Os gastos do Banco Master com serviços jurídicos em 2025 revelam uma forte concentração de recursos em poucos escritórios, com destaque para a banca da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Documentos declarados à Receita Federal indicam que o banco desembolsou R$ 265 milhões com honorários advocatícios ao longo do ano, distribuídos entre 61 escritórios. Desse total, R$ 40,1 milhões foram pagos ao escritório Barci de Moraes, o maior valor individual da lista.

O montante não apenas lidera o ranking, como também se distancia amplamente do padrão observado. Ao desconsiderar esse contrato, a média de repasses às demais bancas fica em R$ 3,7 milhões, o que coloca o pagamento à banca ligada à esposa do ministro em um patamar 10,8 vezes superior.

A distribuição dos recursos evidencia um padrão concentrado na esposa de Alexandre de Moraes. O segundo maior valor foi destinado ao escritório Warde Advogados, com R$ 27 milhões – R$ 13 milhões a menos do que repassado à esposa de Moraes -, seguido por outras bancas com cifras significativamente inferiores. O escritório do ex-presidente Michel Temer, por exemplo, aparece com R$ 10 milhões.

O levantamento considera empresas registradas na Receita sob CNAE de serviços advocatícios, o que permite mapear com precisão os pagamentos formais realizados pelo banco.

A diferença entre os valores reforça um fenômeno recorrente no setor jurídico: contratos estratégicos, muitas vezes ligados a disputas de alta complexidade ou articulação institucional, tendem a concentrar cifras muito superiores às operações ordinárias.

Contrato e questionamentos

Informações já divulgadas anteriormente apontam que o contrato com o escritório Barci de Moraes previa pagamentos mensais na casa de R$ 3,6 milhões, com potencial de atingir R$ 129 milhões em três anos.

A dimensão dos valores passou a ser questionada no âmbito político. O relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), avaliou que os montantes são incompatíveis com os serviços descritos.

Segundo ele, documentos analisados pela comissão indicam desproporção entre o escopo apresentado e os valores pagos, o que levanta dúvidas sobre a natureza e a extensão das atividades contratadas.

O escritório, por sua vez, afirma não confirmar os dados e sustenta que informações fiscais são protegidas por sigilo.

Crise do banco e ampliação de gastos

Os pagamentos ocorreram em um período crítico para o Banco Master. Ao longo de 2025, a instituição intensificou a contratação de serviços jurídicos e consultorias enquanto buscava alternativas para sua crise financeira.

O banco chegou a negociar uma operação com o BRB, mas o acordo foi barrado pelo Banco Central. Meses depois, a instituição acabou sendo liquidada.

Paralelamente, houve aumento expressivo nos gastos com agentes e consultores com trânsito político — movimento interpretado por interlocutores como tentativa de ampliar capacidade de negociação institucional.

O caso se insere em um contexto mais amplo de crescimento acelerado da advocacia empresarial no Brasil. Para se ter uma ideia, em 2024, o escritório Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr e Queiroga Advogados -que configura entre um dos maiores do país – registrou receita bruta de R$ 1,7 bilhão. Deduzindo os descontos referentes à Receita Federal, o grupo fez uma receita líquida de aproximadamente R$ 1,4 bi. Dividido por um ano, em média, foram R$ 83,33 milhões arrecadados.

Apesar de estar acima do valor recebido pela esposa de Alexandre de Moraes, estamos falando de um escritório que conta como mais de 719 advogados. Diferentemente de como atua Viviane, que conta com apenas 11 profissionais, de acordo com o próprio site da empresa.

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