O Brasil ocupa hoje uma posição estratégica no tabuleiro político da extrema-direita internacional. Longe de ser um caso isolado, o bolsonarismo se consolidou como uma das expressões mais sofisticadas de um fenômeno global que articula autoritarismo político, neoliberalismo radical, fundamentalismo religioso e discursos civilizatórios. Entender o que ocorreu — e o que ainda ocorre — no país é fundamental para compreender o avanço da extrema-direita não apenas na América Latina, mas em escala mundial.

Essa é a premissa central da pesquisa desenvolvida por Gabriela Segura-Ballar, pesquisadora que há anos investiga as novas direitas nas Américas a partir de uma perspectiva comparativa e transdisciplinar. Em seus estudos, Gabriela propõe um conceito que vem ganhando destaque no debate acadêmico e político: cristofascismo. A noção descreve a fusão entre uma leitura reacionária do cristianismo e o fundamentalismo neoliberal de mercado, produzindo uma forma de autoritarismo que não se sustenta apenas pela repressão, mas pela moralização da vida social, pela sacralização do mercado e pela demonização do Estado social.

Essa análise não nasce apenas de elaborações teóricas. Ela é resultado de uma pesquisa empírica extensa, que inclui trabalho de campo, observação direta, entrevistas com lideranças políticas e acompanhamento sistemático de processos eleitorais e mobilizações sociais. Entre 2022 e 2023, Gabriela morou no Brasil por um ano, justamente durante o período mais tenso da história política recente do país: a campanha presidencial, as eleições polarizadas, a radicalização do discurso bolsonarista e a organização de atos com caráter golpista.

“Eu estive no Brasil durante todo esse processo. Vivi o período eleitoral, acompanhei manifestações e consegui estar em eventos golpistas em Brasília. Fui testemunha direta de tudo isso”, relata em entrevista exclusiva ao Jornal Opção.

Além disso, ela morou por três anos na Argentina, está atualmente na Flórida, nos Estados Unidos, e pretende retornar ao Brasil este ano.

Essa vivência permitiu que a pesquisadora observasse de perto algo que, segundo ela, ainda é subestimado por parte da imprensa e da academia: a extrema-direita brasileira não é improvisada, nem caótica. Ela possui capacidade de organização, mobilização e produção de sentido, especialmente por meio do campo religioso.

Neoliberalismo mutante e a extrema-direita do século XXI

O populismo de direita e o autoritarismo estão em ascensão global após a crise financeira de 2008. O slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, do presidente Jair Bolsonaro, e o “Make America Great Again”, do presidente Donald Trump, são os exemplos mais notórios do ressurgimento de uma direita populista reacionária nas Américas.

Um dos pontos centrais da pesquisa de Gabriela Segura-Ballar é a crítica à ideia de que a extrema-direita contemporânea representa uma reação antineoliberal. Para ela, essa leitura já não se sustenta empiricamente. O que se observa, no Brasil e em outros países, é um processo de adaptação do neoliberalismo, que passa a operar sob novas roupagens políticas e morais.

“Depois de mais de uma década do surgimento dessas novas direitas, fica claro que não se trata de uma rejeição ao neoliberalismo, mas de uma adaptação. Alguns autores chamam isso de ‘neoliberalismo mutante’. Ele se apresenta como antiglobalista, mas continua profundamente comprometido com a lógica do mercado.”

Essa forma reconfigurada de neoliberalismo abandona o discurso tecnocrático típico dos anos 1990 e passa a se sustentar em narrativas morais, nacionalistas e religiosas. No Brasil, esse processo assumiu características próprias, articulando elementos globais do neoliberalismo com tradições políticas locais.

“No caso brasileiro, essa formação ideológica híbrida combina devoção às Forças Armadas, nostalgia de um passado imperial e o neopentecostalismo com uma ideologia neoliberal extrema, na qual o mercado adquire um estatuto quase sagrado.”

Essa sacralização da economia é um dos traços que distinguem o cristofascismo de outras formas históricas de autoritarismo. O mercado deixa de ser um instrumento e passa a ser tratado como ordem natural e moral, acima de qualquer questionamento democrático.

A partir de Wendy Brown, Hayek e Michel Feher, o neoliberalismo aparece como:

  • uma racionalidade que transforma indivíduos em empreendedores morais;
  • um regime que redefine valor, mérito e pertencimento;
  • um projeto que moraliza o mercado e mercantiliza a moral.

Um ano no Brasil: eleições, radicalização e experiência de campo

A decisão de morar no Brasil não foi apenas metodológica, mas política. Gabriela queria compreender o bolsonarismo a partir da experiência concreta, acompanhando seus rituais, símbolos, discursos e formas de mobilização.

“O mais importante para mim não foi apenas o que essas figuras diziam, mas a experiência de estar ali, de ver como esses discursos operam na prática.”

Durante o período eleitoral de 2022, a pesquisadora acompanhou a escalada da radicalização bolsonarista, marcada por desconfiança em relação às instituições, ataques ao sistema eleitoral e mobilização constante de bases religiosas.

Segundo ela, o Brasil entrou em uma fase ainda mais complexa após as eleições, marcada pela reorganização da extrema-direita e por sua crescente articulação internacional.

Acho que o país está mais complicado agora. E acredito que 2026 tende a ser ainda mais crítico, justamente pelo contexto internacional e pela reativação de doutrinas de segurança e mobilização da direita global

Para Gabriela, o bolsonarismo não pode ser analisado apenas como um movimento interno. Ele faz parte de uma rede transnacional, conectada ao trumpismo nos Estados Unidos e a outras expressões da extrema-direita no mundo.

Igrejas, política e o sequestro da fé

Um dos aspectos mais centrais observados por Gabriela Segura-Ballar durante sua permanência no Brasil foi o papel desempenhado pelas igrejas evangélicas na sustentação do bolsonarismo. Para ela, há um processo claro de captura do campo religioso por um projeto político autoritário.

“Existe uma enorme capacidade de mobilização porque há uma espécie de sequestro das igrejas. Grande parte das igrejas evangélicas está alinhada com esse projeto político.”

Ela faz questão de ressaltar que esse alinhamento não é absoluto e que existem resistências dentro do campo evangélico. No entanto, o projeto dominante tem sido eficaz em transformar a religião em uma máquina de produção de sentido político.

“Esse projeto evangélico está profundamente atravessado pelo bolsonarismo. A fé passa a funcionar como instrumento de disciplina moral, culpabilização individual e desmobilização coletiva.”

Essa dinâmica se manifesta de forma visível em marchas, cultos políticos e lideranças que assumem um papel quase religioso.

“Em algumas marchas, vemos figuras políticas se apresentando quase como líderes espirituais, como salvadores. Isso é extremamente preocupante.”

Segundo Gabriela, esse fenômeno exige uma resposta que vá além da política institucional.

“Os movimentos sociais precisam construir uma resposta também no campo religioso, capaz de denunciar o caráter sacrílego e idolátrico desses movimentos.”

Entrevistar a direita: metodologia, poder e performance

Durante sua pesquisa de campo, Gabriela Segura-Ballar entrevistou figuras centrais da direita brasileira, entre elas deputados federais ligados diretamente ao núcleo duro do bolsonarismo, como Nikolas Ferreira e Gustavo Gayer. Essas entrevistas não foram incorporadas diretamente à sua dissertação principal, mas desempenharam um papel fundamental na compreensão do fenômeno.

“Para mim, o mais interessante não foi apenas o conteúdo do que eles diziam, mas a experiência de conversar com essas pessoas.”

Ela explica que entrevistar figuras com poder real impõe desafios específicos ao pesquisador.

“Se você não se apresenta de uma determinada forma, eles simplesmente não falam com você. Isso gera uma reflexão etnográfica muito importante sobre o que significa pesquisar a direita.”

No caso de Gustavo Gayer, a pesquisadora observou um contraste marcante entre a imagem pública e o comportamento privado.

“Eles constroem personagens públicos muito eficazes. Em conversas privadas, a postura é outra. O Gayer falou inglês comigo o tempo todo. Para eles, isso é uma forma de demonstrar status internacional.”

Esse tipo de performance, segundo Gabriela, é central para a construção da autoridade política da extrema-direita.

“Eles são muito eficazes em construir imagens públicas que garantem poder e influência. O grande desafio é como desconstruir essas narrativas.”

Nikolas Ferreira e a sucessão do bolsonarismo: juventude, messianismo e radicalização ideológica

Entre todas as figuras observadas por Gabriela Segura-Ballar durante seu trabalho de campo no Brasil, uma se destaca de forma incontornável: Nikolas Ferreira. Para a pesquisadora, ele não é apenas mais um deputado bolsonarista, mas a principal aposta do movimento para o futuro, aquele que reúne carisma, capacidade de mobilização, inserção religiosa e coerência ideológica.

“De todos os candidatos do bolsonarismo hoje — Tarcísio, Caiado, os filhos do Bolsonaro — nenhum tem o alcance e a projeção que o Nikolas tem. Provavelmente, quem vai herdar essa liderança é ele.”

Essa avaliação não se baseia apenas em dados eleitorais, mas na observação direta de como Nikolas opera politicamente. Jovem, com menos de 30 anos, ele construiu uma base sólida nas redes sociais, uma presença constante no debate público e uma relação orgânica com o campo evangélico. Para Gabriela, isso o diferencia radicalmente de Jair Bolsonaro.

“O Bolsonaro nunca foi uma figura profundamente ideológica. Ele vinha das Forças Armadas, se cercou de ideólogos, mas não acreditava fanaticamente nessas ideias. Já o Nikolas acredita intensamente no que defende, quase de forma fanática.”

Essa convicção ideológica, segundo ela, torna Nikolas ainda mais perigoso. Enquanto Bolsonaro operava muitas vezes de forma errática, impulsiva e contraditória, Nikolas apresenta um discurso mais coeso, estruturado e ancorado em uma visão de mundo clara, na qual cristianismo reacionário e neoliberalismo extremo se reforçam mutuamente.

Nikolas Ferreira e a Marcha Para Liberdade | Foto: Divulgação

“Ele vem do meio evangélico desde sempre. O Bolsonaro se batizou no ano eleitoral. O Nikolas é produto desse ambiente. Ele foi formado politicamente ali.”

Essa formação faz com que Nikolas domine códigos, linguagens e símbolos religiosos de maneira muito mais eficaz, ocupando um lugar que vai além da política institucional.

“Eu vi pessoas pedindo para ele rezar por crianças, curar crianças. Isso eu nunca vi com o Bolsonaro. Ele é chamado de ‘mito’, mas o Nikolas já ocupa um papel quase messiânico.”

Para Gabriela, essa dimensão messiânica não é um detalhe folclórico, mas um elemento central do cristofascismo: a transformação do líder político em figura de salvação moral e espiritual, capaz de oferecer sentido em um contexto de crise social profunda.

A lógica sacrificial e o desmonte do Estado social

Um dos conceitos centrais desenvolvidos por Gabriela Segura-Ballar é o de lógica sacrificial, fundamental para compreender como o cristofascismo opera na prática. No caso brasileiro, essa lógica se manifesta de forma clara tanto na política econômica quanto na política social e externa.

“As políticas de austeridade promovidas por essas novas formas de neoliberalismo reconfigurado buscam destruir as funções distributivas e inclusivas do Estado.”

Segundo ela, o desmonte do Estado social não é apresentado como violência, mas como necessidade moral. O sofrimento deixa de ser visto como problema político e passa a ser interpretado como prova de mérito ou castigo individual.

“As populações pobres, negras e indígenas passam a ser demonizadas como um peso para o Estado. Pessoas que não querem trabalhar, preguiçosas. Isso justifica o corte de políticas sociais.”

Essa lógica se articula diretamente com o discurso religioso, que transforma desigualdade em destino e exclusão em punição moral. Ao mesmo tempo, ela se expressa no ataque às políticas de diversidade e representação.

“Sob a lógica do mercado, torna-se impossível reconhecer condições históricas de desigualdade. Políticas de ação afirmativa passam a ser atacadas como ‘racismo reverso’.”

Para Gabriela, esse processo não é apenas econômico, mas profundamente simbólico: ele redefine quem merece viver com dignidade e quem pode ser sacrificado em nome da ordem.

Brasil e Estados Unidos

A aproximação entre setores da direita brasileira e o conservadorismo norte-americano ganhou visibilidade a partir de 2019, com a realização da primeira Conservative Political Action Conference (CPAC) no Brasil, em São Paulo. O evento contou com a presença de Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do então presidente Jair Bolsonaro, que reproduziu gestos simbólicos usados por Donald Trump em edições do encontro nos Estados Unidos.

A relação foi reforçada por declarações públicas de admiração mútua entre Jair Bolsonaro e líderes conservadores americanos, especialmente durante a visita do presidente brasileiro à Casa Branca, quando ambos destacaram a defesa de valores “ocidentais”, da família tradicional, da religião cristã e o combate ao socialismo, à chamada “ideologia de gênero” e às fake news.

Esse alinhamento ideológico também atraiu apoio e controvérsia no cenário internacional. Figuras da extrema direita dos Estados Unidos, como David Duke, chegaram a manifestar apoio a Bolsonaro, associando sua ascensão a uma onda global de nacionalismo conservador, embora o presidente brasileiro tenha rejeitado publicamente esse endosso. No plano interno, Bolsonaro lançou em novembro de 2019 o partido Aliança pelo Brasil, com forte discurso religioso, defesa do livre mercado, do porte de armas e da rejeição ao socialismo. A legenda se apresentou como guardiã de valores judaico-cristãos e da civilização ocidental, enquanto movimentos como o Movimento Brasil Livre (MBL) consolidaram influência política ao promover pautas liberais na economia e conservadoras nos costumes, projetando jovens lideranças para cargos eletivos e ampliando o debate sobre identidade, cultura e democracia no país.

Hiperocidentalismo libertário e a renúncia à soberania

Outro eixo central da análise de Gabriela Segura-Ballar é o que ela chama de hiperocidentalismo libertário: a lealdade incondicional de setores da extrema-direita latino-americana ao “Ocidente”, representado principalmente pelos Estados Unidos e por Israel, mesmo quando isso implica perda de soberania nacional.

“Objetivamente, há uma contradição entre o discurso nacionalista e a subordinação aos Estados Unidos. Mas a incoerência é uma característica central das formações neofascistas.”

Segundo ela, ocorre uma inversão sistemática de significados: a destruição do Estado social passa a ser apresentada como liberdade; a renúncia ao interesse nacional, como soberania; a guerra, como paz.

“O discurso da soberania é central, mas não para defender o interesse nacional. Ele serve para atacar a institucionalidade multilateral, os direitos humanos, a ONU.”

No Brasil, esse hiperocidentalismo se expressou de forma explícita durante o governo Bolsonaro, especialmente na política externa, marcada por alinhamento automático aos Estados Unidos.

“Por trás dessa incoerência discursiva, há um projeto político e econômico muito racional, que pressupõe a perda quase total da capacidade de proteger o interesse nacional.”

Para Gabriela, essa é mais uma dimensão da lógica sacrificial: sacrifica-se a soberania em nome de uma pertença simbólica ao Ocidente.

Brasil e Argentina: duas faces de um mesmo projeto

A pesquisa de Gabriela Segura-Ballar é comparativa, e a inclusão do caso argentino foi decisiva para aprofundar suas conclusões. Ao analisar o governo de Javier Milei, ela identifica uma formação neofascista distinta da brasileira, mas estruturalmente relacionada.

“No caso argentino, a obsessão é com a liberdade de mercado. É uma lógica quase religiosa.”

Embora Milei não mobilize o cristianismo da mesma forma que o bolsonarismo, ele utiliza referências teológicas e bíblicas para legitimar o neoliberalismo extremo.

“Ele fala em mandamentos libertários, utiliza símbolos religiosos e tem uma obsessão muito forte com Israel e o judaísmo.”

Segundo Gabriela, tanto no Brasil quanto na Argentina houve um longo trabalho ideológico de demonização dos governos progressistas, associado à corrupção e ao mau funcionamento do Estado.

“Quando o Milei fala em destruir a ‘casta’, ele está falando de universidades, hospitais, políticas sociais. É uma guerra contra o Estado social.”

Esse processo foi amplamente mediado pela grande imprensa e pelas elites econômicas.

“A mídia dominante teve um papel central em suavizar o caráter autoritário do Milei e promover sua imagem.”

Mídia, elites e preparação ideológica

Para Gabriela, a ascensão da extrema-direita não pode ser explicada apenas pelo carisma de líderes ou pelo ressentimento popular. Ela é resultado de um trabalho ideológico de longo prazo, no qual mídia, elites econômicas e capital financeiro desempenham papel central.

“Há um processo de internalização de valores individualistas, de demonização do Estado social, que prepara a população para aceitar políticas que pioram suas próprias condições de vida.”

Esse processo cria um ambiente no qual a destruição de direitos aparece como solução, e não como problema.

As pessoas passam a acreditar que o problema não é o sistema, mas o Estado, os pobres, os movimentos sociais

O futuro da extrema-direita: juventude, renovação e persistência

Um dos pontos mais preocupantes destacados por Gabriela Segura-Ballar é a capacidade da extrema-direita de se renovar. No Brasil, o bolsonarismo tem investido de forma consistente na formação de quadros jovens, algo que a esquerda, segundo ela, tem feito menos.

“Figuras como o Nikolas Ferreira já estão se consolidando politicamente. Mesmo que a liderança não fique na família Bolsonaro, o movimento continua.”

Ela observa que a extrema-direita não depende mais de uma única liderança carismática.

“Eles constroem novos rostos, novas lideranças, com forte apelo entre jovens.”

Esse processo torna o fenômeno mais duradouro e difícil de enfrentar.

Antifascismo, teologia da libertação e disputa de sentidos

Diante desse cenário, Gabriela Segura-Ballar é enfática ao afirmar que estudar o fascismo não é apenas um exercício intelectual, mas uma necessidade política.

“Se não compreendermos essas formações neofascistas, não conseguimos combatê-las. É preciso reafirmar os valores originais do cristianismo e denunciar o caráter sacrílego e idolátrico desses projetos.”

Para ela, a disputa central do nosso tempo é uma disputa por narrativas e sentidos.

“A extrema-direita está organizada internacionalmente. A resistência também precisa estar.”

Gabriela conclui que a ausência de um projeto político verdadeiramente antineoliberal segue sendo o maior obstáculo para conter o avanço da extrema-direita.

“Enquanto isso não existir, ela continuará ganhando espaço.”

E finaliza com um alerta:

“Essa avançada não vai desaparecer tão cedo. Mesmo quando não chega ao poder, ela se reorganiza. Por isso, é tão importante continuar estudando, acompanhando e se organizando coletivamente.”

Conclusão

A defesa contemporânea dos chamados “valores ocidentais”, conforme analisado por Gabriela Segura-Ballar, opera como um dispositivo ideológico central para a legitimação de projetos autoritários no contexto do neoliberalismo tardio. Longe de representar um apego neutro à tradição ou à herança cultural, esse discurso rearticula hierarquias coloniais, raciais, religiosas e morais, apresentando-as como fundamentos naturais da civilização. Ao mobilizar noções como família heteronormativa, moralidade judaico-cristã, individualismo e livre mercado, a retórica do “Ocidente” converte inseguranças econômicas e sociais em ressentimento cultural, direcionado contra imigrantes, minorias raciais e sexuais, feministas e forças políticas de esquerda.

Nesse sentido, o artigo demonstra que o neoliberalismo não apenas corrói os princípios da democracia liberal, mas também se apoia em uma moralização da política para se sustentar, redefinindo o pertencimento civilizacional em termos de desempenho econômico, responsabilidade individual e adesão a valores conservadores.

A noção de “Ocidente” passa, assim, a funcionar como um mito mobilizador que unifica a extrema-direita transnacional nas Américas, ao mesmo tempo em que legitima processos mais coercitivos de neoliberalização. Defender os “valores ocidentais”, portanto, não significa preservar a democracia ou a liberdade, mas reforçar um projeto excludente que combina racionalidade de mercado, autoritarismo político e hierarquias herdadas do colonialismo.