Miriam Bianca do Amaral Ribeiro

A música de Aluísio Cavalcante, filho do saudoso poeta Gilson Cavalcante, em parceria com Gregory Carvalho, é um exemplo da boa qualidade musical que impera no Brasil. Mas que pouca gente conhece, porque transita fora da mídia tradicional. A professora Míriam Bianca do Amaral Ribeiro, da UFG, faz uma radiografia do que a música “Nos quartéis da ilusão”, a poesia nela contida, quer nos mostrar, numa alusão a nossa difícil e complicada realidade brasileira.

Há pouco ouvi a recém-lançada canção “Nos quartéis da ilusão”, composição de Aluísio Cavalcante e Gregory Carvalho (ouça você também: https://tinyurl.com/2ha82zbh) e muita coisa ebuliu cá por dentro. 

Nunca foi tão fácil e imprescindível refutar a máxima positivista que quer nos convencer que a história é o estudo do passado.

Tudo que se assiste nos dias que se passam nos remete ao percurso, às permanências, assim como às resistências, às lutas, aos que deram o melhor de suas vidas para contribuir para outras formas de sociabilidade.

A história não é uma linha reta, vermífugo não é vacina e nem a Terra é plana. Quem diria que, num tempo em que empresas montam pacotes turísticos para a exosfera, ainda se tenha que travar debates que remontam 600 anos atrás.

 E eis, que, mais uma vez, os quartéis nos ensinam, repetidamente, a antiga lição. Quem ainda não aprendeu, que não deixe pra depois. Cada aprendizado, cada enfrentamento ao negacionismo e ao protofascismo, custa vidas, muitas.

Custa os olhos e o olhar dos que tiveram seu futuro confiscado. Custa até mesmo as vidas “dessa gente toda na missão”, bobos de uma corte que a qualquer momento lhes corta, mesmo com aquela bandeira nas mãos.

De qual bandeira falamos? Uma nação não é um todo uníssono, só porque nascemos sob as mesmas fronteiras.

Aluísio Cavalcante 1

A nação, na modernidade ocidental, é, antes de tudo, uma invenção da hegemonia para assegurar a transição do esgotamento medieval à instalação plena do capital.

Sob o manto desbotado estão as desigualdades, o genocídio, os preconceitos, a exclusão, a expropriação e depredação da vida. Não somos todos iguais porque somos brasileiros. Não estamos todos do mesmo lado.

Há brasileiros, que, abraçados a esse “manto”, debocham da falta de ar dos que não alcançaram a vacina, pedem a volta homenageada dos que torturaram, fazem passar a boiada sobre terras, florestas, rios e a vida que nela resiste.

Os coturnos, parte do aparato de defesa da hegemonia, pisam as gargantas da contra hegemonia e fazem bucha de canhão os que se aquartelaram em seus portões à espera do momento do ataque. Não deixa de ser insano, mas é projeto. Não deixa de ser risível, mas é uma tragédia.

Defender uma nação é defender seu povo e sua natureza, indissociáveis. Esse é o mais pleno amor, e respira “de Moscou à Quixeramobim”.

O amor por todos está no respeito a cada um. O amor pleno, porque humano, está em nos reconhecermos parte da natureza e, também, trabalho.

Quando Ailton Krenak diz que o rio, aquele que foi doce, é nossa mãe, não é uma metáfora. É o amor que nos impulsiona à luta. Um amor desprendido, sem proprietários, doação de vida, suor e consciência.

Amor que inventa emancipação e rima com liberdade solidária, porque igualitária. Esse sim, nos unifica contra quartéis da ilusão, nos move e nos alimenta, pois que o futuro a todos pertence.