Carga de trabalho dos professores em debate: reduzir dias letivos resolve o problema?
28 março 2026 às 21h00

COMPARTILHAR
A discussão sobre a carga de trabalho dos professores voltou à tona em Goiás depois de uma fala da secretária estadual de Educação, Fátima Gavioli Soares Pereira, em entrevista ao Jornal Opção. Ao comentar a rotina da categoria, ela levantou uma proposta que costuma gerar controvérsia: reduzir o número de dias letivos no país, hoje fixado em 200.
Segundo a secretária, esse aumento em relação ao que existia até os anos 1990 — quando o calendário girava em torno de 180 dias — não trouxe ganhos claros na aprendizagem e pode ter contribuído para o adoecimento de professores. “Na prática, esses 20 dias a mais acabaram aumentando os afastamentos”, afirmou.
A declaração chama atenção porque toca em um ponto sensível. Nos últimos anos, diferentes estudos internacionais vêm mostrando que dar aula no Brasil não é exatamente uma tarefa simples. Relatórios da OCDE e pesquisas como o TALIS indicam que professores brasileiros lidam com mais pressão em sala, enfrentam mais indisciplina e, muitas vezes, precisam dar conta de jornadas fragmentadas em mais de uma escola.
Esse cenário também passa pela remuneração. Em 2026, o piso salarial nacional do magistério foi fixado em R$ 5.130,63 para uma jornada de 40 horas semanais, com reajuste de 5,4% e ganho real acima da inflação. Na prática, porém, o valor pago varia bastante entre estados e municípios, e muitos professores ainda precisam assumir mais de um vínculo para conseguir fechar a renda no fim do mês.
Não é só uma questão de quantidade de dias no calendário. Quem está na sala de aula costuma falar de turmas cheias, tempo escasso para planejamento e uma rotina que vai muito além da aula em si. Parte desse trabalho sequer aparece nas estatísticas mais básicas, mas pesa no dia a dia.
É nesse cenário que a proposta de reduzir os dias letivos reaparece — e divide opiniões. Para alguns, pode ser uma forma de aliviar a sobrecarga. Para outros, o problema está menos no número de dias e mais nas condições em que esse trabalho acontece.
Para entender melhor esse debate, a reportagem ouviu diferentes vozes da educação em Goiás: a secretária estadual de Educação, Fátima Gavioli Soares Pereira; o presidente do Conselho Estadual de Educação de Goiás (CEE-GO) para a gestão 2025-2027, Jaime Ricardo Ferreira; a conselheira de educação e vereadora em exercício de Goiânia, professora Ludymilla Morais; a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego) e deputada estadual, Bia de Lima; e a professora Geovana Reis, presidente do Adufg-Sindicato, que representa os docentes das universidades federais no Estado.
Discussão para além dos dias letivos
A proposta de reduzir os dias letivos no Brasil parte de uma percepção que, ao menos no diagnóstico geral, encontra eco entre quem acompanha de perto a realidade das escolas. Para a secretária Fátima Gavioli, o aumento do calendário escolar não veio acompanhado de melhora no desempenho dos alunos e acabou ampliando a pressão sobre os professores.
Na avaliação dela, o debate precisa ir além da sala de aula. Ao falar sobre uma eventual atuação no Congresso, já que é pré-candidata a deputada federal, a secretária também defende que temas como violência contra a mulher, equidade social e inserção de jovens no mercado de trabalho caminhem junto com a pauta educacional. “A gente precisa trabalhar isso como uma prática diária”, afirmou.

Mas quando o assunto é carga de trabalho docente, a discussão ganha nuances. Para o presidente do Conselho Estadual de Educação de Goiás (CEE-GO), Jaime Ricardo Ferreira, o problema não pode ser reduzido apenas ao número de dias letivos. Segundo ele, há uma tendência de olhar apenas para o tempo em sala de aula, ignorando uma série de outras tarefas que fazem parte da rotina do professor.
O trabalho docente vai muito além da regência. Ele envolve planejamento, correção, registros, reuniões, atendimento às famílias e uma série de demandas administrativas, explica.
De acordo com Jaime, a própria transformação da escola nos últimos anos tornou a profissão mais complexa. A necessidade de lidar com tecnologia, inclusão, defasagens de aprendizagem e mediação de conflitos ampliou o escopo do trabalho — muitas vezes sem que isso fosse acompanhado por melhores condições estruturais.
Quando essas exigências não vêm acompanhadas de suporte adequado, como equipe de apoio, tempo de planejamento e políticas de valorização, o resultado é sobrecarga e adoecimento, afirma.
Ele também chama atenção para um ponto que costuma passar despercebido no debate público: parte significativa do trabalho do professor não aparece nas estatísticas mais visíveis. Mesmo com a previsão legal de horas destinadas a atividades fora da sala de aula — cerca de 30% da jornada na rede pública —, a sensação de insuficiência ainda é comum.
Outro aspecto levantado pelo presidente do conselho é a mudança no papel da escola. Para ele, a instituição passou a absorver demandas que vão além do ensino de conteúdos, o que contribui para a pressão sobre os profissionais.
Muitas vezes há uma expectativa de que o professor dê conta de questões que não são exclusivamente pedagógicas. Isso acaba gerando uma sobrecarga ainda maior, diz.
Apesar de reconhecer a importância do debate sobre a carga horária, Jaime defende que qualquer mudança precisa ser pensada dentro de um conjunto mais amplo de políticas. Para ele, não haverá avanço consistente na educação sem valorização docente.
“O futuro da educação passa necessariamente por melhores condições de trabalho, formação adequada e políticas de carreira. Não é uma questão isolada”, afirma.

Nesse sentido, a discussão sobre reduzir ou não os dias letivos acaba esbarrando em um ponto maior: o desafio de reorganizar o sistema educacional de forma a equilibrar qualidade de ensino e condições reais de trabalho para quem está na ponta.
Avanço das plataformas digitais na rotina escolar
Se há consenso entre os diferentes atores ouvidos pela reportagem, ele não está exatamente na solução, mas no diagnóstico: a rotina do professor está mais pesada — e isso não se resume ao número de dias no calendário.
Para a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego) e deputada estadual, Bia de Lima, a sobrecarga aparece de forma concreta na organização da jornada. Segundo ela, houve um aumento no número de aulas semanais exigidas dos professores da rede estadual, o que impactou diretamente a saúde da categoria.

“Nós tínhamos 28 aulas semanais. Isso passou para 32, depois conseguimos reduzir para 30, mas ainda está acima do que era antes. Isso deixou a categoria muito cansada, adoecida”, afirma.
A disputa pela redução dessa carga, segundo Bia, segue na Justiça. O sindicato defende o retorno ao modelo anterior e argumenta que a atual organização da jornada desrespeita o que está previsto na legislação nacional. Enquanto isso, os efeitos são sentidos no dia a dia.
Para além do tempo em sala, ela chama atenção para um outro fator que vem sendo cada vez mais citado pelos professores: o avanço das plataformas digitais na rotina escolar.
Hoje o professor não tem só que dar aula. Ele passa horas alimentando sistemas, lançando dados, preenchendo relatórios. Isso consome um tempo enorme e tem impactado diretamente a saúde mental, diz.
Essa percepção aparece também na fala da conselheira de educação e vereadora em Goiânia, professora Ludymilla Morais, que acompanha de perto tanto o cotidiano das escolas quanto as discussões institucionais. Para ela, a jornada já é, por si só, exaustiva — e ainda não reflete integralmente o que a lei prevê.
A nossa maior demanda hoje é a redução do número de aulas. Existe, inclusive, uma discussão judicial para garantir o cumprimento da legislação, que prevê um terço da carga para atividades fora da sala, afirma.
Segundo Ludymilla, o problema da carga horária se soma a outros fatores que pressionam a categoria, como perdas salariais acumuladas nos últimos anos e dificuldades operacionais dentro das escolas. Entre elas, a instabilidade de sistemas digitais e a necessidade constante de retrabalho.
Você termina de lançar tudo e, muitas vezes, perde o que fez. Isso gera desgaste, frustração e mais tempo de trabalho, relata.
No ensino superior, embora a organização da jornada seja diferente, a percepção de intensificação do trabalho também aparece. A professora Geovana Reis, presidente do Adufg-Sindicato, explica que os docentes universitários não se limitam às horas em sala de aula — e que a carga real costuma ir além do mínimo previsto.
“Na universidade, a gente não trabalha só com ensino. Tem pesquisa, extensão, orientação. E, na prática, muitos professores acabam assumindo mais horas de aula do que o mínimo exigido”, afirma.
Ela destaca que, mesmo com regras mais claras sobre a carga mínima, há situações em que a distribuição das atividades leva a jornadas mais pesadas, especialmente em contextos de maior demanda acadêmica.
Ao mesmo tempo, Geovana chama atenção para o papel das políticas públicas na organização do sistema educacional. Para ela, iniciativas como o Plano Nacional de Educação (PNE) e programas de permanência estudantil são importantes, mas precisam vir acompanhadas de condições concretas para quem está na sala de aula.
“Não adianta ampliar a permanência do aluno na escola sem garantir uma estrutura adequada e uma organização do trabalho que seja sustentável para o professor”, afirma.

Geovana Reis, presidente do Adufg-Sindicato | Foto: Arquivo
Diante desse conjunto de relatos, o debate sobre reduzir ou não os dias letivos ganha contornos mais complexos. Se, por um lado, a proposta apresentada pela secretária Fátima Gavioli encontra respaldo na percepção de sobrecarga, por outro, especialistas e representantes da categoria indicam que o problema vai além do calendário.
A discussão, ao que tudo indica, passa menos pela quantidade de dias e mais pela forma como o trabalho docente está organizado — e pelas condições oferecidas para que ele aconteça.
Plano Nacional de Educação (PNE)
A discussão sobre a valorização docente e a reorganização do trabalho nas escolas acontece em paralelo a um momento importante para a educação brasileira: a aprovação do novo Plano Nacional de Educação (PNE). O documento, que estabelece metas e diretrizes para os próximos dez anos, deve orientar políticas públicas em todo o país, desde a educação básica até o ensino superior, incluindo temas como financiamento, formação de professores e ampliação do acesso.
Entre os entrevistados, a deputada estadual Bia de Lima destacou que o novo plano representa um avanço possível dentro do cenário político atual, especialmente por ampliar a previsão de investimentos em educação. Segundo ela, a meta de elevação dos recursos para até 10% do Produto Interno Bruto (PIB) ao longo da próxima década pode abrir espaço para melhorias estruturais, como planos de carreira mais atrativos e melhores condições de trabalho para os profissionais da área.
Já a professora Geovana Reis, presidente do Adufg-Sindicato, avalia que a existência do plano é fundamental para garantir algum nível de organização e continuidade nas políticas educacionais. Para ela, o PNE funciona como um guia que precisa ser desdobrado nos estados e municípios, evitando descontinuidade de ações e permitindo um planejamento mais consistente ao longo do tempo.
Embora não trate diretamente da redução de dias letivos, o novo PNE reforça um ponto que atravessa toda a discussão apresentada na reportagem: a necessidade de valorização dos professores como condição central para melhorar a qualidade da educação. Nesse sentido, o desafio agora não é apenas cumprir metas no papel, mas transformar essas diretrizes em políticas concretas que cheguem à realidade das escolas e à rotina de quem está em sala de aula.
O presidente do Conselho Estadual de Educação de Goiás, Jaime Ricardo Ferreira, também vê o novo PNE como um marco importante para organizar o sistema educacional nos próximos anos, especialmente pela forma como o plano passa a articular melhor metas e objetivos. Segundo ele, o conselho já acompanha de perto essa transição e deve atuar junto a estados e municípios na construção dos planos locais. “É um documento que vai ser feito a muitas mãos”, afirma, destacando que a nova estrutura tende a facilitar a implementação de políticas mais concretas. Para Jaime, no entanto, o avanço real depende menos do texto da lei e mais da capacidade de transformar essas diretrizes em ações efetivas, com continuidade administrativa e decisão política.

