A disputa pelas duas vagas ao Senado Federal em Goiás se tornou um dos principais campos de tensão política para as eleições de 2026. Mais do que uma corrida por cadeiras em Brasília, o pleito virou peça-chave na definição dos palanques ao governo, na reorganização partidária e na correlação de forças para 2028 e 2030. Base governista, PL, PSD, PT, Novo e Cidadania se movimentam em cenários distintos, mas interligados.

No grupo liderado pelo governador Ronaldo Caiado (PSD), há uma definição considerada pacificada: o primeiro voto ao Senado será da primeira-dama Gracinha Caiado (UB). A consolidação do nome é reiterada por aliados e dirigentes partidários.

O presidente estadual do Solidariedade, Denes Pereira, afirma que a decisão está tomada e não é objeto de discussão interna. “Nosso primeiro voto é da primeira-dama Gracinha Caiado. Isso está definido. Esse segundo voto ainda estamos avaliando. Nós também já temos definido é o candidato a governador, que é o nosso vice-governador Daniel Vilela”.

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Gracinha Caiado é o principal nome da base governista| Foto: Guilherme Alves/ Jornal Opção

Denes avalia que o nome da primeira-dama está consolidado junto ao eleitorado em razão da atuação social nos dois mandatos de Caiado. “Está muito latente na cabeça do goiano o trabalho que a primeira-dama fez no Estado. Isso é um negócio que eu tenho andado no estado todo e tenho percebido. Está muito forte o nome de Gracinha, exatamente por essa rede de proteção em todas as áreas. Você pode chegar no maior município, no menor município de Goiás, a primeira-dama hoje é referência. Eu acho que ela caminha por eleição muito consolidada, exatamente pelo trabalho que ela fez nesses sete anos e meio à frente da defesa social de todo o estado”, continuou.

O dirigente reconhece que a segunda vaga é mais aberta. “Claro que esse segundo voto, é um voto que acaba pulverizando um pouco. Muitos nomes são competitivos. A outra vaga vai ter que ser decidida no trabalho, na aliança, sendo feita uma aliança bem feita, e nas composições. Essa segunda vaga vai depender de uma série de fatores”, completou.

O prefeito de Rio Verde, Wellington Carrijo (MDB), reforça que o apoio do partido está alinhado à estratégia do grupo governista. “A princípio a nossa senadora é a Gracinha. E a segunda vaga será decidida pelo grupo do governador Ronaldo Caiado e do nosso vice-governador Daniel Vilela. Mas o nosso apoio, o meu apoio do grupo do Paulo do Vale, do Lucas do Vale, que é meu deputado estadual, é integral ao Daniel Vilela.”

Carrijo reafirmou o peso político de Caiado na articulação. “O nosso maior apoio é o legado do governador Ronaldo Caiado, que está deixando o legado. Então o maior avalista do grupo é o Ronaldo Caiado.”

PSD: Vanderlan mantém pré-candidatura e partido vive tensão interna

O senador Vanderlan Cardoso (PSD) mantém sua pré-candidatura à reeleição. A equipe do parlamentar sustenta que o movimento responde a uma demanda regional. “O senador Vanderlan mantém sua pré-candidatura ao Senado. Essa é uma reivindicação de prefeitos e deputados, para que ele continue no Senado Federal. Vanderlan tem sido um dos parlamentares que mais tem trabalhado pelos municípios goianos”, afirmou um interlocutor do senador.

Senador Vanderlan Cardoso | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

A equipe também cita desempenho em pesquisas. “Pesquisas têm demonstrado que ele está muito bem posicionado, estando em segundo lugar (o primeiro lugar é da primeira-dama Gracinha Caiado), e em primeiro lugar no segundo voto. Mantendo assim, é esperado que sejam eleitos a Gracinha Caiado (União) e o senador Vanderlan (PSD)”, continou.

Internamente, porém, há divergências sobre quem detém a decisão final. Uma fonte do PSD afirma que o poder de definição não está necessariamente nas mãos do senador. “A decisão vai caber ao diretório do partido em Goiás, que é presidido pelo governador Ronaldo Caiado. O Vanderlan, quando ele perdeu a presidência, eu acho que ele perdeu essa decisão.”, disse.

PL vive crise interna

No PL, a crise interna se tornou pública. O senador Wilder Morais defende candidatura própria ao governo e protagonismo da legenda. Já o deputado federal Gustavo Gayer defende composição com Daniel Vilela e Caiado, desde que alinhada ao projeto nacional do bolsonarismo.

Durante reunião partidária recente, Wilder evitou comentar a ausência de Gayer no evento. “Nós convidamos todo mundo. Convidamos, falamos por telefone. Acreditamos que as pessoas daqui a pouco estão aí. A casa tá cheia.”

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Gayer é, até o momento, o principal nome do bolsonarismo ao Senado em Goiás | Foto: Câmara dos Deputados

Gayer afirmou ter sofrido “fogo amigo” dentro do partido e disse que vinha mantendo silêncio por orientação de Jair Bolsonaro. “Eu acatei imediatamente a ordem dele porque esse é o nível de lealdade que eu tenho ao Bolsonaro.” E acrescentou: “Eu estou me prejudicando muito agora por acreditar ainda que estou seguindo o desejo dele.” O deputado também reforçou sua lealdade ao ex-presidente. “Eu faço qualquer coisa que o Bolsonaro me pedir.”

O pano de fundo é a definição sobre candidatura própria ou aliança. De um lado, aliados de Gayer defendem que a união com o governo evitaria divisão de votos conservadores. De outro, Wilder sustenta que o PL tem força para liderar projeto próprio.

Ruptura pode empurrar eleição ao segundo turno

Para o cientista político Guilherme Carvalho, professor da Faculdade de Ciências Sociais (UFG), a ausência de aliança entre PL e governo Caiado teria impacto direto no equilíbrio eleitoral. “Quem sai mais prejudicado em uma não-aliança entre PL e governo seria, obviamente, o próprio Daniel Vilela, que passaria a ter que disputar palanques, principalmente no interior, defendendo o legado do Caiado contra um rolo compressor do PL”, explicou.

Guilherme Carvalho, Cientista político | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Ele acrescenta que a segunda vaga ao Senado seria a mais vulnerável. “A segunda vaga estaria muito arriscada a não ficar com o governo, caso o PL lance uma candidatura robusta ao Senado, que já é o caso do Gustavo Gayer, por exemplo, seria quase que inevitável não eleger um opositor ao Senado, fora que empurraria a eleição para governo para o segundo turno”, avalia.

Carvalho também afirma que a ideologia pesa no cenário. “Eu acho que a questão ideológica importa muito. O Daniel não é um bolsonarista, isso é sabido por todo mundo. A nossa geografia eleitoral dá muita força para candidaturas que venham pela direita.” Ele avalia que eventual ruptura tornaria o cenário imprevisível. “Atualmente o cenário é totalmente imprevisível, não dá pra cravar nada.”

PT: Luís Cesar Bueno aposta em projeto nacional para se viabilizar

Pelo PT, o ex-deputado estadual Luís Cesar Bueno colocou o nome à disposição para disputa majoritária. “Eu coloquei o meu nome à disposição do partido para a disputa a cargo majoritário, governador ou senador.” Ele sustenta a decisão por conta de sua experiência acumulada. “Das oito eleições que eu disputei eu ganhei seis.”

Luís Cesar afirma que Goiás não é hegemonicamente conservador, o que vem sendo um dos principais desafios da Frente Progressista. “Na eleição passada, o presidente Lula teve 1,4 milhão de votos. Ou seja, 42% dos votos. Para uma diferença para cinquenta por cento, são menos de oito por cento. Não é uma diferença grande.” Ele acrescenta: “Eu acredito que o Partido dos Trabalhadores tem condições sim de eleger um representante de Goiás no Senado da República”, explicou.

Luis Cesar Bueno – Foto: Leoiran/Opcao

Sua estratégia passa pela defesa do governo federal. “Primeiro, defender o nosso projeto. Um projeto de desenvolvimento econômico, com inclusão social, com distribuição de renda. Segundo, defender as ações do governo federal em Goiás.” Ele cita obras e investimentos. “O plano safra no governo Lula pulou para 550 bilhões. Isso mostra a satisfação que o setor do agro tem com o governo federal, o que pode nos ajudar”, completou.

Cidadania: Iure Castro aposta em renovação

O procurador-geral da Assembleia Legislativa e presidente do Cidadania em Goiás, Iure Castro, também é pré-candidato ao Senado. Ele afirma que só recuará caso dispute o governo. “Só recuo da candidatura ao Senado se for pra sair ao Governo. Meu foco é a eleição à disputa majoritária”, disse.

Iure sustenta que sua trajetória técnica o credencia. “Eu disputo o Senado por uma questão curricular. Advogado, procurador de Poder Legislativo, servidor de carreira, eu sou mestre em Direito Constitucional. Eu sei o que é a Câmara Alta, o que é uma casa do Senado Federal.”

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Iure Castro | Foto: Rafael Messias/ Jornal Opção

Ele associa sua candidatura à renovação política. “Eu quero mostrar para o povo goiano que o filho do pobre pode também disputar uma eleição majoritária. Eu quero mostrar que o filho da empregada doméstica, da família analfabeta, da família de trabalhadores rurais, pode sonhar em disputar uma eleição majoritária de forma independente”, completou.

Novo: candidatura própria e discurso ideológico

O presidente estadual do Novo, Dr. Alano Queiroz, afirma que o partido terá candidatura própria ao Senado. “Temos o Plano A, que é nosso pré-candidato ao Senado Delegado Humberto Teófilo.” Ele destaca que o partido aposta em crescimento orgânico. “Hoje o Partido Novo é visto como um dos grandes partidos da direita do nosso país. De uma direita clara, em posicionamento claro, anti-PT, anti-esquerda”,

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Alano Queiroz | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Segundo ele, o partido trabalha para eleger bancada federal e estadual. “Hoje a gente já tem número para fazer um deputado federal no Estado de Goiás. E três deputados estaduais.”

Prioridade ao Senado para governo federal e oposição

Tanto o PL quanto o PT devem priorizar a disputa pelo Senado Federal como peça-chave de suas estratégias eleitorais para as eleições deste ano no país todo. Não apenas em Goiás, mas em demais estados, as duas siglas admitem abrir mão de candidaturas competitivas ao governo estadual para concentrar forças na formação de bancadas mais robustas na Câmara Alta.

Para os partidos, o Senado concentra competências estratégicas: sabatina e aprovação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), análise de indicações para agências reguladoras, autorização de operações de crédito e julgamento de autoridades em processos de impeachment. Em um ambiente político marcado por tensão entre Executivo, Judiciário e Legislativo, ampliar presença no Senado significa ampliar poder de veto e capacidade de articulação institucional.

Para o PL, a prioridade senatorial está diretamente vinculada ao projeto político do bolsonarismo. O partido busca aumentar sua representatividade para ter maior capacidade de pressionar o STF, inclusive com a possibilidade de abertura de processos de impeachment contra ministros da Corte, além de criar dificuldades para indicações do governo federal a cargos estratégicos.

Do lado do PT, a prioridade também é clara: manter e ampliar sua presença no Senado como forma de sustentar a governabilidade e proteger a agenda do Executivo. Dos seis senadores petistas que encerram mandato em 2026, cinco devem buscar reeleição: Jaques Wagner (Bahia), Humberto Costa (Pernambuco), Rogério Carvalho (Sergipe), Fabiano Contarato (Espírito Santo) e Randolfe Rodrigues (Amapá).

A estratégia é defensiva e ofensiva ao mesmo tempo. Defender cadeiras já ocupadas e, onde possível, ampliar influência. Na Bahia, por exemplo, o partido enfrenta uma disputa interna entre Jaques Wagner e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, para definir quem será o candidato ao Senado. A decisão terá impacto direto na correlação de forças internas da legenda e na composição da base governista no estado.

A reportagem do Jornal Opção também tentou contato com a presidente do PSB, Aava Santiago, do PL, Wilder Morais e com do MDB, Daniel Vilela, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

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