Um Artista do Seu Tempo: a ficção científica irreverente de José Fábio da Silva
21 fevereiro 2026 às 21h00

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Simone Athayde
Especial para o Jornal Opção
“Acredito que o humor é o que há de mais sério no mundo.” — Javier Cercas
O que faz com que um livro mediano se torne um sucesso enquanto outro melhor permanece desconhecido do grande público? Quais intricados sistemas comerciais, de interesses e de relacionamentos têm o poder de decidir que livros merecem ser lidos ou não? Tais questões permearam a leitura que fiz do ótimo e diferente “Um Artista do Seu Tempo” (Selo Naduk, negalilu editora, 2022), uma obra que permanece praticamente desconhecida do público, mas que, ouso dizer, se fosse de algum autor estrangeiro ligado a uma grande editora, teria tudo para se tornar um bestseller, vista que é muito melhor do que, por exemplo, A casa da noite do famoso Jo Nesbo.
O autor de “Um Artista do Seu Tempo”, José Fábio da Silva, é historiador por formação, com atuação relevante no cenário cultural goiano, e um talentoso criador de textos que misturam irreverência, crítica social e uma boa dose de humor ácido. Porém, como acontece comumente no cenário literário, seu currículo não é suficiente para tornar seu livro conhecido como merecia.
Enredo original e intrincado
Essa obra, a meu ver, possui um dos enredos mais originais, intricados e bem elaborados que li ultimamente. Um verdadeiro quebra-cabeças narrativo que não pode ser classificado como um romance no sentido estrito da palavra, “Um Artista do Seu Tempo” é constituído de um mosaico de histórias que, por sua vez, trazem fragmentos como pistas que se complementam. Uma tentativa de resumir seu enredo poderia ser a seguinte: fenômenos sobrenaturais fazem parte da rotina de uma cidade interiorana desde a sua fundação, quando aconteceu um suposto milagre. Os moradores dessa cidade, ao longo de gerações, serão parte desses fenômenos, seja como testemunhas, seja como causadoras diretas ou como vítimas. Situações absurdas, trágicas e cômicas, crimes e milagres, viagens no tempo, experiências científicas que dão errado, alucinações e alienígenas farão parte dessa excursão literária um tanto louca, com uma galeria de personagens impagáveis, que me lembraram os personagens de “Soy loco por ti, América!”, de Marcos Rey.

De forma simplista, entende-se por ficção científica um gênero da arte que utiliza a ciência e a tecnologia como parte de suas tramas, cenários ou temas. Embora muito associada à ideia pessimista de distopia, de apocalipse causado por máquinas, como, por exemplo, em “Matrix” e “O Exterminador do Futuro”, a ficção científica pode resvalar para o lado satírico, como acontece em Um artista do seu tempo. Já a irreverência, vista sob o ponto de vista artístico, é utilizada por escritores como forma de criticar ou ridicularizar instituições, regras ou ideias estabelecidas. Ao desrespeitar com humor aquilo a que normalmente devemos mostrar obediência ou veneração, a irreverência carrega em si a rebeldia ou o inconformismo, sem cair no pessimismo.
O livro em questão é divertido e criativo, mas, ao mesmo tempo, ironiza e brinca com instituições bem brasileiras que se situam na cidade fictícia muito parecida com Anápolis, local de residência do autor. Seus personagens criam e passam por situações tragicômicas, nas quais o absurdo se mistura ao humor. O livro também é rico em referências irônicas a outras obras, incluindo as de autoajuda, e citações sutis a outros escritores e filósofos. Para se ter um exemplo, um dos personagens é um jornalista em fim de carreira que tem o sobrenome Cioran, o mesmo de um filósofo europeu considerado em sua época “o rei dos pessimistas”. O repórter investiga fatos estranhos ligados ao aparecimento de luzes no céu e um suposto milagre de um santo que adquire vida.

Construção narrativa cuidadosa
A obra se divide em nove capítulos ou contos que aparentemente são peças isoladas que, aos poucos, começam a se conectar. Seus personagens aparecem e reaparecem entre os contos, enquanto trechos de textos também se repetem ao longo das histórias, com pequenas alterações e propósito bem pensado pelo autor, mostrando um trabalho cuidadoso de construção narrativa.
O primeiro texto, homônimo do título, é uma salada de gêneros literários. O autor utiliza sua experiência como historiador para traçar as diretrizes dessa parte, no qual já aparecem elementos fundamentais para o entendimento da história em si. Traz, por exemplo, fragmentos memorialistas escritos por Jean-Jacques Silva (qualquer semelhança com o nome do autor real não é mera coincidência) que narram o milagre relacionado às origens da cidade, uma entrevista com a estátua que adquiriu vida, relatos e atas de uma instituição religiosa ligada à estátua.
A segunda parte, A cidade contra o crime, se passa num passado recente. O narrador é um detetive que investiga um feminicídio e uma rede de corrupção e prostituição, ao mesmo tempo em que relembra um caso policial ocorrido vinte anos antes. Nos detalhes dessa parte, assim como nas seguintes, também se escondem pistas para a construção final do quebra-cabeças.
O grande destaque do livro são as quatro histórias a seguir. São obras de arte narrativas que podem, inclusive, ser lidas de forma separada, como se fossem realmente contos avulsos.
Em Mise-en-scène, o protagonista é apresentado ao leitor como um ótimo ser humano que, insatisfeito com o potencial desperdiçado de sua mulher e filhos, resolve simular a própria morte para favorecê-los com um seguro de vida. O plano degringola e a trama toma aspectos de uma tragicomédia com ares surrealistas.
Em “Tecendo a manhã”, o título faz uma alusão ao famoso poema de João Cabral de Melo Neto, pois o protagonista é um galo (Alberto C-17) modificado geneticamente após uma experiência científica que passa a ter comportamentos e conflitos existenciais tipicamente humanos.
Profissão de fé vai acompanhar a história do empresário da prostituição João Marajó e de seu núcleo. Aqui temos uma série de situações absurdas e engraçadas: uma pastora que se torna prostituta para se vingar do marido, um cafetão que se torna padre após se apaixonar e ser rejeitado por uma freira, o mesmo padre que depois de celebrar sete missas num dia vai para a cadeia e ali encontra seus antigos desafetos e um viajante do tempo.
No Conto “Um homem de sorte” o protagonista é o ser humano muito azarado, para quem tudo dá sempre errado. Começa assim: “Dádiva de Deus”: muitos definem a vida assim. Um presente do Arquiteto do Universo para os seus filhos. O problema de um presente é que, na maior parte das vezes, ele representa o gosto de quem presenteia e não o do presenteado. Esperidião Fontoura, que sonhava com a Fortuna, mas vivia à beira da miséria. E o azar o perseguia de todas as formas. Chegou a ganhar na loteria, mas teve um problema de saúde e ficou em coma”.
Já em “O paradoxo do relógio” teremos a finalização e explicação dos acontecimentos insólitos. A obra é concluída com criatividade, sem pontas soltas.
Carlos Nejar, um dos decanos da Academia Brasileira de Letras, disse recentemente que “a literatura contemporânea imagina muito, mas pensa pouco”. Esse não parece ser o caso deste livro, pois, se à primeira vista é entretenimento puro, num exame mais aprofundado podemos perceber que as tiradas cômicas contêm uma fina ironia, pois se é característica da obra irreverente não respeitar a formalidade e a sacralidade das instituições, o é também fazer críticas e reflexões de forma que o humor quase as encubra.
Talvez ao trazer diversos gêneros narrativos, dispor entre eles tantas referências, fazer com que tantos personagens e pequenas tramas naveguem por caminhos tão distantes no tempo para depois conectá-los, tudo isso se apresente como um ponto problemático ao leitor, que pode ficar perdido durante a leitura. Além disso, ao tentar abarcar várias possibilidades narrativas, o livro se mostra com altos e baixos, com partes que de certa forma decepcionam quando comparadas com as ótimas partes. Porém, ao não se levar à sério, a obra convida o leitor à diversão, que pode incluir, talvez, uma releitura, na qual poderá descobrir as minúcias nas entrelinhas. E embora o enredo se aproveite do requentado caldo que faz as ficções científicas, a forma escolhida para desenvolvê-lo enriquece o conteúdo e tira proveito dos clichês, aí está o grande trunfo do autor.
Simone Athayde, escritora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

