Os ataques realizados neste sábado, 28, pelos Estados Unidos em conjunto com Israel contra alvos no Irã intensificaram ainda mais o clima de instabilidade no Oriente Médio e elevaram o nível de preocupação da comunidade internacional. A ofensiva ocorre em meio a um cenário já marcado por conflitos prolongados, disputas por influência regional e impasses diplomáticos envolvendo o programa nuclear iraniano, além do apoio de Teerã a grupos considerados hostis por Washington e Tel Aviv. 

Diante desse contexto, o Jornal Opção conversou dois professores de Relações Internacionais que analisaram os possíveis desdobramentos do ataque, os interesses estratégicos em jogo e os impactos políticos, militares e econômicos que a nova escalada pode provocar tanto na região quanto no cenário global. 

Um dos pontos observado pelo professor universitário, graduado em Relações Internacionais, Augusto Narikawa, é que o ataque era um desdobramento dos EUA que já era esperado pelo Irã, tendo em vista as tensões que já se acumulavam há bastante tempo na região. 

Para ele, o confronto entre Irã e Estados Unidos vinha sendo adiado em razão da guerra entre Israel e Palestina, que acabou deslocando temporariamente o foco do conflito. “Acho que até demorou um pouco por causa, primeiro, da guerra entre Israel e Palestina. Isso acabou pausando as ideias de Irã e Estados Unidos, que já vinham em conflito, principalmente por conta da questão nuclear iraniana”, afirmou.

Na avaliação do sociólogo político pela New School for Social Research de Nova York e analista internacional, Felippe Ramos, o ataque dos Estados Unidos ao Irã não representou surpresa para Teerã e foi, na prática, uma ação “telegrafada”. Assim como apontado pelo professor Augusto Narikawa, que classificou a ofensiva como um desdobramento esperado das tensões acumuladas na região, Ramos sustenta que havia sinais claros de que o confronto se aproximava. “Desde o início do ano já vinham ocorrendo preparações. O reposicionamento dos ativos militares americanos em direção ao Oriente Médio já passava essa mensagem para o regime iraniano”, afirmou.

Segundo Ramos, o deslocamento de forças militares norte-americanas, incluindo o porta-aviões USS Gerald R. Ford, que estava inicialmente posicionado no Caribe, indicava um planejamento de longo prazo. “Um ataque dessa magnitude exige um amplo planejamento e reposicionamento de forças. Quando os Estados Unidos fizeram isso, obviamente o Irã também se preparou”, explicou. 

Nesse ponto, a análise dialoga com a leitura do professor Augusto Narikawa, que destacou que a escalada militar era apenas uma questão de tempo, diante da centralidade estratégica do Oriente Médio e da persistente rivalidade entre Washington e Teerã. “Era algo esperado. Não foi algo que não havia uma expectativa disso. Essas tensões militares ali, cedo ou tarde, iriam eclodir”, afirmou.

Diplomacia

Ramos acrescenta que, paralelamente à movimentação militar, havia canais diplomáticos em funcionamento, com mediação de países como Jordânia e Catar. No entanto, segundo ele, o impasse se consolidou a partir das chamadas “linhas vermelhas” estabelecidas pelo país iraniano.

O Irã deixou claro que não abriria mão do seu programa de enriquecimento de urânio, que afirma ser para fins civis, enquanto os Estados Unidos acusam de ter objetivos militares, disse.

Diante desse bloqueio, o presidente americano Donald Trump teria optado por uma estratégia de pressão direta. “A decisão foi forçar a mão militarmente para trazer o Irã de volta à mesa de negociação”, avaliou. 

Para o analista, essa estratégia representa um alto grau de risco. “É uma tática inovadora e extremamente arriscada, porque o próprio governo Trump afirma que a deposição do aiatolá e das forças do regime dependerá da população iraniana assumir o poder”, disse, ressaltando que se trata de um cenário incerto. Ele observa ainda que a atual ofensiva utiliza um volume de força militar superior ao de confrontos anteriores. “Diferentemente da chamada Guerra dos Doze Dias, quando os alvos eram principalmente instalações de enriquecimento de urânio, agora há um emprego muito mais abundante de força”, concluiu.

Na mesma linha, o professor Augusto Narikawa alerta que a lógica adotada por Washington ignora fatores centrais da dinâmica regional. “Não é só uma questão bélica. Existe uma questão de ideologia muito forte. Há uma ideia de nação e de identidade extremamente sólida, e eles não têm medo de morrer e matar por conta disso”, afirmou. Para o internacionalista, esse elemento torna qualquer tentativa externa de enfraquecimento ou queda do regime iraniano ainda mais imprevisível e potencialmente desestabilizadora.

Sem solução rápida

Para os especialistas, o ataque marca um novo capítulo de uma crise que está longe de uma solução rápida. A convergência das análises indica que, embora a ofensiva tenha sido planejada e esperada, seus efeitos permanecem incertos e potencialmente duradouros. Entre cálculos estratégicos, disputas de poder e impasses diplomáticos, o Oriente Médio volta a se posicionar no centro das atenções internacionais, com riscos que extrapolam as fronteiras regionais. 

Como destacam os internacionalistas, a combinação entre força militar, interesses geopolíticos e fatores ideológicos tende a dificultar qualquer desfecho imediato, reforçando a percepção de que a escalada atual pode aprofundar a instabilidade e redefinir o equilíbrio de forças no cenário global.

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