O mamoeiro do padre Alfredo
11 outubro 2025 às 21h00

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Fernando Cupertino
Padre Alfredo havia chegado à pequenina cidade, lá nos sertões mais distantes, fazia já alguns meses. Padre novo, muito compenetrado de seus deveres, deparara-se com a situação calamitosa em que estavam a igreja do povoado e o fervor dos fiéis. Dedicada a Nossa Senhora da Guia, o pequeno templo, de uma só nave, estava praticamente em ruínas. O povo, sem a assistência religiosa desde a morte do antecessor já bem idoso, estava disperso e distante de Deus. E para complicar ainda mais, havia sido aberta uma igreja de crentes, do ramo pentecostal — que ele chamava de “pestecostal” — o que terminava por reduzir ainda mais seu pequeno rebanho.
Trabalhador como era, padre Alfredo logo arregimentou todos os esforços possíveis e imagináveis para, primeiramente, tornar a Casa de Deus um lugar mais digno para as celebrações. Correu as redondezas visitando os fazendeiros mais abonados; arrecadou bezerros, porcos e leitões; ganhou madeira para o telhado. De Siô Aristides da Olaria ganhou as telhas, e até mesmo o coronel Fulgêncio, que dizia não trabalhar com esse artigo de rezas e de igreja, acabou doando uma boa soma em dinheiro, depois que Dona Auristela, sua mãe, se recuperara quase milagrosamente de uma pneumonia que por pouco não leva a velha para o buraco. Assim, padre Alfredo, depois de fazer leilão dos animais que angariara, aumentando assim os fundos da paróquia, contratou os operários. Ao fim de três meses de trabalho, tudo estava pronto para a missa solene de inauguração.
O sacerdote, a despeito de sua piedade e disposição para o trabalho, tinha a saúde frágil. Sofria de um problema intestinal desde criança, que o obrigava a comer mamão todos os dias. Se assim não fosse, não havia meio de os intestinos funcionarem. Eram só cólicas, suores e sofrimento. Por isso mesmo, desde que chegou, plantou uns pés de mamão-rosa pelo quintal da igreja, em ambos os lados da diminuta torre sineira, e até mesmo na pracinha que havia defronte à entrada principal do templo. Todos cresceram bem, mas o que dava os frutos mais bonitos, graúdos e doces era aquele da praça. Uma beleza de mamoeiro! Quando celebrava a missa, já voltada para o povo, de acordo com as recentes disposições do Concílio Ecumênico, ele podia contemplar aquela maravilhosa obra da natureza e antegozar o prazer de deliciar-se com aquela fruta que tanto bem lhe fazia. O problema era a molecada. Não dava sossego! Mal um dos mamões começava a rajar-se de amarelo, algum daqueles moleques endiabrados trepava no mamoeiro e levava embora a fruta tão esperada!

O padre reuniu as Filhas de Maria, a Irmandade das Almas e a do Coração de Jesus para pedir ajuda às beatas: que falassem para as mães daqueles diabretes que deixassem o mamoeiro em paz; que respeitassem as necessidades de saúde do padre, que deles tanto carecia!
Isso parece ter surtido efeito por algumas semanas, na constatação do religioso, pois a primeira coisa que fazia, todas as manhãs, era passar em revista o mamoeiro para ver se tudo continuava na mais perfeita ordem.
No dia da inauguração da reforma, com a igreja toda enfeitada, o povo da currutela acorreu maciçamente para a missa solene. Até o coronel Fulgêncio, convencido pela mãe, compareceu. Afinal, ele havia sido um dos principais mecenas da reforma da igreja!
Começada a missa, as coisas desenrolaram-se razoavelmente bem, mesmo com Dona Zefinha de Tãozico desafinando horrores na cantoria. Padre Alfredo estava feliz e inspirado, e fez um belo e tocante sermão sobre as virtudes da fé, da esperança e da caridade, que tirou lágrimas dos olhos de muitos dos fiéis.
O problema aconteceu depois do ofertório, justo na hora da consagração do pão e do vinho. Depois das orações de estilo, quando padre Alfredo começou a levantar o cálice para o oferecimento do Santo Sacrifício ao Altíssimo, ele viu Ademarzinho de Dona Neném, um moleque dos mais abusados, trepando no mamoeiro. Tomado de uma ira cega, esqueceu-se da fórmula de praxe e terminou por dizer quase aos gritos:
— Lá vai o diabo subindo!
Foi um sururu pra ninguém botar defeito. As beatas mais antigas, e experimentadas no ofício, ameaçaram desmaiar com tamanha heresia; o coronel danou a rir a não mais poder e o padre, coitado, perdeu o fio da meada e nem bem conseguia retomar o rumo da reza. Mas o pior de tudo foi que, para seu desespero, o moleque levou mesmo consigo os mamões mais bonitos, já no ponto de se tornarem sobremesa nas refeições paroquiais.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

