Ana Kelly Souto

Especial para o Jornal Opção

B de Belo

Na semana passada, abrimos o Abecedário de Santo Agostinho com a letra A de Amor, afinal, Agostinho é o grande doutor do amor, e é pelo amor que tudo se torna possível.

Na sequência natural, seria de esperar que seguíssemos com o Bem, como falar de amor sem bondade? Além disso, entre os transcendentais medievais – Bem, Belo, Verdade e Unidade –, o Bem costuma aparecer em primeiro lugar.

Curiosamente, porém, é a beleza que primeiro nos prende. Ela é o filtro inicial do desejo humano, a porta de entrada para todos os outros transcendentais.

Por isso escolho o B para o Belo. Justamente entre esses grandes conceitos, o Belo foi, em muitos momentos da história, tratado como algo menor ou mal compreendido, e é, exatamente aí que ele merece nossa atenção redobrada.

Se Agostinho de Hipona, aquele bispo afervorado que sempre foi prolífico na escrita contra os adversários, tivesse o infortúnio de acordar em 2025 com um smartphone ao lado da cama, não duvido de que logo redigisse um opúsculo furioso intitulado “Contra Tiktokers”.

Porque era exatamente assim que ele procedia: escolhia um inimigo da hora e descarregava sobre ele toda a artilharia retórico-filosófico acumulada. Já fustigou donatistas, pelagianos, maniqueus (ah, os maniqueus, seu ódio de juventude que nunca curou).

Hoje, seria a vez dos produtores de rotinas matinais impecáveis, esses novos fariseus da luz natural e do café coado em slow motion.

Eles exibem agendas preenchidas com uma caligrafia que faria inveja aos escribas medievais.

Proclamam sua rotina das cinco da manhã como se acordar antes do sol fosse não apenas saudável, mas também moralmente superior. E o coro dos comentários responde, extasiado, que vida linda. Mas isso não é o Belo; é apenas boniteza, e boniteza não salva ninguém.

Como o próprio Agostinho recorda nas “Confissões” (IV, 20), o primeiro problema filosófico que enfrentou por escrito (obra hoje perdida) foi justamente o do Belo e do conveniente.

Santo Agostinho capa de Confissões 1

Já jovem, ele estabeleceu que o belo é elemento essencial do ser e que a natureza da beleza se entrelaça com o amor: há o belo em si e o belo em relação ao seu fim.

Perguntar o que é beleza é perguntar o que atrai e conecta, o que desperta o amor; é indagar a relação entre prazer e beleza: as coisas agradam porque são belas ou são belas porque agradam?

São belas porque provocam um reconhecimento íntimo, uma relação profunda.

Esse reconhecimento, porém, não se dá pelos olhos do corpo, mas pela intelecção.

Por isso Deus é o fundamento de toda forma verdadeira de Belo, a beleza percebida pelos sentidos é mutável, ao passo que a beleza percebida pela mente é imutável.

Na obra “A Verdadeira Religião” (54-55), Santo Agostinho afirma que a beleza corpórea pode enganar exatamente porque está sujeita à mutabilidade e, portanto, se distancia da verdadeira beleza. É em Deus que amamos a beleza eterna e imutável, aquela que nunca se esgota e nunca se enfada.

O belo em quatro perspectivas

 Podemos abordar o Belo em pelo menos quatro perspectivas.

Essas referências não aparecem concentradas em uma única obra, mas estão dispersas em vários escritos, como De Música e Da Ordem. A partir dessas leituras, é possível extrair primeiro, uma perspectiva ontológica segundo a qual o Belo é aquilo que possui forma, medida, proporção, peso e ordem, características que procedem do próprio Deus.

Santo Agostinho detalhe 3
Santo Agostinho com um livro — detalhe da pintura de Benozzo Gozzolli

Desse modo, a beleza é objetiva e reflete a própria estrutura do real. Essa estrutura remete à segunda dimensão, a saber, a teológica. Deus é, para o pensador, a Suma Beleza, e toda beleza criada é participação nessa fonte.

O que vemos como belo apenas é na medida em que reflete algo do Bem. Por isso, a beleza criada funciona como sinal, não como destino, aponta sempre para mais do que ela própria mostra, belo é o que aperfeiçoa e não enfeita.

Mas a beleza também se torna humana na esfera antropológica. Para Agostinho, a alma é bela quando ama corretamente, isto é, quando os seus afetos estão ordenados segundo o famoso ordo amoris, amar o que deve ser amado, no grau e pelo motivo devidos.

Belo é, portanto, aquilo que coloca o amor no lugar certo. A feiura moral, ao contrário, nasce justamente do exagero ou da inversão dessa ordem.

Por fim, surge a dimensão existencial, aquela que se expressa também em “Confissões” (X, 27), passagem que se tornou uma das mais citadas quando se evoca o nome do filósofo: “Tarde vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde vos amei!”.

Dentre tantos atributos possíveis para nomear Deus, por que justamente a que utiliza o termo Beleza é o que fixa tão fortemente na nossa mente?

Por que, entre várias declarações em que o filósofo apresenta Deus como amor ou como verdade, é esta invocação, “Tarde vos amei, ó Beleza”, que mais nos prende, que se fixou na memória coletiva e se repete até por quem a guarda apenas de ouvido?

A resposta pode estar contida na própria frase, nessa exclamação o filósofo descobre que procurava fora o que sempre habitava dentro de si.

Toda corrida atrás de belezas finitas, sejam conquistas, imagens ou aplausos, acaba por se revelar fome insaciável da Beleza infinita. Nada sacia verdadeiramente, nem o corpo impecável, nem a rotina sincronizada, nem a foto tomada no segundo perfeito.

O belo verdadeiro ilumina e liberta

Os vídeos de rotinas impecáveis seduzem, claro. É a mesma sedução que o jovem Agostinho conhecia quando corria atrás de aplausos e prazeres rápidos.

Ana Kelly Souto capa de livro 1

A perfeição performada, por mais bem editada que seja, não estabiliza o coração; apenas o deixa mais inquieto.

O que é verdadeiramente belo não se limita a reluzir, ilumina e liberta.

Para o Bispo de Hipona, a verdadeira feiura não estava na poeira das ruas de sua cidade, mas na alma desordenada, pois a deformidade principal não é física, mas moral, e nasce sempre do amor que se curva para bens menores como se fossem o fim último.

É essa deformidade interior que os vídeos de rotinas perfeitas acabam por ocultar, porque exibem vidas polidas que escondem a desordem real de quem vive tentando sustentar uma estética sem verdade.

Vivemos um tempo em que o feio se tornou proibido e, por isso mesmo, o belo se tornou suspeito.

E se quisermos um exemplo atual, basta lembrar de episódios em que pessoas devolvem bolsas perdidas contendo documentos e dinheiro, gestos que não viralizam pela qualidade das imagens, mas porque trazem algo que se reconhece imediatamente como beleza, não pela mera estética, mas pela ética.

Talvez resida aí o diálogo possível entre o século IV e o século XXI: Agostinho não condenaria os vídeos em si mesmos, mas a pretensão de que fossem suficientes, porque, para ele, a verdadeira beleza não salva apenas os olhos, salva o coração.

A compreensão agostiniana do Belo exerceu influência decisiva na construção da minha pesquisa de doutorado em Ciências da Religião, especialmente na investigação sobre o papel das obras de arte dentro das igrejas como meio de evangelização.

Ao reconhecer que, para Agostinho, a beleza é aquilo que atrai e nos impõe a amar, compreendi que a experiência estética não é um mero adorno, nem questão de gosto, mas um modo de busca da Verdade.

Essa perspectiva encontrou ressonância na reflexão teológica da Igreja, que, em diversos documentos e cartas dirigidos aos artistas, afirma a necessidade da arte como colaboração humana na obra criadora de Deus. Os artistas são apresentados como coartífices, capazes de intuir e expressar a verdade e a beleza que procedem do Criador. Essa vocação, lembrada de modo emblemático na Carta aos Artistas de São João Paulo II, situa a arte não como ornamento, mas como via de conhecimento espiritual.

Foi justamente essa intuição que iluminou o percurso da minha tese, sobretudo na análise das obras presentes nas igrejas e, em especial, dos afrescos de Frei Nazareno Confaloni confeccionados na Paroquia São Judas Tadeu no Setor Coimbra, os quais foram analisados em minha pesquisa.

A arte, nesses espaços se torna mediação sensível da fé, convocando o fiel a um encontro interior que ultrapassa a estética para alcançar a profundidade ética e espiritual da mensagem cristã.

A partir desse horizonte, tornou-se evidente que a expressão mais atual desse diálogo entre beleza e evangelização é aquilo que a Igreja denomina “Via Pulchritudinis”, o caminho da beleza. Essa via, ancorada na tradição agostiniana, propõe que a beleza sensível conduza à Beleza eterna, abrindo a inteligência e o coração para o mistério divino.

Esta pesquisa em breve será publicada pela editora Mondru.