Mesmo diante de um cenário econômico que inspira cautela em outros segmentos, o mercado náutico goiano vive um momento de forte aquecimento. A avaliação é compartilhada por gestores de duas das principais empresas do setor no Estado, a Villa Náutica e a Via Boats Goiânia, que apontam crescimento nas vendas, diversificação do público e avanço de produtos ligados ao lazer de alto padrão.

À frente da Villa Náutica de Goiânia, Eliane Arantes afirma que o segmento tem apresentado resultados positivos ano após ano. “Apesar dos pessimistas, o mercado náutico está muito bom, graças a Deus. E está crescendo. A cada ano cresce mais”, relatou. A empresa atua principalmente na revenda de jet skis, com foco exclusivo nesse tipo de embarcação.

Eliane Arantes em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Fabio Chagas/Jornal Opção

Segundo a gestora, a média mensal de vendas gira em torno de 40 unidades, número considerado elevado para o padrão regional. “Nós somos revendedores autorizados da marca Sea-Doo, da Bombardier. Trabalhamos só com jet ski”, explicou ao Jornal Opção. A empresa integra o grupo Villa, que possui operações também em Brasília (DF), Campinas (SP) e Cuiabá (MT), mas em Goiás responde sozinha pela distribuição da marca.

Dentro do portfólio, o modelo mais procurado atualmente é o GTI 170, considerado o carro-chefe da linha por aliar desempenho e custo-benefício. “Ele atende tanto quem busca performance quanto a família”, disse Eliane. O modelo custa em torno de R$ 115,9 mil e integra uma gama que vai de jets menores, a partir de cerca de R$ 70 mil, até versões de alta performance que ultrapassam R$ 190 mil.

Embora o perfil do cliente ainda seja majoritariamente de maior poder aquisitivo, a empresária observa uma ampliação gradual da base de consumidores. “A faixa etária é bem variada. Mas, em geral, é um público com condição socioeconômica mais elevada”, afirmou.

A sazonalidade também pesa no faturamento. Os meses que antecedem as férias escolares e a temporada do Rio Araguaia concentram grande parte das vendas. “De maio a julho, as vendas chegam a crescer cerca de 70%”, relatou.

Loja da Via Boats Goiânia | Foto: Fabio Chagas/Jornal Opção

Na Via Boats Goiânia, o movimento é semelhante, mas com foco em embarcações de maior porte. De acordo com o gerente Laurence Abrão, Goiás reúne condições naturais que favorecem o crescimento do setor. “Em um raio de 200 quilômetros, temos mais de dez pontos de navegação. O mercado de pesca é muito forte, assim como o de lagos”, afirmou.

Nos últimos anos, um segmento específico tem se destacado: o dos flutuantes, conhecidos como pontoons. “Virou uma nova onda. A procura por flutuantes cresceu muito, e hoje é um dos nossos principais produtos”, explicou. Barcos acima de 30 pés, voltados ao lazer e ao luxo, lideram as vendas, enquanto as embarcações menores tiveram desempenho mais tímido.

Laurence Abraão é responsável pela Ventura Via Boats em Goiânia | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Os valores variam bastante. A loja comercializa barcos a partir de R$ 155 mil, mas também trabalha com modelos que chegam a R$ 5 milhões ou R$ 6 milhões. Ainda assim, a maior parte das vendas se concentra na faixa entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão. “É o ticket médio do nosso cliente”, resumiu Abrão.

A Ventura V550 chega a custar R$ 6 milhões | Foto: Reprodução

Outro indicativo da força do mercado goiano é a presença de compradores de outros estados. Segundo a Via Boats, clientes de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Maranhão, Pará e até da Região Norte já adquiriram embarcações na unidade de Goiânia.

Os barcos vendidos na empresa podem atingir os R$ 7 milhões | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Araguaia concentra embarcações de pesca de luxo

O crescimento do mercado náutico também é visível na temporada do Araguaia. Dono de pousada e de embarcação de pesca de alto padrão na região, Carocinho, como prefere ser chamado, afirma que o número de barcos de luxo voltados à pesca aumentou de forma significativa nos últimos anos.

“Hoje tem muita movimentação de barco de pesca de luxo no Araguaia. Os próprios guias já têm embarcações de alto nível, muitas delas próprias”, relatou. Segundo ele, há dois grandes perfis de embarcações de luxo em Goiás: as de fibra de vidro, voltadas ao passeio em lagos e represas, e as lanchas de pesca em alumínio, que possuem alto valor agregado e foco em desempenho.

“A pesca no Araguaia é uma comoção do goiano. Quase todo mundo quer ter um barquinho para pescar”, disse. Além do rio Araguaia, ele destaca que o Brasil oferece ampla diversidade de destinos para quem investe nesse tipo de embarcação, tanto em rios do interior quanto na costa marítima. “O Atlântico brasileiro é um dos melhores lugares do mundo para pesca oceânica”, afirmou.

O barco de pesca de luxo de Carocinho custa cerca de R$ 500 mil | Foto: Arquivo Pessoal

Os custos de manutenção, no entanto, são elevados. Segundo Carocinho, os principais gastos envolvem guarda da embarcação em marinas ou guarda-barcos e a manutenção de motores. “É o principal custo. Dá muita manutenção”, afirmou. Ainda assim, ele avalia que Goiás vem avançando em infraestrutura e serviços para atender esse público, inclusive com fabricantes locais de barcos de pesca que já fornecem embarcações para órgãos públicos.

Quanto ao uso das embarcações, o perfil do público é variado. “Tem gente que vai para descansar com a família, tem quem vá para festa, passeio e tem quem vá só para pescar. É bem dividido”, resumiu. Em termos de sazonalidade, abril e maio concentram o turismo de pesca esportiva, enquanto julho é o mês mais movimentado para turismo de praia, acampamento e festas.

Frota em expansão pressiona registros e fiscalização

Dados oficiais da Marinha do Brasil confirmam a expansão acelerada da frota náutica em Goiás e ajudam a explicar a pressão sobre os processos de registro e regularização relatados pelo setor. Segundo o Comando do 7º Distrito Naval, o Estado é atendido por duas capitanias fluviais.

A Capitania Fluvial de Goiás (CFGO), responsável por 200 municípios goianos, contabiliza atualmente 13.040 embarcações registradas em sua área de atuação, além de 4.248 motos aquáticas devidamente inscritas. Já a Capitania Fluvial de Brasília, que responde por outros 46 municípios de Goiás e pelo Distrito Federal, possui 52.571 embarcações registradas.

Motos aquáticas vendidas na Villa Náutica | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Somente em 2025, foram 822 novas embarcações inscritas na área da Capitania Fluvial de Brasília, entre barcos e motos aquáticas, indicando crescimento contínuo da frota e aumento da demanda por fiscalização, segurança da navegação e serviços administrativos.

A Marinha informou que a regularização exige uma série de documentos, incluindo nota fiscal, comprovante de propriedade do motor, formulários específicos previstos na NORMAM-202, pagamento de taxas federais e contratação do seguro obrigatório DPEM. A instituição também frisou que o controle é essencial para a segurança da navegação interior e a proteção da vida humana nos rios.

Impostos, crédito e burocracia preocupam

Entre os principais desafios apontados pelos empresários está a alta carga tributária. “Hoje, os impostos representam cerca de 45% do valor do produto”, afirma Eliane. Já na Via Boats, o entrave maior é o acesso ao crédito. “O financiamento náutico não funciona como o de carros. É mais limitado. Por isso, o parcelamento no cartão acaba sendo uma alternativa”, diz Abrão.

A burocracia para regularização das embarcações também aparece como ponto crítico. Após a compra, o registro junto à Marinha pode levar meses e, em alguns casos, até mais de um ano. Ainda assim, o setor mantém expectativa de continuidade do crescimento.

“O ano passado já foi muito bom, e este ano a perspectiva é ainda melhor”, afirmou Laurence Abrão. Para Eliane Arantes, o avanço do lazer náutico reflete mudanças no comportamento do consumidor. “As pessoas estão investindo mais em qualidade de vida. E isso reflete diretamente no nosso mercado.”

Informações necessárias para licenciamento

Segundo a Marinha, os documentos necessários para o licenciamento de embarcações são:

  • Requerimento do interessado, conforme modelo constante do Anexo 2-E da NORMAM-202;
  • Boletim Simplificado de Atualização de Embarcações (BSADE), Anexo 2-D da NORMAM-202, devidamente preenchido em duas vias;
  • Em caso de representante legal, este deverá portar uma procuração específica, assinada pelo interessado e com firma reconhecida em cartório;
  • Documento oficial de Identidade para pessoa física (do interessado ou do seu procurador, quando aplicável) ou Estatuto ou contrato social, quando se tratar de pessoa jurídica (cópia simples);
  • Cópia do CPF para pessoa física ou CNPJ, quando se tratar de pessoa jurídica;
  • Cópia do comprovante de residência (água, luz, telefone ou gás), com CEP, a vencer ou com data de vencimento ocorrido há, até, 120 dias ou preencher Declaração de Residência expedida pela Capitania;
  • Prova de propriedade da embarcação original (Nota Fiscal);
  • Prova de propriedade do motor (motores com potência acima de 50 HP);
  • Declaração do fabricante/Termo de Responsabilidade e Construção contendo as principais características da embarcação;
  • Duas fotos coloridas da embarcação gravadas em mídia (CD). Um mostrando a popa (traseira) e a outra pelo través (lado), de forma que apareça total e claramente de proa a popa, preenchendo a largura da foto, que deverão ser arquivadas nesta Capitania. Uma das fotos deverá mostrar o número de inscrição da embarcação, caso seja inscrita;
  • Título de aquisição e comprovante de regularização junto a Receita Federal do Brasil (RFB) em se tratando de embarcação importada;
  • Guia de Recolhimento da União (GRU) com o devido comprovante de pagamento (cópia simples);
  • Seguro Dpem (Dpem.mb).

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