Especialistas comentam dificuldades que Lula pode enfrentar em 2026
23 janeiro 2026 às 14h36

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As eleições presidenciais de 2026 se desenham para ser uma das mais disputadas dos últimos anos. De acordo com a última rodada de pesquisas do Instituto Quaest, divulgada no dia 14 de janeiro, a distância entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os principais nomes da oposição vem diminuindo ao longo dos levantamentos. Ao mesmo tempo, a direita brasileira começa a se consolidar em torno do nome do senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os analistas políticos Marcos Marinho, Rejane Pessoa e Pedro Célio Borges informaram ao Jornal Opção que a dificuldade de uma vitória em primeiro turno passa por desafios matemáticos, econômicos e sociais, que podem influenciar diretamente o resultado das urnas.
Na avaliação de Marcos Marinho, a vitória de Lula já no primeiro turno é matematicamente improvável. Segundo ele, isso só ocorreria em um cenário extremo de alta abstenção do eleitorado de direita combinada com comparecimento massivo da esquerda. “Na minha leitura, a única forma de Lula ganhar no primeiro turno atualmente seria se os eleitores da direita desistissem de votar e os eleitores da esquerda comparecessem em massa. Somente assim se formaria uma maioria”, afirma.
O analista ressalta que, apesar da fragmentação da direita, a soma de seus votos tende a empurrar a disputa para o segundo turno. Para ele, a rejeição ao governo Lula não é circunstancial, mas estrutural e consolidada, o que dificulta a conquista de eleitores conservadores, independentemente das ações do governo. “O segundo turno será uma eleição de rejeição, não de adesão. Ganha quem for menos rejeitado pela maioria dos eleitores”, avalia.
Marinho acrescenta que a vitória de Lula depende, sobretudo, do eleitor “pendular” — aquele menos engajado politicamente, que decide o voto a partir de propostas concretas relacionadas à qualidade de vida e à segurança.
Já a jornalista e cientista política Rejane Souza de Oliveira destaca que, historicamente, Lula nunca venceu uma eleição presidencial no primeiro turno. Para ela, a fragmentação da oposição pode ser um entrave ao presidente, já que a soma das candidaturas da direita ultrapassa os 50% nas pesquisas. “A fragmentação da oposição pode ser um grande obstáculo para Lula, porque as pesquisas recentes mostram que a soma dos votos desses candidatos ultrapassa os 50%, o que, por si só, força um segundo turno”, afirma.
Rejane aponta que os principais pontos de fragilidade do presidente estão nas áreas de segurança pública e economia. No campo da segurança, ela observa que a percepção de avanço do crime organizado e do aumento da insegurança tende a favorecer o discurso da direita. “A segurança pública se torna um fator decisivo para o voto, e é uma área que Lula ainda não domina”, analisa.
No aspecto econômico, a especialista pondera que indicadores positivos, como o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), não garantem apoio eleitoral automático. Para ela, o que realmente pesa para o eleitor é o aumento do poder de compra e a redução dos preços de itens essenciais, como alimentos e combustíveis. Nesse contexto, avalia que a disputa será decidida em “detalhes”, como entregas de programas sociais, a exemplo do Minha Casa, Minha Vida, e medidas como a ampliação da isenção do Imposto de Renda.
O cientista político Pedro Célio Borges concorda com a baixa probabilidade de vitória em primeiro turno, mas ressalta que apenas um cenário de forte instabilidade econômica — como desvalorização salarial, juros elevados ou desabastecimento — ou erros graves na condução da campanha poderiam retirar a competitividade de Lula.
Caso esses fatores não se concretizem, Borges avalia que o presidente mantém boas chances de reeleição. “Mantidas as atuais tendências, Lula continuará competitivo, com boas possibilidades de vitória em outubro”, conclui.
Lula e a “crise dos incumbentes”
Lula enfrenta um cenário eleitoral complexo, marcado por incertezas internas e externas, segundo análise do cientista político Lucas Fernandes, coordenador de Análise Política da BMJ Consultores Associados. De acordo com o especialista, o chefe do Executivo é diretamente impactado pela chamada “crise dos incumbentes”, fenômeno observado desde a pandemia, no qual líderes que estão no poder encontram maiores dificuldades para se reeleger. O contexto global instável, somado ao medo da população em relação ao futuro, tende a desgastar governos em exercício.
Apesar desse desafio, Lula ainda se beneficia da forte polarização política no país. Fernandes avalia que, ao comparar os índices de rejeição, a família Bolsonaro segue enfrentando resistência maior do eleitorado do que o atual presidente. Nesse cenário, a permanência de Flávio Bolsonaro como possível candidato favoreceria Lula. No entanto, o quadro pode mudar caso a direita lance um nome menos diretamente associado ao bolsonarismo, mas ainda com apoio desse campo ideológico.
Entre os nomes que poderiam representar uma ameaça mais consistente ao presidente, o analista cita governadores de direita e outros líderes regionais que, se conseguirem unificar o campo conservador, podem impor dificuldades significativas ao Palácio do Planalto. Até o momento, porém, a direita permanece fragmentada, concentrada em disputas internas. Essa falta de articulação nacional, segundo Fernandes, acaba favorecendo Lula, já que potenciais adversários ainda não ampliaram seu diálogo com o eleitorado fora de suas bases estaduais.
O cenário internacional também entra na equação eleitoral. Fernandes destaca que o Brasil conseguiu administrar de forma considerada bem-sucedida a relação com o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, superando tensões comerciais e políticas. Declarações recentes do republicano, demonstrando simpatia por Lula, reforçaram momentaneamente essa percepção positiva. No entanto, o cientista político alerta que Trump é um ator imprevisível e que seu eventual apoio a candidatos em eleições estrangeiras tem apresentado resultados variados, o que torna esse fator um elemento de risco a ser monitorado.
Por fim, o analista ressalta que, por estar no governo, Lula permanece vulnerável ao surgimento de novos escândalos de corrupção. Casos recentes, como o do INSS e o do Banco Master, ainda não provocaram impacto significativo na popularidade presidencial, mas novos episódios, aliados a um eventual agravamento do cenário econômico, poderiam alterar o jogo eleitoral. Para Fernandes, a única chance real de a direita derrotar Lula passa por uma unificação precoce do campo conservador, combinada a fatores hoje imprevisíveis, como desempenho econômico e crises políticas futuras.
Última pesquisa
Em sete cenários hipotéticos testados pelo Instituto Quaest durante o primeiro turno, seis apresentam uma diferença inferior a 20 pontos percentuais entre os principais candidatos. Em apenas um deles, Flávio Bolsonaro não avançaria para o segundo turno.
Outros possíveis candidatos da oposição, como Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ratinho Júnior (PSD), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (UB), aparecem em segundo plano, com índices inferiores a 5% em alguns cenários de primeiro turno. Ainda assim, a pesquisa aponta uma vitória técnica de Lula contra todos esses concorrentes em simulações de segundo turno.
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