O Instagram deixou de ser apenas uma rede social de entretenimento para se tornar uma das principais arenas da disputa política no Brasil. O estudo “Top 100 Políticos Brasileiros Mais Influentes no Instagram em 2025”, desenvolvido pela Zeeng em parceria com a MonitoraBR, mostra como a plataforma se consolidou como espaço estratégico de mobilização e formação de opinião — especialmente às vésperas de um ano eleitoral.

Com 2026 no horizonte, quando o país volta às urnas, os números ganham ainda mais relevância. O levantamento analisou 2,6 mil políticos brasileiros, mapeou 442 mil publicações e contabilizou 1,8 bilhão de interações entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2025.

A principal métrica adotada foi a média de interações por publicação, indicador que mede engajamento real e capacidade efetiva de mobilização — elemento central em um cenário pré-eleitoral.

Direita lidera e PL concentra maior influência digital

O estudo revela que 56% dos 100 políticos mais influentes estão no espectro da direita, enquanto o Partido Liberal (PL) reúne 42% dos nomes do ranking.

Entre os dez mais influentes do país aparecem nomes como:

  • Nikolas Ferreira
  • Jair Bolsonaro
  • Rodrigo Manga
  • Erika Hilton
  • Lula

A liderança geral ficou com Nikolas Ferreira, com média superior a 1,5 milhão de interações por publicação. O levantamento também aponta que:

  • 75% dos influentes são homens;
  • Deputados federais lideram entre os cargos mais presentes;
  • 11% dos nomes não ocupam mandato atualmente.

O dado reforça que influência digital vai além do cargo formal — ela depende da capacidade de mobilizar comunidades online.

Goiás se destaca no cenário nacional

Entre os goianos, o principal destaque é Gustavo Gayer (PL), que aparece na 13ª posição nacional, com média de 59.261 interações por publicação. Ele é o nome mais bem posicionado de Goiás no ranking.

Em entrevista ao Jornal Opção, Gayer afirmou que o desempenho digital reflete uma transformação no acesso à informação. “Estar entre os políticos com bom engajamento nas redes sociais mostra que as pessoas têm buscado mais informação de forma independente e isso é maravilhoso. A internet é a ferramenta que mais trouxe democratização da informação. E essa é uma das minhas lutas, que tenhamos sempre esse espaço de liberdade de expressão sem intervenção de governos. Eles chamam de regulamentação, mas é censura.”

O deputado também destacou que o engajamento digital acompanha sua atuação parlamentar. “Meu gabinete tem mais de 1.938 propostas legislativas apresentadas, projetos aprovados na área da segurança pública, educação, entre outros. Fico feliz com os resultados desse levantamento. É fruto de muito trabalho dentro e fora do Parlamento.”

Gayer reforçou ainda que lidera, entre os deputados federais de Goiás, em número de propostas apresentadas na atual legislatura (2023-2027) e citou ações recentes.

Algumas dessas ações já barraram leilões milionários do valor de R$ 197 milhões, valores também do Janjapalooza e, mais recentemente, o TCU aceitou um pedido de investigação que fiz sobre campanhas publicitárias do Banco do Brasil no valor de R$ 750 milhões

Para o parlamentar, a influência digital também está ligada a um movimento ideológico mais amplo.

“Isso também se reflete na formação de mais pessoas comprometidas com valores e princípios da fé cristã e da família. Jair Bolsonaro iniciou algo e, hoje, estamos avançando. Leva tempo, é árduo, mas não perdemos as esperanças.”

Caiado também figura entre os influentes

Outro nome goiano presente no ranking é o governador Ronaldo Caiado, recém-chegado ao PSD, que aparece entre os governadores com maior engajamento médio no Instagram, com média de 15.797 interações por post.

Caiado figura em 64º lugar nacional.

O ex-coaching Pablo Marçal (PRTB) também aparece no ranking, na 29ª posição nacional, com média de 28.685 interações por publicação. Apesar de ser goiano, Marçal está vinculado a São Paulo no levantamento, pois sua candidatura e atuação política mais recente ocorreram no estado mencionado.

A presença de Caiado e Gayer reforça que Goiás está inserido na dinâmica digital que hoje molda parte significativa do debate político nacional.

Influência digital pode pesar nas urnas

Com 2026 sendo ano eleitoral, o estudo ganha peso estratégico. O Instagram se consolida como.

  • Canal direto entre político e eleitor;
  • Ferramenta de mobilização orgânica;
  • Espaço de construção de narrativa;
  • Ambiente de formação de opinião.

A média de interações por publicação, utilizada como métrica central do levantamento, sugere que a capacidade de gerar debate e engajamento pode ser decisiva na consolidação de lideranças.

Se em eleições anteriores a televisão e o tempo de propaganda eram determinantes, o cenário atual indica que o feed pode ter papel igualmente estratégico.

Especialistas analisam o impacto das redes no cenário eleitoral

A influência política no Brasil atravessa uma transformação estrutural. Se antes o centro da disputa eleitoral estava concentrado na televisão e no horário gratuito de propaganda, hoje a arena decisiva passa, cada vez mais, pelas redes sociais. Mas o que significa, de fato, ser influente no ambiente digital? E até que ponto essa influência se converte em poder político real?

Especialistas em monitoramento digital, ciência política e estratégia eleitoral analisam como a comunicação nas plataformas redefine campanhas, molda narrativas e pode impactar — ou distorcer — o debate democrático às vésperas de um novo ciclo eleitoral.

A métrica da influência: popularidade ou mobilização?

Para Eduardo Prange, CEO da Zeeng – Social Media Benchmark, a mensuração da influência política precisa ir além do número de seguidores. Segundo ele, o critério central utilizado nos estudos recentes é a média de interações por publicação — especificamente curtidas e comentários, as únicas métricas publicamente auditáveis.

O ranqueamento não é escolha subjetiva. Ele parte de um critério quantitativo que acaba revelando um olhar qualitativo. A influência é medida pela média de interações por post. Isso traz consistência ao longo do tempo e evita distorções causadas por picos momentâneos, explica.

Prange ressalta que a taxa de engajamento poderia indicar eficiência comunicacional, mas não necessariamente refletiria influência nacional. Um político regional pode ter alta taxa proporcional, mas não gerar impacto em escala mais ampla.

A escolha metodológica, segundo ele, busca capturar algo mais próximo de popularidade pública do que apenas eficiência técnica: “A influência está ligada à capacidade de gerar conversa, estar em evidência e mobilizar atenção.”

Eduardo Prange, CEO da Zeeng | Foto: Divulgação

Comunicação estratégica e profissionalização digital

Segundo Prange, os nomes que figuram entre os mais engajados não são “aventureiros digitais”. Há estratégia, planejamento e compreensão das dinâmicas da plataforma.

“O que a gente vê é um entendimento cada vez mais aprofundado sobre os novos canais de comunicação. Esses políticos compreenderam que as redes não são apenas espaços de propaganda, mas de construção de comunidade.”

Ele aponta também uma correlação crescente entre desempenho digital e resultado eleitoral. Embora não seja regra absoluta, existe um padrão: quem consegue gerar engajamento consistente tende a ampliar sua visibilidade pública — e isso pode impactar a disputa nas urnas.

Contudo, ele alerta que essa relação não é automática. O ambiente digital é volátil e novos protagonistas podem surgir rapidamente, especialmente em ano eleitoral.

Goiás e o tamanho da bolha regional

O professor Guilherme Carvalho, cientista político e consultor eleitoral, traz uma leitura regionalizada da influência digital. Para ele, a presença reduzida de líderes goianos nos rankings nacionais revela um dado estrutural: Goiás representa cerca de 3% do eleitorado brasileiro e aparece com 2% de representação em rankings de influência.

Isso mostra uma limitação da projeção nacional das lideranças goianas. Existe capilaridade regional, mas dificuldade de romper a bolha.

“A gente já sabia dessa capilaridade e capacidade do Gayer em mobilizar. Ronaldo Caiado pelas redes sociais e influência digital que ele projeta, com autoridade e firmeza, algo que ele sempre tentou projetar como marca nacional. Mas ele está em uma bolha que não consegue furar.”

Ele destaca uma diferença importante entre perfis do Legislativo e do Executivo. Políticos do Legislativo tendem a ter menor desgaste e mais liberdade discursiva. Já governantes enfrentam cobrança direta por resultados.

“Quem está no Executivo é vidraça. Quem está no Legislativo é pedra. O desgaste é diferente. Isso impacta diretamente na performance digital.”

“A vida dos vereadores na próxima gestão não será tão fácil quanto foi nessa relação com Rogério Cruz”, diz Guilherme Carvalho | Foto: Guilherme Alves / Jornal Oção

Carvalho observa que há casos em que a influência online não se traduz em expansão nacional. O político pode projetar autoridade e firmeza, mas permanecer restrito a uma bolha regional.

“A rede pode mostrar qual é o tamanho da bolha. E isso traz um limite muito claro para projetos nacionais.”

O meio molda a mensagem

Para o estrategista político Marcos Marinho, a transformação da comunicação política é inseparável da lógica das plataformas.

O meio não é neutro. Cada plataforma tem suas regras, seus algoritmos, seus formatos privilegiados. A comunicação política se molda às características do canal.

Ele lembra a máxima de Marshall McLuhan: o meio é a mensagem. As redes sociais privilegiam conteúdos que geram retenção e interação — e isso influencia o tom do discurso.

“As plataformas não operam com critério ideológico. Para o algoritimo não importa se o político é de esquerda ou direita. Elas operam com matemática. O objetivo é reter atenção e monetizar audiência.”

Segundo Marinho, emoções intensas como medo, raiva e indignação geram maior retenção. Isso cria um ambiente propício para discursos polarizados.

“O algoritmo percebe que determinados temas retêm mais. Então ele distribui mais esses conteúdos. Isso favorece a criação de bolhas.”

Estrategista político Marcos Marinho | Foto: Arquivo

Bolhas digitais e risco democrático

Marinho alerta para o efeito colateral desse processo: a redução do contraditório.

A democracia pressupõe convivência com o diferente. Quando você vive numa bolha que só reforça suas certezas, você deixa de conviver com a dissonância.

Ele aponta que a cristalização de opiniões pode levar à radicalização. O problema não é a emoção na comunicação — que sempre existiu — mas a ausência de contraponto.

“Quando você apaga o outro, você enfraquece a democracia. A comunicação digital, se mal utilizada, pode reforçar autoritarismos.”

Marinho lembra que processos históricos de radicalização não dependiam da internet. O que muda agora é a escala e a velocidade.

“Hoje você pode criar múltiplas bolhas simultaneamente e guiar grupos para narrativas extremadas com muito mais rapidez.”

Performance digital não é sinônimo de poder político

Embora reconheça a relevância das redes, Marinho faz uma ressalva importante: popularidade online não garante capacidade política concreta.

Ter milhões de seguidores não significa necessariamente transformar isso em voto, mobilização prática ou política pública.

Ele observa que há políticos com grande repercussão digital que não conseguem converter essa visibilidade em ação offline. E há líderes com menor presença online, mas alta capacidade de mobilização presencial.

“O mundo digital é uma caixa de ressonância. Ele tem alcance, mas tem limitação prática.”

2026: um laboratório de influência

Com a aproximação do calendário eleitoral, os especialistas concordam que o ambiente digital será ainda mais dinâmico. Novos protagonistas podem surgir rapidamente, e a oscilação de posições tende a se intensificar.

A influência nas redes será fator estratégico, mas não exclusivo. O desafio será romper bolhas, ampliar diálogo e transformar engajamento em construção política consistente.

A grande questão que se impõe é: as redes sociais serão instrumento de fortalecimento democrático ou de aprofundamento da polarização?

Para os especialistas, a resposta dependerá menos da tecnologia e mais da forma como atores políticos, plataformas e eleitores escolhem utilizá-la.

A influência digital pode ser ferramenta de aproximação e transparência. Mas também pode se tornar mecanismo de radicalização e exclusão do contraditório.

Em um cenário eleitoral cada vez mais conectado, a disputa não acontece apenas nas ruas ou nos palanques — ela acontece nos algoritmos. E compreender essa lógica é, hoje, parte essencial da análise política.

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