Romance de Geraldo Lima ressalta o político e discute, com vigor, a questão racial
04 abril 2026 às 21h00

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Fernando Marques
Especial para o Jornal Opção
João Carlos, brasiliense de meia-idade e pendores boêmios, separado da mulher e pai de duas filhas, trabalha na Divisão de Licitações de algum ministério. Homem comum, aparentemente sem traços extraordinários, ele é o personagem principal de “Quem Foi Que Soltou os Cavalos no Campo de Trevas?”, romance de Geraldo Lima lançado em março. Registro nesta breve resenha as minhas impressões ao ler esse ótimo romance.
Os primeiros momentos da história dão a ver um homem sem ambições ou projetos definidos. Seus parceiros de copo no Bar do Lopes, na Asa Norte (um dos velhos botequins que resistem enquanto a cidade à volta se transforma), Martins e Bernardo, também vão levando a vida como podem. Críticos do estado de coisas político, marcado por atitudes espúrias, a rebeldia dos três é algo preguiçosa e não ultrapassa os limites do bar.

Esse quadro de boemia sem surpresas começa a se alterar quando uma cigana, que ganha algum dinheiro lendo a mão de fregueses incautos, profetiza grandes mudanças — para melhor, é claro — na vida de João Carlos.
Como se já aguardasse o sinal de que a existência pode ir além do previsível, João se empolga com a predição vaga e sumária, passando a se comportar como se dias felizes necessariamente estivessem por vir.
As mudanças aconteceriam como que por mágica, sem esforço, a esse homem que até ali se considerava cético em relação a sortilégios. A facilidade com que se deixa impressionar pela profecia o aproxima dos personagens cômicos, mas o relato o leva a situações em que a mera redução humorística já não tem lugar. Outros dias virão, mas não os esperados.
O autor distende o mote narrativo inicial, a que outros elementos serão adicionados, com imaginação e, ao mesmo tempo, rigorosa coerência. Os personagens revelam aspectos imprevistos, porém plausíveis, à medida que a trama evolui.

A metamorfose de Martins
O caráter de Martins, por exemplo, vai nos surpreender em sua metamorfose (ou ele nunca foi mesmo grande coisa?).
As licitações com que João Carlos opera cotidiana e burocraticamente são o motivo para passarem a valorizá-lo (o que João confunde com os bons augúrios da cigana), tentando enredá-lo em mais um dos casos de corrupção que brotam no país a toda hora. O comentário político enlaça-se ao relato; esse comentário se estende à questão racial, tratada com vigor, sem atenuantes.
Episódios que expandem o realismo e a verossimilhança ocorrem, como nos sonhos do protagonista com os cavalos do título, sonhos que temperam o retrato do real e movimentam o interior dos personagens. Não apenas as esperanças de ascensão social, com seus equívocos e ambiguidades, mas também a vida afetiva de João e da ex-mulher se entrega ao leitor.
Carmem, enfermeira-chefe de um hospital sempre superlotado em Brasília, e suas meninas Mariana e Marina são a ex-mulher e as filhas de João Carlos. Figura de muitas virtudes e alguns defeitos, generosa e impulsiva, ela protagoniza algumas das páginas mais intensas do romance, como no encontro com o ex-marido que termina em acerto de contas emocionais.
Se é preciso destacar uma passagem em meio a tantas, escolho o trecho do sequestro de João Carlos por sicários ligados a forças para ele obscuras, em que a habilidade do também roteirista Geraldo Lima se impõe. A cidade empresta os seus cenários à história, que provavelmente não poderia transcorrer noutro lugar. Um grande livro.
Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, escritor e compositor.

