Série Violência Contra as Mulheres — Conto de Liliana Boaz (7)
11 outubro 2025 às 21h00

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Silêncio
Liliana Boaz
Ângela se vê dentro de um cemitério e, subitamente, sente a paz invadir seu mundo. Cada partícula de seu ser parece livre. Ela caminha pelos corredores admirando o local e observando as outras pessoas que por ali transitam: famílias, pessoas sozinhas, pessoas em oração, estudantes sorrindo e, no corredor mais cheio, admiradores de Eva Perón.
Pela primeira vez, aos 35 anos de idade, ela se permitiu não dar satisfação a nenhum homem. Ainda ecoa em suas entranhas a sensação aterrorizante de ter sido perseguida e violentada psicologicamente por seu ex-namorado.
Pedro se apresentava como o tipo de homem que toda mulher queria: atencioso, exótico e aparentemente normal e bem resolvido. E foi assim até o dia em que Ângela caiu em si e pôs fim ao relacionamento “perfeito”. Mal sabia o que estava por vir. Na verdade, ela esperava.
A perfeição das redes sociais é tão meticulosamente encenada que engana até o próprio algoz. Pedro interpretava um personagem alto-astral, empático e altruísta. Para quem o acompanhava virtualmente, ele era irrepreensível. Na vida real, era frio, egoísta e cruel.
Pedro era um homem completamente inseguro e que carregava muita frustração de vida. Buscou em Ângela o brilho do sucesso que sempre perseguiu e não encontrou. Uma hora, esse brilho incomodou e a inveja se instalou. Ângela tentou mudar essa sensação iniciando conversas que terminavam com Pedro se dizendo vítima e exigindo desculpas pelas ações “sem sentido” da então namorada.
Mas o manto “zen” caiu. O homem, diagnosticado com transtorno narcisista e em tratamento secreto, não aceitou o abandono. Seu lema era simples: descartar, nunca ser descartado. Decidiu punir Ângela, perseguindo-a no mundo real e no virtual.
Vieram os xingamentos de baixo calão, a difamação, as histórias inventadas para amigos e colegas de trabalho. As ameaças eram constantes, e centenas de mensagens chegavam todos os dias.
Ângela se via perdida, acuada, com sua liberdade limitada. Dois meses seguidos de violência esvaziaram todo o seu brilho. A mulher destemida não mais existia. Sentia-se julgada e caminhava de olhos baixos.
Simples postagens de um café ou de uma paisagem no Instagram tornavam-se faíscas para a gasolina que alimentava a obsessão de Pedro. As coisas coloridas para Ângela tornaram-se sem graça.
O rastreador instalado em seu veículo foi descoberto, e Pedro passou a ser investigado por perseguição, depois que uma amiga insistiu para que Ângela procurasse a polícia. Justiça terrena aplicada: ordem de proibição de aproximação e um processo que estampa o carimbo de agressor na tão perfeita farsa de vida que Pedro ostenta.
Mas Ângela não era mais a mesma. Aquela mulher que gostava de esportes, boa comida, viagens e muita emoção foi apagada. Andava nas ruas remoendo fatos e não se perdoando por ter se submetido a tanta coisa calada. Por que não procurou ajuda antes? Por que deixou que aquelas palavras fossem tatuadas em sua mente? Ela já não tinha vontade de repetir que não era sua culpa.
E hoje, aqui, em seu lar, ela me olha serena e diz que queria ter a minha força.
Nota: conto escrito na capital da Argentina
Escrito no Cemitério La Recoleta, em Buenos Aires. 12 de agosto de 2025.

