Salinger escreveu dois grandes livros, enriqueceu e foi criar galinhas. Quem nunca quis ser J. D Salinger?
28 fevereiro 2026 às 21h00

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João Paulo Teixeira
Especial para o Jornal Opção
O grande livro de J.D. Salinger é, claro, o romance “O Apanhador no Campo de Centeio” (“The Catcher in the Rye” — o título é baseado num poema do escocês Robert Burns).
Foi de lá que veio a fortuna que permitiu que o Truman Capote do talento se vestisse no seu típico anonimato de quem escolhe criar galinhas, viver recluso numa chácara em New Hampshire, e recusar entrevistas — dizem — frequentemente apontando uma espingarda para repórteres por cima da cerca.
Até o livro de bolso encontrado com o assassino de John Lennon ajudou na cultura popular, na mística e, claro, na fortuna pecuniária. Coisa que só o destino e/ou Deus sabem fazer.
Mas, de fato, a verve literária de Salinger que deu dinheiro nasce ali no adolescente Holden Caulfield.
É a história bem escrita de um garoto que, andando por aí como quem saiu de uma festa ruim, é chutado fora da faculdade (embora o professor velho lá ainda apostasse nele) e sai narrando tudo o que vê nesse mundão de meu Deus.

E narrando mesmo tudo. As cenas cotidianas do maior mistério que existe — a vida — filtradas pelo prisma dos olhos de quem ainda não aprendeu a ver e a fingir direito.
Holden não é rebelde. Holden é “só” Salinger. Um sujeito sensível demais para o teatro social. Tudo bem, é literatura. Boa literatura. Um Jack Kerouac sem o pé na estrada, mas com o olhar nas pequenas microvidas que acontecem da hora que acordamos até quando vamos deitar.
J.D está no panteão dos grandes americanos, ao lado de Jonh dos Passos, Fitzgerald e Hemingway, de quem gosto muito, por que é corajoso e escritor dos temas das vicissitudes humanas, feitos por um legítimo pugilista.
Daqui vos fala esse mequetrefe leitor, para um soberbo espectador.
Vamos lá, eis o motivo desse texto mal escrito.
Revistando os pergaminhos de Salinger, vejo o que não tinha reparado quando li o livro aos vinte anos.

O âmago dessa narrativa popular e lucrativa de “O Apanhador” já estava lá, num livrinho de capa anódina, o “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira” ou (Raise High the Roof Beam, Carpenters), nome original com a ajuda do Google, não do GPT errante tipo Dom Quixote de Cervantes.
Ali começa a saga da família Glass, verdadeiros prodígios infantis do rádio nos anos 1930, uma espécie de Jackson Five intelectualizados antes mesmo dos Jackson Five existirem.
Cada um à sua maneira. Mas vou focar em Seymour Glass, o melancólico e dramático Seymour.
Pode ler os dois lado a lado: Holden Caulfield e os Glass. Especialmente Seymour.
Qual é a diferença real entre Holden e Seymour?

Holden sofre porque o mundo é um balé do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, encenado pela sutileza social — uma coreografia de hipocrisias minúsculas, diárias e recorrentes.
Já Seymour não é apenas melancólico (embora a guerra o tenha marcado). Ele é lúcido demais. Sensato sobremaneira, talvez até ao ponto de Hemingway, não como escritor, mas na pessoa física, como o próprio Hemingway tentou e consumou, também com uma espingarda.
Seymour é mais um dos muitos agoniados com essa dança que nos acompanha no roteiro cotidiano.

Salinger escreveu dois grandes livros
Os Simpsons, o desenho animado, outro ícone da cultura popular da década de 80/90, no seu deboche costumeiro, sugeriram que, tirando “O Apanhador”. o resto é lixo. Acho que o “Carpinteiros” também pula o purgatório.
Vale a pena pegar os dois pra ler. Ou não. Escolha você se deixa lá J. D Salinger se ocupar das suas galinhas.
João Paulo Teixeira, jornalista e publicitário, é colaborador do Jornal Opção. É publisher da agência Mind Digital e empreendedor na área da saúde.

