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Desde o final da pandemia, a apicultura em Goiás vive uma expansão inédita, como relatam apicultores e especialistas em entrevista ao Jornal Opção. Impulsionado por fatores recentes, o setor ganhou força nos últimos quatro anos, enquanto produtores trabalham para inaugurar uma nova fase, modernizando a produção e o consumo de mel e seus derivados.

Embora o crescimento tenha se consolidado, foi a pandemia de Covid-19 que provocou a virada no setor, trazendo mudanças sociais que sustentaram a evolução da atividade — e que serviram de impulso para centenas de novos apicultores.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2015 e 2023, a produção nacional aumentou 69,5%, saltando de 37 mil para 64 mil toneladas. Em contrapartida, o valor da produção em 2023 foi inferior ao de 2022: R$ 908 milhões, ante R$ 982,6 milhões do ano anterior, queda de 7,6%.

No cenário estadual, Goiás registrou aumento de 25,4% na produção, passando de 320 para mais de 402 toneladas. O valor gerado acompanhou essa alta, crescendo 25,8%, de R$ 9,7 milhões para mais de R$ 12 milhões.

Atualmente, o Estado contabiliza 12.286 colmeias e abelhas-rainhas, além de 434 propriedades dedicadas à apicultura, segundo dados do Sistema de Defesa Agropecuária de Goiás (Sidago), da Agrodefesa. Orizona, Porangatu, Barro Alto, Jaraguá e Morrinhos lideram a produção.

Pandemia como catalisador

Para a zootecnista, consultora de apicultura e criadora de abelha, Gabriela Sousa, o avanço da produção e do valor do mel está diretamente ligado ao aumento significativo dos preços de produtos apícolas durante a pandemia. Ela destaca que houve uma mudança no padrão alimentar, com maior busca por opções saudáveis.

“Esse crescimento na atividade tem relação com vários fatores: a demanda de mercado, o aumento do consumo de produtos das abelhas voltados para a imunidade, uma alimentação mais saudável e uma preocupação maior com o cuidado com o corpo”, afirmou.

Consultora Gabriela Sousa | Foto: Guilherme Alves / Jornal Opção

Essa alta na procura durante — e após — a pandemia se refletiu nas vendas internas de mel e derivados, que cresceram 30%, segundo a Federação Mineira de Apicultura (Femap). Entretanto, especialistas observam que esse movimento é global, elevando a demanda também em países importadores.

Hoje, o Brasil ocupa a 11ª posição entre os maiores exportadores de produtos da apicultura — com China, Turquia e Irã no topo do ranking — e movimentou US$ 102 milhões com mais de 30 mil toneladas exportadas em 2025 até agora, conforme dados do Comex Stat. O valor supera levemente o total de 2024, quando foram registrados US$ 100 milhões e 37 mil toneladas exportadas.

Gabriela também destaca o avanço na comercialização de itens como extrato de própolis, geleia real, cera e pólen. Ela lembra que o setor tem grande potencial de verticalização, permitindo transformar esses insumos em alimentos como hidromel, cervejas e confeitaria, além de cosméticos como sabonetes, xampus e perfumes.

Esse cenário tem ampliado a procura por apiários e profissionais da área. Segundo Gabriela, o número de apicultores ultrapassa 1.500 atualmente — mais que o dobro registrado antes da pandemia, quando havia pouco menos de 700.

Foto: Alexandre Januário / Arquivo Pessoal

Um novo estilo de vida

Para a professora aposentada e apicultora Neusa Bandeira, de Abadiânia, no Entorno do Distrito Federal, do apiário LBee, trabalhar com abelhas é “trabalhar com a vida”, algo que jamais imaginou. A atividade não só trouxe renda, como transformou seu estilo de vida.

A mudança começou em maio de 2020 — no auge da pandemia — quando sua filha montou um apiário para o trabalho de conclusão de curso, mas precisou abandoná-lo após desenvolver intolerância ao veneno das abelhas. Assim, o marido de Neusa, José Antonio Bandeira, assumiu os cuidados das mais de 30 colmeias distribuídas em três apiários na propriedade.

Meu marido começou a cuidar das abelhas sem curso nenhum, apenas assistindo a vídeos na internet — naquela época estava tudo fechado e não havia cursos presenciais”, relata. “Ele gostou e comecei a acompanhá-lo por preocupação com possíveis acidentes. Mas, nesse meio tempo, acabei me apaixonando pelas abelhas também.

Com o incentivo da nova rotina e uma capacitação oferecida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural em Goiás (Senar-GO), em 2022, a produção saltou de 30 kg em 2020 para 3,4 toneladas em 2022, com 60 colmeias. Hoje, chega a 5 toneladas, com 89 colmeias distribuídas em quatro apiários.

No entanto, grande parte do mel produzido não é vendida in natura, mas transformada em itens com maior valor agregado, sobretudo uma linha de cosméticos, principal fonte de renda da propriedade. “O pequeno produtor não consegue se manter vendendo mel a R$ 10 ou R$ 12 o quilo — como ainda somos pequenos, os custos são muito altos.”

A busca por agregar valor é tendência entre produtores que pretendem viver exclusivamente da apicultura. Neusa, que também preside a Associação dos Apicultores, Meliponicultores e da Agricultura Familiar do Estado de Goiás (Apimgo), defende a descomoditização do mel, substituindo a venda do produto puro por opções mais rentáveis. “Queremos mudar a mentalidade de que mel é remédio. O mel é um dos melhores alimentos que existe.”

Foto: Neusa Bandeira / Arquivo pessoal

Ela reforça a necessidade de organização da categoria e de uma campanha nacional para conscientizar sobre os benefícios do mel. Em Goiás, comemora o lançamento da Federação das Associações e Cooperativas de Apicultores, Meliponicultores e Criadores de Abelhas do Estado (Famago), fundada em 15 de novembro e na qual deve assumir a presidência.

Segundo Neusa, a federação vai fortalecer o setor e colocar o mel goiano no radar nacional e internacional. “Em vários estados já existem federações de criadores de abelhas, e agora começamos uma em Goiás. Era um sonho antigo e conseguimos unir associações que tinham esse mesmo objetivo, porque dentro da federação ganhamos força”, afirma.

Vamos buscar melhorias e consolidar o Estado como o grande produtor que Goiás é.

Mudança na produção

Para o apicultor Alexandre Januário, de Bela Vista de Goiás, na Região Metropolitana de Goiânia, do apiário Bee Happy, a apicultura representou uma mudança completa: deixou a pecuária para se dedicar às abelhas durante a pandemia, ao descobrir que o mel é um produto sem prazo de validade.

No agronegócio, tudo tem um tempo certo para ser comercializado”, explica. “Mas, quando a gente extrai o mel, posso guardar por 1, 2, 3, 4 anos — e assim por diante. É um produto que não perece.

Apicultor Alexandre Januário | Foto: Alexandre Januário / Arquivo Pessoal

Com 60 colmeias e 2,1 toneladas de produção, Alexandre defende a mudança na cultura de consumo, especialmente com a venda direta, que valoriza mais o produto.

Ele explica que, no atacado, o mel vendido a grandes indústrias pode chegar a apenas R$ 16 a R$ 18 o quilo, enquanto no varejo o mesmo produto pode alcançar R$ 60 o quilo. Para Alexandre, o papel do apicultor é aproximar o consumidor do produtor, eliminando atravessadores que historicamente concentraram o lucro.

Potencial do Cerrado

Alexandre também afirma que o Brasil — e Goiás — tem potencial para ser uma potência apícola e estima que o país produz menos de 10% de sua capacidade. O diferencial, segundo ele, está na diversidade ecológica, que enriquece o mel.

Essa variedade define o chamado mel de terroir, explica Gabriela: um mel silvestre, puro e não homogeneizado, cujas características sensoriais (sabor, aroma, cor) refletem o ambiente em que as abelhas vivem. Entre os exemplos, ela cita o mel de cipó-uva e o de aroeira, específicos de Goiás e que conferem identidade única ao produto.

No entanto, essa diversidade depende diretamente da preservação da vegetação nativa, comparável ao “pasto” das abelhas. “A preservação dos nossos meios de produção depende da mata e do Cerrado em pé. Caso contrário, não conseguiremos manter a produção necessária. Por isso, a abelha para nós é vida.”