Salatiel Soares Correia

Especial para o Jornal Opção

Ao se debruçar sobre o regionalismo goiano, é inevitável aproximar Bernardo Élis e Mário Palmério como dois intérpretes densos do interior brasileiro. Em O Tronco, Élis constrói uma narrativa marcada pela violência estrutural, pelas disputas de poder e pela ossatura arcaica das relações políticas no sertão goiano. Já em A Vila dos Confins, Palmério revela um interior igualmente conflituoso, mas filtrado por fina ironia e senso agudo das engrenagens eleitorais e sociais que movem a pequena cidade. Ambos partem do chão regional, mas alcançam uma compreensão mais ampla das tensões humanas, políticas e morais.

Essa vocação de ultrapassar o local encontra seu ápice em “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa. O sertão rosiano não é mera paisagem geográfica: é metáfora da condição humana. O sertão de Guimarães é o sertão-mundo — espaço onde bem e mal, destino e liberdade, fé e dúvida se enfrentam em escala universal. Ao transcender o regional, Rosa demonstra que o interior do Brasil pode conter, em si, as grandes questões da filosofia e da literatura.

É nesse horizonte que se insere a homenagem ao professor Álvaro Catelan. Para ele, a literatura deixou de ser apenas objeto de estudo e tornou-se razão de viver. Ao longo de décadas, Catelan construiu um conhecimento profundo do regionalismo brasileiro, especialmente ao comparar O Tronco com A Vila dos Confins. Nessa aproximação, realizou um verdadeiro “ajuste fino” crítico, revelando convergências e diferenças estruturais entre dois autores que conhecia em profundidade — tanto na tessitura narrativa quanto na representação das elites políticas e dos conflitos sociais do interior.

Essa produção literária não pode ser dissociada do ambiente histórico que a circunda: o Brasil desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, que interiorizava o progresso e deslocava o eixo do país para o Planalto Central. A construção de Brasília, a internacionalização da Bossa Nova — com João Gilberto e Tom Jobim — e o Cinema Novo de Glauber Rocha expressam essa mesma euforia modernizadora. Nesse contexto, o regionalismo de Palmério, de Bernardo Élis e o sertão-mundo de Guimarães Rosa inserem-se como expressão literária de um país que se redescobria e se projetava.

Foi essa dinâmica — em que o regional se converte em universal e o interior se transforma em centro — que o sábio Álvaro Catelan tão bem soube descrever, interpretar e transmitir.

Salatiel Soares Correia, escritor e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.