O filósofo Agostinho e a violência sexual contra uma jovem de 17 anos
21 março 2026 às 21h00

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Ana Kelly Souto
Especial para o Jornal Opção
Abecedário de Agostinho: M de Mulher
Neste mês de março, dedicado ao Dia Internacional da Mulher, estava decidida a escrever a letra M do abecedário de Santo Agostinho, M de mulher. Em Agostinho, o tema é tenso e fecundo: surge no Gênesis, atravessa a relação com sua concubina e culmina na figura imensa de Mônica.
Tudo estava preparado para falar do protagonismo silencioso dessa mulher que não fundou instituições, mas imprimiu sua presença numa mente que marcaria o mundo, justamente quando se exige que o protagonismo feminino seja visível, afirmado e ativo.
Mas tudo desmoronou diante da notícia da menina de 17 anos atraída pelo ex-namorado para um apartamento em Copacabana, mais um episódio de violência contra a mulher que impede qualquer veleidade de espiritualização abstrata e nos obriga a encarar a barbárie que insiste em sobreviver em pleno século XXI. O M de março deixou de ser apenas M de Mônica e tornou-se M de mulher ferida, violentada, julgada. Foi a partir desse chão duro que revisitei Agostinho.
Mulheres, violência e catástrofe
Nada de Mônica, nada de Confissões, nada de diálogos místicos ou de educação do desejo. Escolhi um Agostinho cru e pouco celebrado, o bispo, o teólogo que, em 410, quando Roma foi saqueada e mulheres cristãs foram violentadas pelos godos, escreveu uma das afirmações mais contundentes sobre a dignidade feminina que o século V conheceu.
No mês da Mulher, a lição não veio cor-de-rosa, veio da catástrofe.
Em 410, o império desaba, Alarico entra em Roma e mulheres são arrastadas, violadas, humilhadas em praça pública. Os pagãos gritam: “Eis o que acontece quando se abandonam os deuses antigos!”. Os cristãos, aterrorizados, olham para o bispo de Hipona. O que ele responde não é um sermão piegas de “Deus vai consolar vocês”, mas uma sentença precisa, que ainda hoje é válida:
“A virtude que torna a vida boa tem seu trono na alma e daí governa os membros do corpo. O que outro faz com o corpo ou sobre o corpo, sem consentimento da vontade, não é culpa de quem sofre” (A Cidade de Deus, I, 16-19).
Em outras palavras, o que ele diz é: o estupro não rouba a castidade, a castidade não é integridade física, é decisão da vontade fortalecida pela graça. Se a alma não consentiu, o corpo pode ser invadido, mas a santidade permanece inviolada. O pecado é exclusivamente do violador. A vítima não é maculada e ponto final.
A morte da heroica Lucrécia
Agostinho vai mais longe e estende a crítica a Lucrécia, heroína romana que, após ser estuprada, se matou para “limpar” a honra; aliás, era uma prática habitual. Para ele, ela cometeu duplo erro: primeiro, achou que a honra estava no hímen; segundo, matou uma inocente, ela mesma, por medo do que os outros diriam. O suicídio não restaura nada, é homicídio extra, motivado por orgulho pagão. A mulher cristã, ao contrário, sobrevive carregando a cabeça erguida, porque sua pureza não depende do veredito da rua.

Imagine o escândalo na época: um bispo sustentar essa ideia publicamente, numa sociedade que media o valor da mulher pela integridade física — virgem ou não, “intocada” ou “sujada” — ouvir de um homem da Igreja: “Não, o corpo de vocês pode ser violado; a alma de vocês, não. E quem ousar dizer o contrário está mentindo contra Deus”.
Agostinho não era feminista nem progressista, era um homem do século IV que, em outros textos, repetia as hierarquias da época. Mas aqui, diante do sofrimento concreto de mulheres, ele prioriza a ontologia cristã sobre o machismo cultural. A alma não tem sexo, a vontade não tem gênero, a graça não pergunta se o corpo sangrou, pergunta se houve o não da vontade. E não é não.
Por que isso importa no mês da Mulher de 2026?
Porque ainda hoje a violência contra a mulher é medida pela mesma métrica antiga: o corpo. “Ficou marcada”, “deixou machucada”, “perdeu o valor”, “nunca mais será a mesma”. A cultura do cancelamento, a pornografia de vingança, o julgamento da vítima — tudo isso é Lucrécia moderna.
O sofrimento e o lugar de culpa
O que Agostinho faz não é consolo barato, significa que a mulher violada não precisa carregar uma vergonha que não é dela e que nenhuma lei, estatística ou discurso de empoderamento pode oferecer o que só a graça preserva.
O santo filósofo não romantiza o sofrimento, ele o desloca do lugar da culpa. Ao fazê-lo, restitui à mulher algo anterior a qualquer tribunal ou opinião pública e devolve à mulher algo que séculos de cultura patriarcal e de ativismo performático não conseguiram entregar: a certeza de que há um núcleo de si mesma que nenhum homem, nem invasor, nem legislador, jamais alcançará.
A ousadia de Agostinho em 410 nasce de uma arquitetura teológica anterior. Ele é filho do seu tempo, vive numa cultura em que a mulher é juridicamente subordinada, em que o corpo feminino é associado à fragilidade, à tentação, à condição de auxiliar. Ele próprio, em alguns textos, repete hierarquias herdadas. Mas é também o teólogo da Trindade que, ao meditar sobre Gênesis 1,27 — “Deus criou o homem à sua imagem; homem e mulher os criou” — desloca o eixo da discussão para um lugar inesperado. No De Trinitate, ao investigar onde exatamente reside a imagem de Deus, o pensador afirma que ela não está no corpo, mas na mente racional, na mens, essa capacidade de conhecer, recordar e amar, que espelha Pai, Filho e Espírito Santo. E na mente não há distinção de sexo, a diferença entre homem e mulher é corporal, a imagem é espiritual.
É verdade que, ao comentar 1 Coríntios 11,7, ele repete a tradição ao dizer que o homem é imagem e glória de Deus e a mulher glória do homem. Chega mesmo a sugerir que, considerada isoladamente, a mulher não expressaria a imagem divina na mesma plenitude que o homem, mas que o casal, na sua unidade, refletiria melhor o mistério trinitário. Essa tensão existe e não pode ser apagada.
Mas aqui está o ponto decisivo, para Agostinho, a imagem de Deus não se mede pelo corpo. Mede-se pela capacidade racional orientada a Deus, e essa capacidade é comum. Quando a mulher se renova “no espírito da mente”, conforme ele escreve no livro XII, retomando a ideia de que “não há macho nem fêmea”, ela participa plenamente dessa imagem. A alma racional feminina é tão capaz de contemplação quanto a masculina.
Se há subordinação, ela é histórica, funcional, cultural. A imagem é ontológica, e ontologia pesa mais do que costume.
Num mundo que continua a medir o valor da mulher pelo corpo — aparência, pureza, juventude, performance ou mesmo pela vitimização — a resposta agostiniana permanece desafiadora. O que define quem você é não é o que acontece ao seu corpo, nem o que a sociedade projeta sobre ele. É a orientação da sua vontade e a imagem de Deus inscrita na alma.
Agostinho não aboliu as estruturas sociais de seu tempo, mas plantou uma semente radical. Se a imagem divina reside na mente e nessa mente não há masculino e feminino, então qualquer sistema que negue à mulher igualdade essencial contradiz a própria lógica da criação. A hierarquia pode até persistir na organização social, mas ontologicamente ela já foi deslocada.
A pergunta que ele fez às mulheres violentadas de 410 ecoa até aqui: vocês permitirão que o corpo decida quem vocês são ou lembrarão que há em vocês um núcleo inviolável? Essa escolha não é pública, não é cultural, é da alma.
Se a voz dele ainda ressoa hoje, talvez não seja para que a repitamos integralmente, mas para levar essa semente à sua radicalidade, até que floresça sem medo e sem véu.
Sobre o confronto entre Agostinho e a tradição romana do pudor feminino, ver NEGREIROS, Cristiane. Agostinho contra Tito Lívio: pudor, estupro e suicídio feminino.
Ana Kelly Souto é doutora em Filosofia e Ciências da Religião, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.

