O indivíduo clama por liberdade mas se submete ao algoritmo. É hora de ler e reler Agostinho
14 março 2026 às 21h00

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Ana Kelly Souto
Em Portugal, especial para o Jornal Opção
Abecedário de Agostinho: L de Liberdade
Um dos temas mais exaltados atualmente é a liberdade: “Seja livre!”, “Viva sua verdade!”, “Ninguém manda em mim”. Todo dia temos à nossa volta um menu de opções de tênis, séries, parceiros, dietas, opiniões, gêneros. E, no meio desse banquete de escolhas, alguém posta uma frase antiga: “Ama e faze o que quiseres”, atribuída a Santo Agostinho.
Nessa obsessão pela máxima possibilidade de escolher, quase sempre escolhemos o mesmo: mais tela, mais validação, mais pertença, mais consumo disfarçado de autenticidade. Temos livre-arbítrio aos montes, mas raramente alcançamos libertas. Ficamos presos na roda do querer infinito que Agostinho, no século IV, já notava: a dispersão da alma que se perde em mil coisas menores porque tem medo de se entregar à única coisa necessária.
Paradoxalmente, quanto mais gritamos “liberdade!”, mais nos escravizamos a mecanismos que decidem por nós (algoritmos, tendências, indignações programadas). Na perspectiva agostiniana, a graça é o que nos devolve a liberdade verdadeira, não como um reforço da autonomia, mas como uma conversão do desejo. Não escolhemos mais entre “n” opções ruins, passamos a querer o que realmente vale a pena querer.
Agostinho não chama de liberdade qualquer escolha, ele é mais exigente do que nós. Para ele, livre-arbítrio é a capacidade de decidir, essa força interior que nos permite dizer sim ou não, mas liberdade é outra coisa.
Pense num instrumento musical. Um violino não é “mais livre” quando produz ruídos aleatórios; ele realiza sua plenitude quando soa segundo a harmonia para a qual foi feito. Fora disso, não há liberdade, há dissonância.

Assim também o homem. Dotado de livre-arbítrio, ele pode escolher inclusive contra si mesmo. Pode preferir o imediato ao eterno, o menor ao maior. E continua escolhendo, mas isso não significa que esteja livre.
Segundo a leitura de Étienne Gilson, Agostinho entende que a liberdade verdadeira não é indiferença diante do bem e do mal, é a capacidade de aderir ao Bem. Quando a vontade se orienta ao que a funda, ela não se diminui, mas se realiza. Quando se afasta, continua ativa, porém menos inteira.
A diferença é simples: livre-arbítrio é poder escolher e liberdade é escolher aquilo que nos faz mais ser. Pois nem toda escolha amplia, algumas apenas escravizam.
Quiçá seja por isso que confundimos tanto autonomia com liberdade. Porque poder pecar não é perfeição da liberdade, é sinal de sua fragilidade. O problema da liberdade em Agostinho é inseparável do problema do ser. O mal não tem ser próprio, pois é privação. Logo, escolher o mal é escolher menos ser. Portanto, a liberdade cresce à medida que a vontade adere ao Ser supremo.
Agostinho e responsabilidade moral
No “De libero arbítrio”, Agostinho constrói progressivamente a noção de livre-arbítrio como condição da responsabilidade moral, afirma explicitamente que “nada se poderia fazer com retidão a não ser por esse mesmo livre arbítrio da vontade” (II, 18, 47); trata-se da faculdade pela qual o ser humano pode deliberar e escolher, sendo ela pressuposto da imputabilidade moral. Contudo, essa capacidade não se identifica ainda com a liberdade plena, porque a vontade é capaz de movimento ambivalente: “a vontade se afasta do bem comum e imutável rumo ao seu próprio bem (…) aos bens inferiores, todos mutáveis” (III, 1, 1). Nesse desvio, o homem continua exercendo o livre-arbítrio, mas já não vive segundo a verdadeira liberdade, pois permanece formalmente capaz de escolher, ainda que escolha desordenadamente.
É por isso que Agostinho declara com clareza ontológica e moral: “a vontade é a causa do pecado” (III, 17, 48). O mal moral não procede de Deus nem da natureza criada, mas do uso perverso da faculdade volitiva. Assim, o livre-arbítrio designa a potência estrutural de escolha inerente à condição humana, enquanto a liberdade, em sentido pleno, consiste na ordenação da vontade ao Bem imutável. O primeiro pertence à constituição da natureza racional e a segunda supõe retidão interior e realização ética dessa potência.
No fim, a frase mais exigente que Agostinho nos deixou não é “ama e faze o que quiseres”, mas esta outra, menos citada: “somos verdadeiramente livres quando queremos o que Deus quer que queiramos”. Soa autoritário? Pode soar. Mas experimente passar um dia perguntando-se quem realmente orienta o seu querer: seus impulsos, a cultura que molda seus gostos, os algoritmos que antecipam suas escolhas, a genética que inclina seus temperamentos, os medos e carências que você mal percebe. A vontade nunca é neutra. A verdadeira liberdade nasce quando o querer deixa de ser refém dessas forças e se ordena a um Bem.
E você, caro leitor? Já tentou amar de verdade para ver o que acontece com a sua vontade? Ou prefere continuar escolhendo entre as opções anunciadas em banners?
Ana Kelly Souto é doutora em Filosofa e Ciências da Religião, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.

