, há uma geração numerosa, diversa e tecnicamente qualificada de escritores; de outro, um mercado editorial incapaz de absorver plenamente essa produção. Ademir defende que os autores goianos contemporâneos estão em “pé de igualdade com qualquer escritor brasileiro”, inclusive no diálogo com a produção latino-americana, mas ressalta que a ausência de uma estrutura sólida faz com que até os melhores livros encontrem obstáculos para existir além do lançamento.

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Ademir Luiz: escritor, crítico literário, professor universitário e presidente da UBE-Goiás | Foto: Divulgação

Segundo ele, a publicação em si deixou de ser o maior problema. “Hoje existem editoras, existem caminhos, existem editais. O grande gargalo é o que vem depois: onde esse livro vai circular?”, afirma. A informalidade ainda domina o mercado: muitos autores precisam vender seus livros de forma direta, sem CNPJ de distribuição, o que dificulta a entrada em livrarias, especialmente as de shopping e de grandes redes. A consequência é um mercado baseado no esforço individual, em redes pessoais e em estratégias de guerrilha, sobretudo nas redes sociais.

Essa estrutura precária ajuda a explicar por que Goiás, apesar de sua produção literária intensa, aparece recorrentemente nos rankings nacionais como um dos estados que menos leem. Não se trata apenas de hábito de leitura, mas de acesso, mediação e presença do livro na vida cotidiana da cidade.

A Kelps e a construção de uma tradição editorial

Durante décadas, o nome Editora Kelps foi praticamente sinônimo de publicação literária em Goiás. Fundada por Antônio Carlos, a editora consolidou-se como uma porta de entrada para escritores iniciantes e como um polo agregador da produção local, em um período em que praticamente não havia alternativas estruturadas fora do meio acadêmico. A Kelps ocupou um vazio histórico, criando um espaço possível para a publicação em um estado distante do eixo Rio–São Paulo.

A importância da Kelps não está apenas no número de livros publicados, mas na cultura editorial que ajudou a formar. Muitos autores publicaram ali seus primeiros títulos, aprenderam sobre os processos básicos da edição e passaram a se reconhecer como parte de uma cena literária local. Em um mercado ainda incipiente, a Kelps funcionou como mediadora entre o desejo de escrever e a materialização do livro.

O modelo adotado pela editora, mais aberto e menos restritivo do ponto de vista curatorial, sempre gerou debates. Para alguns, democratizava o acesso à publicação e estimulava a produção literária; para outros, diluía critérios editoriais e dificultava a consolidação de um catálogo mais rigoroso. Ainda assim, seu papel histórico é incontornável. Sem a Kelps, muitos escritores simplesmente não teriam publicado — e, sem essa publicação inicial, talvez nem tivessem permanecido na literatura.

A morte de Antônio Carlos, vítima da Covid-19, representou uma ruptura simbólica nesse percurso. Não apenas pela perda humana, mas pelo encerramento de um ciclo do mercado editorial goiano. Sob a direção de Leandro Almeida, a editora segue ativa, mas agora inserida em um cenário mais fragmentado, competitivo e exigente, em que novas editoras surgem com propostas editoriais mais específicas e curadorias mais definidas. O legado da Kelps permanece como memória cultural e como marco de um tempo em que publicar em Goiás era quase um ato pioneiro.

Antônio Almeida foi um dos fundadores da Editora Kelps, de Goiânia | © Redes sociais da empresa

Mondru: profissionalização, prêmios e o enfrentamento do eixo

Criada em Goiânia, a Mondru Editora nasce já com uma ambição clara de romper fronteiras regionais e atuar em escala nacional. Diferente de iniciativas voltadas exclusivamente para o mercado local, a Mondru se estrutura desde o início para dialogar com autores, leitores e eventos de todo o país. Para Jeferson Barbosa, editor-chefe da casa, operar uma editora fora do eixo Rio–São Paulo exige esforço permanente de legitimação. “Existe um preconceito real com editoras de Goiás. Muitas vezes somos vistos como exóticos”, afirma.

A estratégia da Mondru foi apostar em qualidade editorial aliada à presença constante em eventos nacionais. A editora participa regularmente da Flip e de outras feiras importantes, além de acumular indicações e prêmios relevantes, como o Jabuti e o Candango. “As premiações ajudam a quebrar esse olhar enviesado. Quando um livro é finalista do Jabuti, ele passa a ser lido de outra forma”, diz Jeferson. O prêmio, nesse contexto, funciona como selo de validação em um mercado ainda muito concentrado geograficamente.

Jeferson Barbosa e sua esposa Juliana tocam juntos a Mondru | Foto: Arquivo

O catálogo da Mondru é majoritariamente nacional, com autores de várias regiões do país, o que reforça sua vocação para além do mercado goiano. A presença de autores do Sudeste e do Nordeste é significativa, enquanto Goiás aparece em terceiro plano no catálogo, não por desvalorização, mas por uma estratégia editorial que busca ampliar o alcance da editora. Ainda assim, Jeferson não ignora os dados alarmantes sobre leitura no estado. “É assustador saber que somos um dos estados que menos leem. Isso não se resolve só com editoras. É um problema estrutural de formação de leitores”, avalia.

Ele aponta a ausência de uma grande feira do livro em Goiânia como sintoma dessa lacuna histórica. “Todas as capitais têm um grande evento literário. Aqui, isso ainda não existe.” Para Jeferson, eventos de grande porte, aliados a livrarias acessíveis e políticas de formação de leitores, são fundamentais para ampliar o público e criar uma cultura de leitura mais sólida.

No campo das políticas públicas, sua crítica é direta e recorrente. “Vejo editais com valores muito altos contemplando poucos livros. Com menos dinheiro, daria para publicar mais obras.” Para ele, livros não exigem grandes orçamentos; exigem circulação, acesso e continuidade. Editais que concentram recursos acabam excluindo autores e editoras menores, além de gerar tiragens que não encontram escoamento real.

Sobre tecnologia, Jeferson reconhece avanços no e-book e no audiolivro, mas rejeita a substituição do trabalho humano por inteligência artificial. “A literatura precisa de imperfeição. Quando está tudo perfeito demais, falta alma”, afirma. Para ele, a marca humana — com suas falhas, desvios e irregularidades — é o que distingue a literatura de um produto automatizado.

martelo casa editorial: rigor editorial, forma e crítica estrutural

A martelo casa editorial, fundada em 2014, construiu uma reputação singular no mercado editorial goiano ao adotar um critério rigoroso de publicação e uma forte atenção à materialidade do livro. Para Miguel Jubé, coordenador editorial da casa, a martelo nasceu sem pretensão comercial imediata, mas com um compromisso claro com qualidade textual e gráfica, entendendo a edição como um processo intelectual e técnico indissociável.

Miguel Jubé, coordenador editorial da martelo casa editorial | Foto: Arquivo

“Qual a possibilidade de uma editora independente num país de capital dependente?”, questiona Miguel sobre o uso indiscriminado do termo “independente”. Para ele, a concentração do mercado editorial brasileiro em São Paulo cria uma relação permanente de centro e periferia, que afeta diretamente editoras de outras regiões. Distribuição, visibilidade e legitimação continuam centralizadas, tornando a autonomia editorial sempre relativa.

A martelo responde a esse cenário investindo em controle total do processo editorial, inclusive com parque gráfico próprio. “Quem se preocupa com acabamento gráfico precisa dominar o processo. Caso contrário, fica refém”, diz Miguel. Essa autonomia permite à editora manter um padrão estético elevado sem recorrer à chamada gourmetização do livro — edições luxuosas, caras e pouco acessíveis.

Miguel também critica a ideia de que livros sofisticados precisam ser caros. “Qualidade não é luxo. É método”, afirma. Para ele, o risco estético só é possível quando há tempo, leitura atenta, reescrita e disposição para o corte — elementos raros em um mercado pressionado pela sobrevivência financeira e pelo excesso de lançamentos.

A martelo publica pouco e escolhe cuidadosamente seus títulos, o que a diferencia em um cenário de excesso de produção. Essa postura, segundo Miguel, é uma forma de resistência em um sistema que valoriza volume em detrimento de permanência. Publicar menos, nesse caso, é uma estratégia para fazer o livro durar mais.

Chafariz: edição clássica, domínio público e circulação real

Fundada em Anápolis, a Editora Chafariz, dirigida por Thiago Lima, nasceu com um projeto claro: publicar obras em domínio público em edições cuidadas, acessíveis e esteticamente coerentes. “A ideia era tornar acessível aquilo que faz parte da nossa história literária, mas não tinha boas edições”, explica. A proposta inicial dialogava com a tradição, mas também com a formação de leitores.

Thiago Lima | Foto: Arquivo

Com o tempo, a Chafariz passou a publicar autores vivos, enfrentando novos desafios editoriais e mercadológicos. Thiago observa que muitos escritores ainda não compreendem o processo editorial em sua totalidade. “Acham que mandar um texto em Word resolve tudo. Não resolve”, afirma. Revisão, preparação, diagramação e projeto gráfico ainda são vistos como custos dispensáveis, quando, na verdade, são centrais para a qualidade do livro.

Para ele, o maior problema atual do mercado editorial é a circulação. “As leis de incentivo exigem tiragens grandes, mas não garantem que esses livros circulem.” O resultado são estoques encalhados nas casas dos autores, livros que existem materialmente, mas não chegam aos leitores. “O livro existe, mas não acontece”, resume.

Thiago defende editais específicos para divulgação e circulação: debates, viagens, eventos em bibliotecas, escolas e cidades do interior. “Livro precisa de movimento. Sem isso, ele morre rápido.” Ele também critica a elitização do livro físico, resultado da gourmetização de edições luxuosas. “Livro bom não precisa ser caro. Precisa ser bem pensado.”

negalilu: publicar pessoas humanas

Fundada em 2013, a Editora negalilu, dirigida por Lari Mundim, representa uma virada conceitual no mercado editorial goiano. Após dez anos de atuação, a editora reposicionou seu discurso e sua prática: “Publicamos pessoas humanas”. O slogan sintetiza uma compreensão ampliada da edição como ato político, ético e estético.

“Fazer livros lindos nunca foi suficiente”, afirma Lari. Para ela, o catálogo precisa responder ao seu tempo e às urgências do mundo contemporâneo. A negalilu prioriza autorias de grupos historicamente sub-representados — mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência e idosos. “Esses protagonismos não são apenas uma pauta editorial, são uma necessidade planetária”, diz.

Lari Mundim | Foto: Arquivo

Além da publicação, Lari atua fortemente na circulação e na formação. A feira e-cêntrica consolidou-se como uma das principais feiras de publicações independentes do Brasil, criando redes, fomentando e fortalecendo novas editoras. “A feira já estimulou o surgimento de muitas iniciativas, novas editoras surgiram, muitos artistas gráficos encontraram jeitos de fazer o trabalho circular. A formação é outro aspecto importante, temos a cadeia produtiva do livro contemplada de ponta a ponta em oficinas, bate-papos, minicursos estimulando estudantes, pesquisadores e profissionais a se manterem em formação permanente. Isso é fundamental para qualificar a produção local”.

Ela prefere falar em infiltrações e desvios, não em inovação. Editoras independentes só existem se inventarem caminhos próprios. Oficinas, debates, grupos de estudo e residências literárias fazem parte desse ecossistema, que entende o livro não como produto isolado, mas como parte de uma cadeia viva de produção cultural.

“A geração anterior, essa que a negalilu pertence, já tem o domínio sobre as operações mercadológicas e é amadurecida para tomar decisões – podendo ou não se alinhar à operação tradicional. A maioria escolheu caminhos híbridos para seguir existindo e para seguir desobedecendo também”.

Lari reconhece avanços na visibilidade de grupos sub-representados, mas provoca: “No mês da visibilidade trans, quantos autores trans você leu?”. Para ela, o mercado editorial avançou, mas ainda está longe de ser equitativo.

Carlos William: quando o livro existe, mas não circula

Se as editoras independentes goianas lidam com o desafio de produzir e fazer circular seus livros, a reflexão de Carlos William, editor da Revista Bula, ajuda a compreender por que essa dificuldade persiste mesmo diante de um volume expressivo de publicações. Para ele, o problema do mercado editorial em Goiás não está apenas na produção ou na distribuição, mas sobretudo na ausência de mediação crítica contínua.

Carlos William observa que Goiânia sempre produziu literatura em quantidade, mas raramente conseguiu transformar essa produção em mercado editorial estruturado. “Historicamente, o que tivemos aqui foi mais uma cultura de imprimir livros do que uma cultura de editar livros”, afirma. A diferença, segundo ele, é fundamental: editar envolve escolher, cortar, lapidar, preparar texto, pensar catálogo e, principalmente, pensar circulação. Sem esse conjunto de etapas, o livro nasce frágil, mesmo quando bem impresso.

Nos últimos anos, ele reconhece avanços significativos, sobretudo na qualidade gráfica das publicações. “O livro melhorou muito como objeto. Hoje ele é bonito, bem acabado, bem diagramado”, diz. No entanto, esse avanço não foi acompanhado, na mesma medida, por um fortalecimento da curadoria editorial. O resultado é um cenário paradoxal: publica-se cada vez mais, mas nem sempre com critérios claros de seleção e amadurecimento dos textos.

Carlos William | Foto: Arquivo

Para Carlos William, esse excesso de produção acaba criando um ruído que dificulta a formação de leitores. “Quando tudo vira livro, nada vira acontecimento”, resume. A publicação deixa de ser consequência de um processo longo e passa a ser uma etapa quase automática, movida pela urgência de lançar. O livro nasce sem tempo de maturação — e desaparece com a mesma rapidez.

Ao transitar entre a edição de textos alheios e a escrita da própria obra, Carlos afirma que essa dupla experiência o torna simultaneamente mais paciente e mais exigente. “Quando você escreve, você sabe o quanto dá trabalho chegar numa forma boa. A primeira versão engana muito”, diz. Como editor, ele não busca padronizar vozes, mas ajudar o texto a se tornar aquilo que ele pode ser de melhor, sem atalhos.

Essa postura influencia diretamente sua leitura crítica do mercado goiano. Para ele, muitos livros são publicados antes de estarem prontos, não por falta de talento, mas por falta de tempo, mediação e diálogo editorial. “A publicação virou um impulso, quando deveria ser uma consequência”, afirma.

Questionado sobre risco estético, Carlos avalia que o mercado editorial goiano ainda é conservador — não por falta de ousadia dos autores, mas por fragilidade estrutural. “Quando o ecossistema é frágil, ele busca segurança”, diz. Publicar muito, publicar rápido, publicar o que dá menos trabalho acaba sendo uma estratégia de sobrevivência. O risco, nesse contexto, vira luxo.

Mesmo quando há ousadia formal, ela nem sempre vem acompanhada de um trabalho editorial capaz de sustentar essa experimentação. “O livro sai experimental, mas sem mediação. E aí o risco não vira força, vira isolamento”, avalia. Falta uma rede consistente de crítica, leitura e debate que faça esses livros acontecerem para além do lançamento.

É nesse ponto que Carlos William destaca o papel fundamental das revistas culturais e dos projetos editoriais independentes de mediação. “Livro não vive só de existir. Livro vive de ser conversado”, afirma. Em um cenário em que o jornalismo cultural perdeu espaço e regularidade, revistas, sites e projetos críticos acabam assumindo a função de apresentar autores, contextualizar obras e criar repertório.

Para ele, a circulação simbólica do livro é tão importante quanto a material. Sem resenha, sem debate, sem clubes de leitura, sem encontros, o livro vira apenas um objeto. “O lançamento acontece e o livro some”, resume. A ausência de mediação contínua faz com que a produção literária não se converta em memória cultural.

Quando provocado a apontar o principal gargalo do livro em Goiás, Carlos é direto: circulação. “Produção existe demais. Livro aqui não falta”, diz. O problema é fazer o livro circular com força, continuidade e presença. Distribuição é limitada, o circuito é curto, e mesmo quando o livro chega ao leitor, muitas vezes chega sem contexto.

Sobre a formação de leitores, ele relativiza o discurso do “não existe leitor”. Para Carlos, leitor existe, mas precisa de acesso e ponte. “Quando biblioteca funciona, quando escola chama a literatura para perto, quando existe curadoria, o leitor aparece”, afirma. A ausência dessas estruturas cria a falsa impressão de desinteresse generalizado.

Pensando no futuro, Carlos defende três frentes decisivas para fortalecer o ecossistema do livro em Goiânia: bibliotecas vivas, com programação constante e mediação qualificada; compras públicas bem feitas, com critérios claros e distribuição inteligente; e políticas de circulação tratadas como infraestrutura cultural. “Sem isso, Goiânia continuará publicando muito e fazendo o livro desaparecer rápido”, conclui.

Cânone Editorial fala sobre ausência de políticas públicas

Goiás enfrenta desafios semelhantes aos do mercado editorial nacional, mas com agravantes locais. Segundo ela, a crise passa por fatores como a ascensão do livro digital, os impactos da pandemia — que consolidou o consumo em grandes redes — e, principalmente, o baixo consumo per capita de livros no Brasil.

A Cânone Editorial, fundada em 1998, tem um catálogo com 156 títulos no total, mas destes, apenas 18 são infantis. Isso também ocorre pelo fato de vários autores publicarem seus livros de forma independente, com recursos próprios ou com apoio de leis de incentivo.

A gerente editorial Ione Valadares, da Cânone Editorial, afirma que o problema mais grave no estado é a falta de políticas públicas voltadas à formação de bibliotecas e de leitores. “Há vários estados que compram regularmente livros para as escolas e realizam bienais do livro. Por aqui, nada disso acontece”, destaca. De acordo com ela, nem o governo estadual nem a Prefeitura de Goiânia mantêm políticas permanentes de aquisição de livros, ao contrário de capitais como São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, que adotam editais regulares para compra de acervos destinados à rede pública.

Gerente editorial Ione Valadares, da Cânone Editorial | Foto: Arquivo

A ausência dessas iniciativas, aliada às mudanças de paradigma no mercado editorial global, deixa as editoras locais sem perspectiva de ampliação de vendas ou planejamento de longo prazo. Sem apoio institucional, o setor do livro em Goiás segue fragilizado, com impactos diretos tanto para a economia criativa quanto para a formação de leitores.

A capital que menos lê no Brasil

A mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, trouxe dados preocupantes sobre os hábitos de leitura no país. Realizado pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com a Fundação Itaú e o IPEC, o levantamento ouviu milhares de brasileiros com 5 anos ou mais e é considerado o principal termômetro nacional sobre acesso, frequência e interesse pela leitura.

Entre os resultados que mais chamaram atenção está a situação de Goiânia, que apareceu na última posição do ranking entre as 27 capitais brasileiras. De acordo com a pesquisa, apenas cerca de 40% da população da capital goiana declarou ter lido ao menos um livro — impresso ou digital — nos três meses anteriores à entrevista, o menor percentual registrado no país nesse recorte.

O desempenho reforça um cenário de alerta para gestores públicos, educadores e agentes culturais, especialmente diante da queda contínua no número de leitores observada em nível nacional. Especialistas ouvidos pelo estudo apontam fatores como desigualdade de acesso a livros, fragilidade de políticas públicas permanentes e concorrência com outras formas de entretenimento digital como desafios centrais para a formação de leitores, indicando a urgência de ações estruturadas para reverter esse quadro.

Entre leis, livrarias e o futuro possível

O fechamento de livrarias, a concentração do comércio em shoppings e a concorrência desigual com plataformas digitais agravaram a elitização do acesso ao livro em Goiânia. Todos os entrevistados concordam que o problema não é a ausência de leitores, mas a falta de acesso, mediação e políticas de circulação consistentes.

As leis de incentivo são vistas como necessárias, mas mal distribuídas. Valores concentrados, burocracia excessiva e recorrência dos mesmos nomes fragilizam o ecossistema. A defesa comum é clara: mais projetos, menos valores, mais circulação.

Entre a impressão e a circulação, o mercado editorial goiano segue em disputa. Produz-se muito. Edita-se melhor do que antes. Falta transformar o livro em presença constante na vida da cidade — não como exceção, mas como hábito.

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