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Jô Sampaio

Especial para o Jornal Opção

No dia 11 de outubro de 2023, o poeta Aidenor Aires lançou, no auditório do TRE, um box contendo sua poesia completa distribuída em dez volumes, assim intitulados: “Amaragrei”; “Aprendiz do Desencanto”; “Rio Interior”; “Via Viator”; “XV Elegias”; “Na Estação das Aves”; “O Dia Frágil”; “Os Deuses São Pássaros de Vento”; “Itinerário da Aflição”; e “Reflexões do Conflito”.

Em “Amaragrei” (1978), o escritor Miguel Jorge diz, no início do prefácio:

“Amaragrei”, de Aidenor Aires, pode ser considerado como a geografia poética de uma raça, de uma vivência colocada em circulação a partir da linguagem criativa, ampliando-se para o plano social. […] o poeta canta o que tem para cantar, no seu tempo e na sua hora, desnudando-se e desnudando ‘realidades’”.

Detenho-me no primeiro poema — “A poesia” — do citado livro, do qual destaco os primeiros versos: “Primeiro me entregou o mar de cinzas/ Depois os olhos saltaram/ das mãos e os crisântemos, feito romãs/ ao avesso, despertaram a música/ A música era um marchar de cavalos/ na floresta, com a chuva nas crinas e ouro/ saltando das patas.”

Os versos acima nos revelam um dos moldes do poetar de Aidenor Aires.

Em uma leitura apressada, parece, ao leitor, tratar-se de um poema apenas metalinguístico, em cuja construção vão surgindo os processos da arquitetura poética usados por Aidenor Aires. Depois, com mais vagar, percebe-se que o poetar é o tema do poema e, nesse processo de poetar, vários elementos (metáforas, símbolos, imagens, mimésis, sinestesias etc.) vão surgindo como sustentação, equilíbrio e estilo dessa construção lírica.

A Literatura nos traz ricos exemplos de poetas que, em seus textos, usam o poetar como tema, como já nos demonstraram Vinicius de Morais, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e muitos outros. Como reforço, trago o seguinte fragmento:

“São muitas as maneiras de moldar os signos verbais, de tal maneira que não há um só grande poeta que no todo de sua obra não reserve explicitamente um espaço a este problema, não de uma forma teórica, discursiva, porém, por meio de poemas cujo tema é o poetar (ver como exemplo, em Carlos Drummond de Andrade, “O Lutador” e “Procura da Poesia”; em Cecília Meireles: “Motivo” etc.). É um equívoco reduzir tal fazer à chamada metalinguagem (Manual de Teoria Literária, org. Rogel Samuel, Vozes 1985).

Os olhos do poeta: lâmpadas do corpo

Já de posse do que lhe fora entregue, os olhos do poeta, na “função de lâmpadas do corpo” (Lucas 11,34), na sinestésica cumplicidade de visão e tato, saltam das mãos e assumem colorações múltiplas expressas na palavra “crisântemos” e estes despertam a música (a poesia).

Ainda, na presunçosa tentativa de atingir o campo semântico dos versos, o leitor se agarra à simbologia da mencionada flor, cujo significado, assim como suas tonalidades, passam por variações, dependendo da cultura, do lugar e das cores. Perfeição e beleza são alguns dos significados dados aos crisântemos, mas no poema de A. A., talvez, a iluminação detenha a maior carga conotativa no contexto, vez que, esse vislumbre epifânico se revela no final da primeira estrofe: “Vi então que era a poesia entrando/ em minha noite”.

Como se deu a entrada da poesia na noite do poeta?… “os crisântemos, feito romãs/ ao avesso, despertaram a música”.

O adjunto posposto a crisântemos (feito romãs ao avesso), além de indicar o modus operandi da flor, funciona também como um elemento ratificador da ideia de que a iluminação (a claridade, a luz) tenha sido liberada pelas “romãs ao avesso”, por conduzir o leitor às sementes da romã comidas por Perséfone, deglutição esta que, segundo a história mitológica, permitiu à deusa evadir-se do reino de trevas de Hades, ainda que temporariamente.

Aidenor Aires: sempre esteve inteiro dentro do seu universo poético, numa linha de força digna dos grandes poetas | Foto: Reprodução

“A música era um marchar de cavalos/ na floresta, com chuvas nas crinas e ouro/ saltando pelas patas.”

Nestes versos, percebe-se a invasão ou o poder de dominação da música (a poesia). O infinitivo (marchar) responde pelo ritmo, dando sonoridade, contribuindo para maior musicalidade do poema, o que não aconteceria se, em seu lugar, viesse o substantivo (a marcha). Uma das características do infinitivo é transmitir uma ideia de ação sem se vincular a um termo, a um modo ou pessoa específica.

O marchar de cavalos dá, pois, à música, a ideia de que essa experiência humana, para o poeta, transcende-o, como indivíduo, e o coloca momentaneamente conectado a um plano maior da existência. Um marchar assume, portanto, a mesma dimensão dos chamados verbos de vida (viver, amar, sonhar).

O poema, em sua estrutura narrativa, demonstra, nos determinantes espaciotemporais, a caminhada (um marchar de cavalos pela floresta), roteiro seguido pela matéria que fora entregue ao poeta no verso inicial (Primeiro me entregou o mar de cinzas enrolado). O numeral “primeiro”, seguido, várias vezes, pelo advérbio depois… depois… depois… cronometram a ordem em que se desenvolvem as ações indicadas pelos verbos entregar, acordar, habitar, ver, entrar. Tais ações verbais indicam as fases em que se deu a transformação do eu-poético, à medida em que essa descoberta vai iluminando o seu poetar.

“Depois me acendeu o peito/ e ergueu a mão em flama. O deus que habitava/ minha escuridão sorriu inteiro / Vi então que era a poesia entrando/ em minha noite.”

Esses versos mostram o momento em que se deu a epifania. A luz (flama) em oposição às trevas (minha escuridão), permite ao poeta entender: “Vi então que era a poesia/ entrando em minha noite”.

A palavra “então” nesse verso, tanto pode ser um advérbio de tempo (por indicar o momento em que se dera a revelação), como pode ser também uma conjunção conclusiva, vez que, conectada a outra oração do período (o tópico frasal), expressa uma conclusão. Temos, pois, uma preciosidade sintática com esse desenvolvimento do TP mediante circunstâncias diferentes (tempo e conclusão), dando maior realce às dissonâncias bem típicas da lírica moderna.

O eu-poético conclui, portanto, ter encontrado a matéria (música) da sua construção poemática, daí o sentir-se como um adormecido demiurgo que adquire luz (o deus que habitava/ a minha escuridão sorriu, inteiro).

Platão criou o conceito simbólico de demiurgo, para expressar a “visão de que o poeta, por meio do ato de criação artística, exerce um poder análogo ao de uma divindade criadora”.

E o poeta ouviu e entendeu a Música. A Filosofia da Arte afirma: “Toda arte aspira a atingir a condição da música” (p. 26), por outro lado, poder-se-ia afirmar que “a música aspira a condição de todas as artes”.

Na poética de A. A. se concretizam as afirmações acima, na reveladora identidade que se instalou na estética do seu poetar. A chegada da música despertou o demiurgo e lhe trouxe todas as possibilidades de realização literária. Percebe-se, no poema, que o conteúdo das imagens auditivas alusivas à música se identifica com o conteúdo das imagens visuais: “Ao imaginar-se uma composição musical, depreende-se a dinamização das imagens que se deve ao ritmo, fator que harmoniza a música com as outras artes. Registra-se, assim, na sensibilidade estética uma emoção sinestésica” (MTL, p. 26, org. Telênia Hill e outros, Editora Vozes).

Entrar no mundo para beber o sal e o ar

Uma vez de posse da música, o poeta prossegue expondo, nos versos seguintes, o efeito desse deslumbramento: “Como um ladrão furtivo. Um amoroso ladrão / com sua cítara vibrando/ bem no fundo ouvir dos meus ouvidos/ Saí sozinho com minhas estrelas,/ entrei pelo mundo como quem realmente/ entra pelo mundo.”

Com tons impressionistas, o poeta segue exprimindo experiências subjetivas, com foco nas sensações com que ele busca capturar a imprecisão meio cósmica que a entrada da poesia lhe trouxe, mediante linguagem sugestiva de cautela (como um ladrão furtivo), colorida e reluzente (Saí com minhas estrelas), carregado de sonoridade (com sua cítara vibrando).

Palavras que sugerem mais do que afirmam, cabendo ao leitor o papel de sorver, ainda, sem total poder de degustação, a carga poética do poema, embora o hermetismo e a ambiguidade não sejam tão intensos.

Os críticos que expõem as ideias do poeta volatizam a substância poética; a natureza dos pensamentos é indiferente como indiferente é a paisagem que inspirou o poeta, e, longe de sonhar traduzi-los, é preciso aceitar a obscuridade, olhar uma imagem, tornar a sentir uma emoção, isto ê o suficiente (Jean-Yves Tadié, in “A Crítica Literária no Século XX”, p. 55).

Que missão trouxe ao poeta o entendimento dessa “Música”? Qual deveria ser sua postura consoante essa revelação? Como seria, doravante, seu “estar no mundo”?

“Entrei pelo mundo como quem realmente/ entra pelo mundo/ para beber o sal, e o ar/ para celebrar a terra, a flor e o sangue,/ Rouca palavra é o que tenho./ Uma prole de silêncios de meu ventre/ escorre pelo chão/ dos ofendidos, dos humilhados/ O chão dos esquecidos.”

Percebe-se que, ainda no transe epifânico, no delírio da descoberta do que viera “no mar de cinzas enrolado”, veio também a tomada de consciência (a quem muito foi dado, muito será cobrado — Lc 12,48) e o poeta, ainda no deslumbre da descoberta, consegue discernir o poder de sua palavra, tomada de consciência que eleva a poesia ao nível universalizante.

O poeta descobre, assim, a dupla missão da Música: além da decifração do difícil mundo da palavra, a poesia deve, também, ecoar a voz dos silenciados, dos ofendidos, dos humilhados e dos esquecidos.

“Dos meus olhos, o mar de sangue/ onde os homens amargos enxertaram/ a agonia de seus deuses naufragados.”

Novamente, com o advérbio “depois’”, o poema prossegue indicando ênfase nas circunstâncias temporais e sequenciais das ações. Verifica-se, portanto, o ritmo narrativo das mudanças operadas no sujeito-poético após sua tomada de consciência sobre o “Ser-no-mundo”.

“Depois vou dizendo o meu/ território abismal. Perto do chão, os tornozelos e, alto,/ a flama, o amor entre os cantos que desata/ meu peito sobre o campo/ onde pateiam seus corcéis de espanto, / Meu riso entrando no vento/ uma faca de luz na escuridão.”

O verso “Faca de luz na escuridão” resgata a alegoria platônica da caverna, os versos seguintes, porém, mostram o obstáculo que a fragilidade da palavra encontra como poder de renovação, de depuração.

“Minha palavra rouca/ como uma roupa no chão./ O chão da minha pátria sem palavra.”

Vê-se o dialogismo (inconsciente, talvez) com a “Pátria minha, tão pobrinha!” de Vinicius de Morais e a voz do grande lusitano (Camões) ecoando: “No mais, musa, no mais, que a lira tenho destemperada e a voz cansada, não do canto, mas de ver que venho a cantar a gente surda e endurecida”.

“Esse poema (A Poesia) de Aidenor Aires, confirma os dizeres de Mario Quintana: “A poesia não se entrega a quem a define” e este meu ensaio se apoia em T. S. Eliot: “A poesia pode comunicar-se ainda antes de ser compreendida”. Assim, com limitadas compreensões, o leitor encontra sua via de comunicação para se chegar à incompreensibilidade inquietante e fascinante dos poemas de Aidenor Aires.

Percebe-se certo desencanto com o alcance da palavra, insuficiente e inadequada para descrever e anunciar a totalidade das experiências humanas na realidade e no sofrimento. “O chão da minha Pátria sem palavra”, pátria afásica, sem voz, sem poder para se expressar e sem cognição para entender.

Aidenor Aires Pereira é poeta, contista, cronista, ensaísta e administrador cultural, mereceu vários títulos, destaques e medalhas. Reconhecido por lei Cidadão Goiano em 2009. Cidadão goianiense e do município de Caçu (GO), além de vários prêmios literários e condecorações em razão de sua obra.

Publicou os dez livros de poesias citados no início deste ensaio, além de outros, e vários em prosa. Foi presidente da UBE-GO; do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, da Academia Goianiense de Letras, presidente da Academia Goiana de Letras até dezembro de 2025. “Amaragrei” foi premiado no III Concurso Nacional de Poesia instituído pela Caixa Econômica Federal e Secretaria de Educação e Cultura do Estado.

Como disse o escritor Miguel Jorge:  Aidenor sempre esteve inteiro dentro do seu universo poético, numa linha de força digna dos grandes poetas.

Jô Sampaio, prosadora, poeta e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.