Fernando Cupertino

Gosto de visitar o cemitério de São Miguel, na velha cidade, lugar também designado pelos mais antigos como “a chácara de São Miguel”, quando o assunto em discussão é a morte.

Perto da igreja de Santa Bárbara, que do alto de um outeiro parece velar pela cidade, protegendo-a de raios e tempestades, o cemitério, ainda nos meus tempos de criança, tinha uma parte externa, onde eram sepultados os suicidas e os pagãos, ou seja, os pobres anjinhos, que morreram antes do batismo ou aqueles poucos que, por opção, não eram batizados na Igreja.

Aliás, uma igreja que parecia mais preocupada em excluir do que em oferecer amor, compaixão e misericórdia. A igreja de um Deus cruel e vingativo, em lugar de um pai compassivo e tolerante para com as fraquezas humanas.

Fraquezas que, aliás, eram invariavelmente invocadas nos testamentos dos sacerdotes do passado, ao deixarem seus bens a filhos e filhas que tiveram, “por fraqueza humana”, muitas vezes com mulheres diferentes.

Mas deixemos isso para lá, pois é tema para outra conversa. Voltemos ao cemitério de São Miguel.

Nos meus tempos de menino, ainda havia um imenso tamboril, muito velho, à direita da entrada, com o tronco oco, onde, diziam, alguém já havia feito morada.

Ao entrar, nota-se logo a existência de túmulos muito antigos, alguns dos quais com lápides em pedra-sabão com suas inscrições quase apagadas pela ação do tempo. Há, também, belas estátuas de anjinhos, de santos e mesmo imagens de Cristo em tamanho natural.

O costume antigo é o de se pagar uma zeladora que, frequentemente, cuida dos jazigos trazendo-os sempre limpos e, muitas vezes, floridos.

O paradoxo é que, não muito raramente, paga-se para que esse serviço seja feito, mas a família lá nunca vai homenagear e rezar pelos seus mortos, à exceção, às vezes, da rápida visita no Dia de Finados.

Interessante que, mesmo em tempos mais remotos, em 1900, por exemplo, quando a esperança de vida do brasileiro mal beirava os 30 anos, percebe-se que muitos dos que estão ali sepultados viveram até mais de 80 anos.

Mas há, ainda, os que morriam logo após o nascimento, devidamente batizados para que fizessem jus a uma sepultura cristã, ou ainda os que tinham sua vida ceifada na mais tenra idade.

Ao percorrer todo ele, detendo-me em silenciosa homenagem e preces aos familiares e amigos que ali dormem o sono da eternidade, não deixo de me recordar a última estrofe de um poema de Joaquim Bonifácio de Siqueira, transformado em modinha:

“Senhor, concedei-me,

Em troca das fundas

Angústias profundas

Que agora me dais,

Que possa o meu corpo,

Que a sorte desterra,

Dormir nesta terra

Que guarda meus pais”.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.