Tiago Vechi

Existem poucas oportunidades de visitar o passado, mais raras ainda são as chances de entrar nas mentes dos grandes nomes da nossa história. Mas, é possível, ao menos vislumbrar, parte da magnitude que foi a existência de alguns deles.

Para isso são necessários recursos, testemunhos ou documentos, ferramentas de acesso ao período de suas vidas. É com uma raridade dessa a qual nos deparamos nesta matéria, o Jornal Opção teve acesso a correspondências, até então inéditas, de Paulo Freire a partir de uma pesquisa feita por um estudioso finlandês chamado Juha Suoranta, no Concílio Mundial das Igrejas, em Genebra (Suíça).

Para tratar tais documentos com a magnitude que lhes é devida, a reportagem ouviu, além de Juha, Anne Emmanuelle  Tankan, responsável pelo arquivo onde as cartas foram encontradas, Ailton Santos, doutor pela USP que foi aluno de Freire na PUC São Paulo quando o pedagogo retornou do exílio promovido pela ditadura militar.

O contexto e local das correspondências

O pesquisador finlandês, Juha Suoranta, encontrou as correspondências inéditas de Paulo Freire no arquivo do Concílio Mundial das Igrejas (CMI), local onde o pedagogo se hospedou na década de 70, após ser exilado pela Ditadura Militar. A primeira é uma carta escrita por ele para Jonathan Kozol, escritor estadunidense, e a outra foi enviada a ele por uma mulher finlandesa, chamada Liisa, ela pede conselhos para lidar com crianças que tinham problemas sociais.

Cada carta possui o seu contexto, Jonathan Kozol conheceu Freire pessoalmente quando o brasileiro morou nos Estados Unidos, já Liisa teve um impacto indireto a partir da leitura dos seus textos. Segundo Juha, essas cartas de Freire revelam que ele não era visto como um teórico distante, mas sim como um interlocutor vivo e próximo.

“Exílio, descolonização, alinhamentos da Guerra Fria, ditaduras militares e esperanças revolucionárias marcaram a década de 1970. As cartas situam Freire dentro desses processos: ele aparece como um companheiro de confiança em projetos anticoloniais na África, em iniciativas de educação popular na América Latina, em debates sobre pedagogia crítica na Europa e na organização comunitária na América do Norte.”

Em consonância com as cartas, há o relatório que o próprio Paulo Freire escreveu sobre suas atividades no CMI. Ele atuou como consultor especial no escritório de educação e promoveu a alfabetização em diversos países africanos lusófonos, tais como Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. Além disso, participou de eventos em países europeus e recebeu um convite para trabalhar com a Universidade Nacional de Herédia, na Costa Rica.

Correspondências inéditas

Na carta de Liisa, ela pede conselhos a Freire e explica sua intenção de ajudar crianças oprimidas, mas não sabe como começar e pede orientações. Confira o manuscrito original escrito em inglês:

Já na carta de Paulo Freire enviada a Kozol, ele recusa um convite para palestrar em Chicago por já ter outros compromissos os quais não poderiam ser adiados. Veja a carta original:

Já na carta de Paulo Freire enviada a Kozol, ele recusa um convite para palestrar em Chicago por já ter outros compromissos os quais não poderiam ser adiados. Veja a carta original:

Ambas correspondências e as demais descobertas da pesquisa estarão no 4º livro de Juha que ainda está para ser publicado. O nome da obra em português será “O mundo como sala de aula: Paulo Freire, alfabetização e consciência crítica”.

A arquivista do CMI, Anne Emmanuelle, contou que os documentos relacionados a Paulo Freire correspondem a mais de dez caixas do arquivo e que elas integram o acervo da subunidade de educação que contém o total de 87 caixas. Além disso, ela afirmou receber cerca de dois pedidos por ano para analisar os documentos sendo apenas metade deles feitos por brasileiros, enquanto a outra parte é realizada por pessoas de diferentes nacionalidades.

Interior do Concílio Mundial das Igrejas

Freire em sala de aula, a práxis do pensador

Após retornar do exílio, Paulo Freire ministrou aulas na PUC São Paulo e foi neste período que foi professor de Ailton Santos. O sociólogo ainda diz que teve outros encontros presenciais com Freire no âmbito da militância e em eventos de pesquisadores. Quando perguntado como era Paulo pessoalmente e a convivência com ele, Ailton respondeu:

“Eu defino aquelas pessoas que são pensadores, pesquisadores maravilhosos, que é o caso do Paulo Freire, mas agregado a isso ele tinha um senso de humanismo, de inclusão assim que é… Incomensurável, entendeu? Então, ele compreendia perfeitamente o ser humano, que ele ia fazer a diferença desde que tivesse oportunidade , aí ele cerceava dentro da educação, por isso que ele fala que a educação é libertadora e emancipadora. Ele foi aquela pessoa que me ensinou, não ser só um pesquisador, mas também ser um humanista”.

Paulo Freire no Concílio Mundial das Igrejas

Ailton conta que a teoria responsável por desbancar a educação bancária é vivida e sentida pelos alunos, Freire não se portava como um transmissor do conhecimento, suas aulas eram um processo de aprendizado mútuo entre professor e aluno. O conhecimento era construído por várias mãos e sempre de maneira constante, aliada a essa afirmação, Ailton compartilha uma conversa que teve em particular com o pedagogo:

“Ele tinha deixado um texto para a gente ler e aí, eu li o texto e encontrei com ele no intervalo no corredores da PUC, quando eu cheguei e fui falar para ele: Professor, eu entendi maravilhosamente o texto; ele falou: não, não (eu até me assustei um pouco). Ele falou: conhecimento nunca para, conhecimento é um processo e a partir daquele momento, eu entendi o que ele queria dizer, o conhecimento de um é o complemento do outro.”

A recepção de Freire das cartas

Em um exercício de pensamento para tentar reconstituir a recepção de Freire da carta da mulher finlandesa, eu explico o contexto da correspondência a Ailton e pergunto como ele imagina que Freire se sentiu ao receber um pedido de ajuda de uma mulher que vivia tão distante, principalmente tendo sido exilado de sua terra natal, o sociólogo respondeu:

“Isso é importante a gente falar, o Paulo Freire é um dos pesquisadores brasileiros mais comentados e discutidos no mundo da área de educação, então, ele com sua teoria da educação, com sua prática, ele superou várias fronteiras, não por menos é professor honoris causa em várias universidades, o que ele colocava, mais do que a raça, do que a geografia, a base central era o ser-humano e esse ser-humano para independia se estava no Brasil, se estava na Finlândia, na Europa… Não importava para ele. Paulo via o ser-humano podendo, a partir da educação, evoluir e se integrar cada vez mais, entendeu? Eu acho que essa busca para com ele foi um entendimento, lá do outro lado, o que ele colocava como premissa – o ser-humano é base de tudo”.

A atuação de Freire no Concílio Mundial das Igrejas (CMI)

O CMI é uma comunidade internacional de 356 igrejas com o objetivo de unificar o pensamento cristão e também advoga por causas sociais. Isso suscita alguns pensamentos sobre a arelação do pensamento freiriano e o cristianismo, pois muitas vezes são (erroneamente) vistos como antagônicos, principalmente quando tentam desqualificar Paulo Freire.

Sobre a dinâmica estabelecida entre a educação defendida pelo pensador brasileiro e o cristianismo, tendo em mente sua estadia no CMI, Juha disse:

“Durante seu tempo no CMI, o cristianismo na obra de Freire era visto como uma prática de acompanhamento, e não como autoridade institucional, traduzindo temas como esperança, amor e fé em compromissos pedagógicos e políticos.”

Ivan Illich e Paulo Freire no Concílio Mundial das Igrejas

O pesquisador também explica que, durante este período, Paulo Freire, junto de outros brasileiros, fundou o Institute for Cultural Action (IDAC) que pretendia promover justiça social para trabalhadores europeus e lutar pelo desenvolvimento do sul global. Juha detalha a atuação do instituto:

“A IDAC funcionava como um grupo pequeno e flexível que combinava pesquisa, educação política, serviços de consultoria e cooperação prática com movimentos populares, sindicatos, igrejas e agências de desenvolvimento em toda a Europa e África. Na década de 1970, publicou dezessete livros e panfletos em inglês e francês. Suas publicações, cujos títulos incluíam Women’s Liberation (Libertação das Mulheres), Militant Observer (Observador Militante) e Political Education (Educação Política), abordavam temas como conscientização, alfabetização e educação popular.”

Para compreender melhor a relação desta instituição com Freire, o Jornal Opção o relatório completo feito pelo pedagogo sobre a sua atuação enquanto foi Consultor Especial do Escritório de Educação no Concílio Mundial das Igrejas. Neste documento,  Freire esclarece que sua função não é executar projetos diretamente, mas contribuir para que grupos e instituições definam estratégias próprias de ação. Ele relata que, ao longo de quatro anos, participou de consultorias e seminários promovidos pelo CMI em países da África — especialmente Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Angola — além de experiências na América Latina e na Europa.

Primeira página das três páginas do documento

Grande parte do documento detalha o apoio oferecido aos recém-independentes países africanos de língua portuguesa. Freire destaca que o trabalho foi realizado a convite dos próprios governos e sempre respeitando a autonomia nacional, sem imposição de modelos externos. Ele enfatiza que a cooperação não envolveu assistência material direta, mas apoio técnico e pedagógico, centrado em debates sobre políticas educacionais, formação de educadores, alfabetização de adultos e processos de pós-alfabetização.

O educador menciona a colaboração com a Comissão de Participação no Desenvolvimento (CCPD) e com o Instituto de Ação Cultural (IDAC), além do financiamento de projetos por agências internacionais. Entre as iniciativas apoiadas está a produção de materiais didáticos para alfabetização, como o caderno “First Note-book for People’s Culture”, destinado à formação política e cultural de adultos recém-alfabetizados.

Freire também relata diálogos constantes com universidades, grupos cristãos e organizações não governamentais na Europa e na América Latina, reforçando o caráter internacional de sua atuação. Ele sublinha que o Escritório de Educação atuava como intermediário entre governos e agências financiadoras, mantendo uma postura de solidariedade política às lutas de libertação africanas.

Ao final, Freire afirma que o Escritório de Educação vincula seus esforços à “tarefa histórica que esses povos assumem”, definida por ele como a recriação de suas próprias sociedades.

Prestígio internacional X Depreciação no Brasil

Ao se deparar com tão grandiosos feitos tanto em âmbito nacional como ao redor do mundo, é impossível não questionar a origem do ódio à Paulo Freire presentes em determinadas classes de brasileiros. Apesar das campanhas de alfabetização responsáveis por letrar centenas de adultos em poucas horas no Brasil e do reconhecimento desde governos africanos até universidades europeias, Freire, ainda em vida, foi exilado e, até os dias de hoje, tentam ostraciza-lo pondo sobre suas costas os defeitos da educação brasileira, mesmo que seus métodos nunca tenham sido implementados de forma ampla nas escolas públicas.

Diante desta dúvida, Ailton Santos revela sua opinião sobre este tema e o sociólogo e responde:

“O que eu no fundo acredito e, isso é fato, é que as elites brasileiras, na sua grande maioria, brancas, têm muito receio da obra do Paulo Freire porque a obra dele, justamente, destaca que a educação liberta e a partir dela você pode alterar e fazer com que as pessoas se incluam mais. Então, esse tipo de educação para a população é permitir que ela pense e decida o que seria igual para todos.

Logicamente, vivendo no país que vivemos hoje, ou como foi na época da ditadura, ele é uma ameaça, porque temos um grupo da extrema direita que, para ela, a exclusão, a intolerância e o ódio fazem parte e, consequentemente a aplicação da escola Paulo Freire comprometeria, automaticamente, os interesses dessa extrema direita. Ele não é bem-vindo nos grupos que querem manter o poder.”