O tesoureiro e o intendente
07 fevereiro 2026 às 21h00

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Fernando Cupertino
Naqueles tempos da República Velha, Siô Totó Salustiano, Tesoureiro da Intendência, fora chamado com urgência ao gabinete do novo Intendente Municipal, que acabara de assumir as funções.
– E então, Siô Totó, qual é a situação atual das finanças da municipalidade?
– Doutor Nicanor, a arrecadação é fraca e as despesas são elevadas. Se levarmos em conta os gastos com os funcionários e com as pensões de mercê, quase nada resta para cuidar das coisas essenciais da cidade.
– E há muita dívida dos munícipes para com a Intendência?
– Sempre há, não é mesmo, doutor? As décimas* das casas estão em atraso, às vezes de anos até… além disso, o recolhimento do imposto sobre serviços, devido pelo comércio e pelos profissionais liberais das diferentes áreas, quase nunca acontece. Até mesmo funcionários da Intendência que têm outras atividades estão em atraso com o pagamento desse imposto…
– Pois então prepare uma ordem de cobrança geral. Vamos encher os cofres. Para os que trabalham aqui, promova o desconto dos impostos em atraso por ocasião do pagamento dos vencimentos já neste mês.
– Mas, doutor, haverá choro e ranger de dentes. Há quem deva para mais de cinco anos de impostos em atraso…
– Não há mas, nem meio mas. Eu sou o Intendente e lhe dei uma ordem, entendeu bem? E estamos conversados.
Dito isso, virou as costas ao velho, ignorando sua presença. Este, tratou de dizer um “sim, senhor” e deixou o recinto.
De volta à sua mesa de trabalho, Siô Totó, a contragosto, começou a preparar todo o necessário para cumprir as ordens. Chamou um auxiliar e puseram-se a trabalhar na atualização dos débitos. Disposto a cumprir as ordens à risca, não excluiu nem mesmo o Intendente que, como médico, fazia mais de cinco anos que não pagava os impostos necessários ao exercício profissional. Sem alarde, fez os lançamentos das dívidas de todos os empregados da Intendência na folha de pagamentos daquele mês e preparou-se para a tempestade.
– Doutor Nicanor, aqui estão os seus vencimentos deste mês e o respectivo recibo. Peço que me faça o favor de assinar.
– Mas como?! Só isso???
– É, sim senhor; pois, conforme suas ordens, deduzi a dívida que o doutor tinha para com o Tesouro Municipal. Afinal, foram cinco anos de impostos em atraso…
Erguendo a voz, de forma agressiva e desrespeitosa, o Intendente respondeu-lhe:
– Velho caduco! Não lhe dei nenhuma autorização para descontar o que quer que fosse do meu salário. Ponha-se daqui para fora e está demitido. Dê-me as chaves do cofre e já!
– O senhor vá gritar com os moleques da sua laia! – reagiu o Tesoureiro com veemência. – Não lhe entrego as chaves porque o senhor é desonesto. É ladrão!
E saiu do gabinete, juntou seus pertences, despediu-se dos colegas que, atônitos, haviam escutado os gritos histéricos do Intendente.
Dias depois, Siô Totó recebeu a visita do advogado da Intendência, seu sobrinho, que, em início de carreira e recém-casado, não tivera a coragem de solidarizar-se com o tio e abandonar o cargo.
– Tio Totó, o senhor sabe como essas coisas são delicadas. O homem é poderoso e pode lhe dar dores de cabeça. Mandou-me aqui para buscar as chaves do cofre da Intendência. O melhor é o senhor atender e evitar complicações…
– Veja bem, Emílio, não lhe ponho daqui para fora porque você é meu sobrinho. Mas diga àquele pilantra que só entrego as chaves a uma comissão de gente idônea, a quem eu preste contas e apresente os livros e os haveres que estão no cofre. Antes disso, nada feito.
No dia marcado, compareceu à Intendência e prestou contas de tudo, diante da comissão composta por antigos colegas de trabalho, deles recebendo um documento que atestava a correção e a lisura de tudo o que havia feito ao longo de tantos anos de serviço. Entregou as chaves do cofre e jurou nunca mais ali colocar os pés.
Nas semanas seguintes, retomou com afinco suas antigas práticas de ourives, ofício que aprendera com seu falecido pai, um dos mais afamados da cidade. Afinal, precisava de dinheiro para colocar o feijão na mesa. Entretanto, estava com o ânimo abatido, e um dos filhos, condoído em ver o pai assim tão acabrunhado pelo acontecido, resolveu vingar a afronta sofrida.
Soldado do batalhão do Exército aquartelado na cidade, era exímio atirador e preparou-se para dar cabo do Intendente. Trouxe do quartel, às escondidas, um mosquetão Comblain, que guardou embaixo da cama, enquanto arquitetava um plano capaz de mandar o desafeto para o inferno. Entretanto, sua mãe, ao descobrir casualmente a arma escondida, submeteu-o a um minucioso interrogatório e conseguiu fazê-lo confessar o que então lhe passava pela cabeça. Ao fim e ao cabo, conseguiu demover o rapaz do intento, que acabou substituído por outro tipo de punição: inexplicavelmente, quase todas as semanas o automóvel do Intendente passou a amanhecer com os quatro pneus furados…
*décima: antiga expressão que designava o imposto predial e territorial urbano.

