Augusto Diniz
Augusto Diniz

O dia em que eu fui ao show dos Mamonas Assassinas

Era uma noite de domingo em um Mineirinho não muito cheio, o que não afetou o ânimo do maior fenômeno musical brasileiro entre o final de 1995 e 1996

Samuel, Júlio, Dinho, Sérgio e Bento dominaram o mercado musical brasileiro nos oito meses que antecederam a morte do grupo| Foto: Divulgação

Cuca Lazzarotto – “Vamos falar desse primeiro e tão bem sucedido…”
Dinho – “E último disco.”
Cuca – “… álbum. Não será o último. Por quê? Acabou o humor? A cota acabou?”
Júlio Rasec – “A gente vai pegar um monomotor domingo.”
Dinho – “É que a gente vai tocar agora no interior a gente vai de monomotor.”

A conversa acima pode parecer uma grande surpresa esclarecedora de muita coisa para quem não lembra bem ou não acompanhou os Mamonas Assassinas entre o final de junho de 1995 e o início de março de 1996, quando a banda morreu em um acidente de avião. O fenômeno musical e de audiência na TV e no rádio que teve pouco mais de nove meses de auge e euforia chamado Mamonas Assassinas sempre envolveu muita piada com uma possível morte em queda de avião.

A entrevista para o programa Top 20 Brasil, da MTV Brasil, apresentado em setembro de 1995 por Cuca Lazzarotto, trouxe uma brincadeira que vinha desde o início dos anos 1990. Ainda nos tempos de Utopia, o vocalista Dinho já brincava que o LP de estreia da banda seria o único do grupo. O mesmo voltou a acontecer com os Mamonas, quando o mesmo líder e cantor repetia piadas sobre o CD de 1995 ser o último registro do conjunto, que, com ajuda do tecladista Júlio Rasec, falava em pegar um monomotor para chegar a alguma cidade do interior paulista.

Por ironia do destino, às 23h56 do sábado 2 de março de 1996, ao voltar de um show em Brasília (DF), Dinho (vocal), Bento Hinoto (guitarra), Samuel Reoli (baixo), Sérgio Reoli (bateria) e Júlio Rasec (teclado) morreram quando o jatinho fretado em que estavam bateu na Serra da Cantareira, em Guarulhos (SP). Além dos cinco músicos, estavam na aeronave um primo do vocalista, o segurança da banda, o piloto e o copiloto.

Show em Belo Horizonte

O dia 10 de dezembro de 1995 caiu em um domingo, a única vez em que os Mamonas Assassinas se apresentaram na capital mineira. O show, no Estádio Jornalista Felipe Drummond, mais conhecido como Mineirinho, tinha censura de 12 anos. Eu tinha apenas 10 anos naquela data. O jeito foi torcer para não me barrarem na entrada.

Acompanhado de um tio, entrei na pista do show, que ficava na quadra do Mineirinho. Ao chegar lá, muitos bebês no colo de pais e mães, o que gerou arrependimento por não ter levado um primo que queria muito ver os Mamonas. Ele tinha apenas 5 anos. Lembro que depois do show ele dizia, na casa dos meus avós: “Quando tiver Mamonas 1996 nós vamos”. Isso infelizmente nunca aconteceria.

A lembrança que eu tenho é de uma plateia não muito cheia. Apesar do grande fenômeno assustador e rápido dos Mamonas Assassinas em todo o Brasil, a agenda de shows da banda só começou no dia 22 de agosto de 1995, dois meses depois do lançamento do disco. E a apresentação de Belo Horizonte parece ter sido bem atípica em meio a vários registros de concertos lotados.

Como foi um dos álbuns que eu mais escutei em 1995, o encarte até ficou amassado de tanto acompanhar as letras. Quem hoje sabe o que é encarte de CD?! Mas tudo bem. Dos singles Vira-Vira, Pelados em Santos e Robocop Gay, a última dos tempos dos shows do Utopia em comícios, o quinteto tocou, com troca de figurino muitas vezes, todas as 14 músicas do único disco que lançou em vida.

Eu lembro que a ansiedade para ouvir, entre algumas das preferidas, Uma Arlinda Mulher, era grande. Em certo ponto do show, Dinho falou ao público: “Como a gente tem poucas músicas e já tocou todas, vamos tocar tudo de novo”. E a formação mudava a cada piada entre os músicos no palco. Com o tecladista Júlio no vocal, depois Samuel, com Bento na bateria, Dinho no baixo.

A partir desse momento no show, a apresentação virou uma grande festa de músicos que começaram a brincar entre si e usar as piadas que faziam no palco – e não eram poucas – para interagir com o público. Dinho e Júlio eram os grandes responsáveis por manter a plateia conectada com a energia dos protagonistas no Mineirinho.

Covers

Lembro que foi a primeira vez que prestei atenção na música Bichos Escrotos, dos Titãs, que, se não me engano, foi o único cover que os Mamonas fizeram naquele show e que não estava no repertório do disco. Eles tocaram também Sábado de Sol, que é uma regravação do Baba Cósmica (RJ), banda do na época adolescente Rafael Ramos, hoje à frente da Deck Disc.

Rafael era filho do produtor artístico da gravadora EMI, grande da indústria fonográfica na época que topou gravar o disco dos Mamonas em 1995. O pai do garoto, João Augusto Soares, ouviu a fita demo que recebeu, produzida por Rick Bonadio, até a segunda música e não se interessou pela banda.

Foi o filho que começou a ouvir e chegou até a terceira faixa, Mina (Minha Pitchulinha), que depois se tornou Pelados em Santos, e insistiu com o pai para lançar os Mamonas. Só depois de ver um show da banda, em abril de 1995, João Augusto topou lançar o quinteto ao verificar de perto que não se tratava de um truque de estúdio de Rick Bonadio e era mesmo uma banda de verdade que conseguia tocar ao vivo.

Sábado de Sol

Em entrevistas, o baixista Samuel contou que a música Sábado de Sol tinha muito a ver com as compostas pelos Mamonas e que todos da banda gostavam muito da canção do Baba Cósmica. Há documentários sobre os Mamonas que ignoram a atenção dada por Rafael à fita demo da banda de Dinho e companhia com três músicas.

Tanto é que essa história envolve fatos nunca confirmados de que a gravação de Sábado de Sol pelos Mamonas Assassinas no disco seria o cala a boca que Bonadio teria dado em Rafael para que ele ficasse o mais apagado possível como o responsável pelo sucesso da banda.

Voltando ao show, Chopis Centis, feita em cima da melodia de Should I Stay or Should I Go, do The Clash, mas com uma letra escrachada sobre uma pessoa que tem a representação de sua felicidade extrema no ato de poder abrir um crediário nas Casas Bahia, foi um dos melhores momentos do show. Sabão Cra-Cra e sua letra de rima boba e engraçada arrancou boas risadas do público, que sempre fechava o verso “enrolar com os do cu” em coro.

Naquele 10 de dezembro de 1995, 21 anos atrás, eu não conseguia perceber a diversidade musical e a bagunça de estilos que eram os Mamonas no palco e no CD. A banda passava, por exemplo, de uma música regional como Jumento Celestino no seu início para rock na mesma canção. Enquanto em 1995 a indústria fonográfica tinha espaço aberto para a nova geração do rock brasileiro, sucessora do pop rock dos anos 1980, hoje seria impensável uma banda como os Mamonas atingir o tamanho do sucesso que eles conseguiram.

Letras

Tanto é que o Utopia, que era uma banda séria de pop rock inspirado nas bandas brasileiras de sucesso do final dos anos 1980, como Paralamas do Sucesso e Legião Urbana, e que vinha recheada de letras sérias e tristes, se tornou o irreverente e engraçado Mamonas Assassinas, que não tinha muito a falar, mas que deixou letras atuais e debochadas. É o caso de 1406, que na época eu sei lá o motivo que me fazia gostar, mas que é possível perceber a crítica ao sofrimento de uma família que reclama da falta de dinheiro não para comer, dormir e viver, mas para usufruir de um luxo que a sua condição financeira não permite.

Ou mesmo Débil Metal, que retrata o culto a letras muitas vezes vazias em inglês sem nem ter noção do conteúdo de seus versos. E que naquele show foi algo bem divertido de ver, com direito a todas as perucas compridas e caras de mau no palco. “Can’t you understand?/Can’t you understand, boy?/So, shake your head/So, shake your head, sucker! (Você não consegue me entender?/Você não consegue me entender, cara?/Então balance sua cabeça/Então balance sua cabeça, retardado!).”

Dinho mesmo era um dos que, quando entrou para o Utopia durante um show ao subir ao palco e tentar cantar alguma música dos Guns N’ Roses na pura embromação, nada ou bem pouco sabia de inglês. No especial MTV Na Estrada, gravado em 1996 em um trecho da turnê dos Mamonas, percebe-se a dificuldade que o vocalista tem de citar o nome da música Sad but True, do Metallica.

A mistura de rock funkeado com influências de Red Hot Chili Peppers do início do disco passa pelo folclórico vira português de Roberto Leal, aos mariachis mexicanos, o punk do The Clash, vai para o forró e o baião, se embola com o samba e o pagode, vira metal, cantiga de ninar e até o brega de cantores como Reginaldo Rossi e Falcão.

Dessa desorientação de influências sonoras saíam letras descabidas como Mundo AnimalBois Don’t Cry e Lá Vem o Alemão, que tiveram a sua graça em 1995. Difícil imaginar espaço para um humor como esse hoje. Ainda mais em um mercado tão concentrado em investimentos numa quantidade mínima de estilos musicais.

Saudosismo

Pelas poucas lembranças que sobraram daquele 10 de dezembro de 1995, eu posso afirmar que foi sim uma noite muito divertida. Se não entrou para a lista dos melhores show que eu vi até hoje, ao menos valeu pela experiência de realizar o sonho de, na época, ver os Mamonas ao vivo, a banda que me fazia passar horas com fone de ouvido em casa até cansar de escutar o CD lançado em junho daquele ano. E 21 anos depois da morte dos cinco músicos, ainda tem muita festa e boate que acaba por tocar um dos sucessos da curta carreira do grupo.

Abaixo você pode ver alguns especiais e documentários sobre a carreira da banda, os dois videoclipes lançados e a entrevista no Top 20 Brasil da MTV em setembro de 1995 usada para abrir o texto que você acabou de ler. Boa nostalgia!

Mamonas Assassinas no MTV Top 20 Brasil (30 de setembro de 1995):

Videoclipe da música Vira-Vira (1995):

Videoclipe de Pelados em Santos (1995):

MTV Na Estrada – Mamonas Assassinas (1996):

Especial Por Toda Minha Vida – Mamonas Assassinas, da Rede Globo (2008):

Documentário Mamonas Pra Sempre (2011):

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