“Caiado tem todas as condições para governar o país”, afirma Eduardo Leite após encontro no RS
09 abril 2026 às 19h48

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O primeiro encontro entre os governadores Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO) após a disputa interna do PSD ocorreu nesta quinta-feira, 9, no Rio Grande do Sul, marcando um gesto de distensão dentro do partido. Apesar de diferenças pontuais, ambos destacaram a possibilidade de construção conjunta de um projeto nacional.
“Temos muito mais pontos de convergência do que diferenças. A política é justamente um instrumento da democracia para que pessoas possam conversar e construir a partir das suas diferenças e convergências um caminho comum. Caiado tem todas as condições para governar o país”, afirmou Leite.
Caiado, escolhido como pré-candidato do PSD à Presidência da República, também ressaltou o tom conciliador do encontro. “Recebi a carta do governador Eduardo Leite, conversamos bastante. Posso garantir a vocês que prevaleceram os pontos de concórdia”, disse.
A reunião ocorreu na sede da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), em Porto Alegre, após uma mudança de agenda provocada por problemas no tráfego aéreo em São Paulo, que impediram Leite de retornar ao estado a tempo para o encontro no Palácio Piratini.
Apesar dos elogios mútuos, as divergências entre os dois permanecem. Leite destacou diferenças na visão sobre o Estado brasileiro e temas específicos, como a anistia. “Temos uma grande divergência de visão de estado brasileiro em relação ao PT. Isso está muito claro. E também apontando diferenças que tenhamos, como é o caso da anistia”, afirmou.
A anistia, inclusive, foi um dos pontos abordados por Caiado em seu primeiro discurso como pré-candidato, ao defender perdão ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O tema também aparece na carta entregue por Leite, que manifesta preocupação com a medida. “Não me parece que a pacificação nacional será alcançada com a inauguração de um governo tendo como um de seus primeiros atos a concessão de anistia ampla aos envolvidos nesses episódios”, diz o documento.
Outro ponto de tensão envolve alianças regionais. Caiado admitiu que o PSD poderá caminhar ao lado do PT em alguns estados, como a Bahia, embora tenha ressaltado que, pessoalmente, estará em palanque adversário. “Na Bahia, o PSD vai caminhar com o PT. Lá, eu estarei no palanque do ACM Neto”, afirmou.
O encontro ocorre após um processo interno no PSD marcado por disputa entre os dois governadores pela indicação presidencial, que acabou com a escolha de Caiado após a desistência de Ratinho Júnior. Na ocasião, Leite chegou a demonstrar insatisfação com a decisão, mas agora adota um discurso mais institucional.
Antes da reunião, Caiado também fez elogios ao governador gaúcho. “Sem dúvidas o Eduardo Leite é uma referência de boa gestão. Homens como o Eduardo Leite têm que estar comigo numa gestão de Brasil”, declarou.
Mesmo com diferenças, o encontro sinaliza tentativa de pacificação interna no PSD e alinhamento mínimo para a construção de uma candidatura nacional competitiva em 2026.
Confira a íntegra da carta entregue por Leite a Caiado:
Carta ao pré-candidato à Presidência pelo PSD
“A política, na sua melhor expressão, não é o espaço da uniformidade. Ela é o espaço da construção de convergências entre diferentes.
Nós não precisamos pensar igual para caminhar juntos. Mas precisamos ter clareza sobre o que nos une, sobre os valores e compromissos que sustentam essa caminhada.
Tenho respeito pela trajetória do governador Ronaldo Caiado, pela sua experiência e pela sua disposição de liderar um projeto nacional. E é justamente por reconhecer a importância desse momento para o Brasil que acredito que alguns pontos merecem destacada atenção, especialmente para aqueles que, como eu, se identificam com um campo mais ao centro, equilibrado e comprometido com responsabilidade.
O Brasil precisa, mais do que nunca, superar a lógica da polarização radicalizada. Precisa de um projeto que não se defina por oposição a este ou àquele nome, mas que se afirme por uma visão própria de país. Uma visão que una responsabilidade fiscal com sensibilidade social, firmeza institucional com capacidade de diálogo.
É importante que qualquer candidatura que pretenda representar esse espaço deixe claro seu compromisso com:
• o respeito às instituições e à democracia, sem ambiguidades;
• a responsabilidade na condução das contas públicas, com coragem para enfrentar reformas necessárias;
• a compreensão de que, em um país com enorme desigualdade social, é urgente se colocar o Estado como promotor da igualdade de oportunidades, com políticas sociais efetivas na promoção das pessoas;
• a construção de governabilidade com integridade, sem atalhos que comprometam o futuro;
• E, sobretudo, a disposição de dialogar com diferentes, sem alimentar conflitos que o Brasil já cansou de viver.
Também é essencial que haja gestos concretos nessa direção. Gestos que sinalizem abertura, moderação, capacidade de agregar, seja na formação de equipes, no discurso ou na forma de fazer política.
E, nesse espírito de franqueza respeitosa, embora deseje focar nas nossas tantas convergências, eu não posso deixar de mencionar um ponto em que penso diferente.
Compreendo que há, por parte do governador Caiado, a verdadeira intenção de buscar a pacificação do país ao tratar da questão envolvendo os atos de 8 de janeiro. Esse é um objetivo que todos nós devemos compartilhar.
Mas, sinceramente, não me parece que a pacificação nacional será alcançada com a inauguração de um governo tendo como um de seus primeiros atos a concessão de anistia ampla aos envolvidos nesses episódios. Uma medida dessa natureza, logo no início, tende a interromper o diálogo com uma parcela significativa da população, que não se sente representada por esse caminho. Isso não significa fechar os olhos para a necessidade de equilíbrio e justiça.
Eventuais excessos podem e devem ser debatidos. E há caminhos institucionais mais adequados para isso, como o aperfeiçoamento da dosimetria das penas, algo que já vem sendo analisado no Congresso Nacional.
Ou seja, é possível buscar justiça com equilíbrio, sem abrir mão da responsabilidade institucional e sem comprometer a construção de um ambiente de diálogo mais amplo.
Eu acredito que o Brasil precisa de uma alternativa que represente equilíbrio, serenidade e responsabilidade. E acredito, sinceramente, que é possível construir essa alternativa — desde que haja disposição verdadeira para ampliar, para ouvir e para integrar.
Se esses caminhos forem trilhados com clareza e consistência, será natural que muitos de nós possamos nos sentir representados e, a partir disso, engajados em um projeto comum para o país.
Porque é disso que se trata: não de impor visões, mas de construir um caminho compartilhado para o Brasil avançar.
Porto Alegre, 9 de abril de 2026
Eduardo Leite
Governador do Rio Grande do Sul”
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