Graça é um conceito central do pensamento de Agostinho de Hipona
07 fevereiro 2026 às 21h00
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Ana Kelly Souto
Especial para o Jornal Opção, de Portugal
O abecedário de Santo Agostinho: G de Graça
A letra G do Abecedário conduz a graça — conceito central do pensamento de Agostinho de Hipona e razão pela qual ele ficou conhecido, na tradição cristã, como o “Doutor da Graça”. Esse título não é apenas honorífico: reconhece o fato de que foi o pensador que levou mais longe a reflexão sobre a dependência radical do ser humano em relação a Deus, especialmente no que diz respeito à liberdade, ao mal e à salvação. Escolher a graça como verbete desta semana é confrontar uma das ilusões mais persistentes do nosso tempo: a de que o homem pode bastar-se a si mesmo.
Existe um desgraçado em Santo Agostinho?
Chamamos alguém de “desgraçado” quando tudo lhe falta: sorte, dinheiro, saúde, rumo. Mas o termo vai além da simples carência. No uso cotidiano, o desgraçado é também o mau, o sem escrúpulos, aquele cuja conduta provoca reprovação moral. A palavra carrega um julgamento ético antes mesmo da análise teológica. Tomada em seu sentido mais rigoroso, ela revela algo ainda mais perturbador: desgraçado é aquele que vive sem graça. É nesse ponto que a pergunta deixa de ser retórica e se torna filosófica: há, para Santo Agostinho, alguém verdadeiramente desprovido de graça? O senso comum responde prontamente que não. Agostinho, no entanto, oferece uma resposta menos confortável.
Vivemos num tempo que exalta a autonomia como virtude suprema. Supomos que nos fazemos sozinhos e que o êxito moral depende apenas de esforço, método e disciplina emocional. Rejeitamos depender — e ainda mais dever algo a quem não controlamos. Nesse cenário, a palavra “graça” soa quase ofensiva, pois remete a gratuidade, dom e dependência, exatamente o que a lógica do mérito recusa.

O mito da autossuficiência
Agostinho vai na direção oposta do imaginário moderno da autossuficiência. Para ele, o problema humano não é a falta de capacidade, mas o excesso de confiança em si mesmo. A natureza humana é boa — foi criada boa —, mas não é autônoma. Ferida pelo pecado, ela não perde a liberdade, mas perde a saúde. Um doente ainda caminha, mas não caminha bem sem auxílio. Eis o ponto decisivo do pensamento agostiniano: sem a graça, o ser humano age, mas perde a direção.
A própria palavra graça ajuda a compreender esse diagnóstico. Derivada do latim gratia, ligada à ideia de favor recebido e reconhecimento, ela indica desde a origem algo que se recebe, não algo que se conquista. Em Agostinho de Hipona, esse sentido é aprofundado filosoficamente: a graça não é um acréscimo moral externo nem uma recompensa pelas obras, mas a ação gratuita e interior de Deus que antecede e sustenta a vida moral. Por isso, o filósofo afirma que não apenas o agir correto, mas o próprio querer o bem é dado por Deus (A graça e o livre arbítrio, 17, 33).
Quando a razão não basta
A história recente oferece uma confirmação dramática desse diagnóstico. O século XX acreditou como poucos no progresso, na razão técnica e na ciência como caminho seguro para a humanização. Auschwitz mostrou o contrário: foi precisamente uma civilização altamente racionalizada que organizou o extermínio em escala industrial. Ali, a razão funcionou; o que falhou foi a orientação da vontade — e isso obriga a rever o que entendemos por “humano”. Falamos o tempo todo em “valores humanos” e em “tratamento humanizado”, como se o humano fosse, por si só, garantia de bondade. Mas o mal também é humano. A crueldade, a mentira e a indiferença nascem de vontades humanas muito lúcidas. Em Agostinho, o problema não é a falta de humanidade, mas a humanidade deixada a si mesma. É assim que Auschwitz se torna inteligível: quando a liberdade permanece sem graça, ela não se orienta espontaneamente para o bem. O livre-arbítrio continua capaz de escolher, mas escolhe o mal que lhe convém (Enchiridion, 31). Sem a graça, a vontade age, decide e escolhe — mas escolhe mal. Por isso, nenhuma humanização baseada apenas em empatia ou boa intenção é suficiente. A graça não nega o humano; ela o ordena. Sem ela, o humano não se eleva: gira em torno de si.

É nesse sentido que Agostinho pode afirmar que a graça não elimina a liberdade, mas a liberta (A correção e a graça, 2, 4). Não a substitui, não a constrange, mas a reconduz ao seu fim próprio, que é o bem. Auschwitz permanece, assim, como o nome histórico do que Agostinho já intuía filosoficamente: sem graça, a razão não salva, o progresso não redime e a liberdade não basta.
Aqui aparece, enfim, o “desgraçado” agostiniano. Não é o miserável social nem o fracassado moral, mas quem acredita bastar-se, faz da própria vontade a medida última do bem e se toma como princípio de si mesmo. Isso não significa desprezar o esforço humano. Ao contrário, ninguém age no lugar de ninguém. O ponto decisivo, porém, é distinguir agir de iniciar. No pensamento agostiniano, o próprio desejo do bem já é efeito da graça: o primeiro movimento interior não nasce de nós, é despertado em nós. Não somos marionetes, mas tampouco autores absolutos de nós mesmos. A graça funda a liberdade, cura a natureza e torna possível a responsabilidade. Sem ela, o homem age, mas não é propriamente livre é apenas insistente.
Para Agostinho, o primeiro pecado é o orgulho. Em A Trindade, ele afirma que a alma, ao amar a si mesma de modo desordenado, abandona o universal para se fechar no particular, deixa de ser um ser para Deus e passa a ser um ser para si. É nesse movimento que nasce o orgulho, raiz de todo pecado.

O homem não apenas se ama, ama ser amado. Daí a afinidade quase espontânea com o mundo das imagens, das exposições calculadas de si e das vitrines digitais. Ninguém apresenta uma versão “mais ou menos” de si mesmo, pode ter certeza de que a foto do perfil é sempre a melhor que se tem. Constrói-se, assim, uma imagem idealizada, cuidadosamente editada, destinada ao próprio espelho e ao olhar alheio. Essa fabricação de si cria uma máscara, uma forma de mentira que não apenas alimenta o amor-próprio, mas também desperta o ressentimento e o ódio. Desse modo, o mal passa a circular sob a forma da aparência.
O desgraçado e o orgulho
O homem separado de Deus torna-se um homem sem graça e, nesse sentido, um homem desgraçado. No fundo dessa análise está a questão do mal. Após a queda, a liberdade humana permanece ativa, mas passa a se mover por inclinações desordenadas, escolhendo não simplesmente entre o bem e o mal, mas o mal que melhor lhe convém. Ferida, a vontade já não se orienta espontaneamente para o bem. É por isso que o esforço humano, embora real, revela-se insuficiente. A salvação não é obra solitária nem resultado de desempenho moral. O que entra em cena é a graça, recebida como dom e não como conquista. Trata-se de uma das teses mais exigentes do pensamento agostiniano e também uma das mais difíceis de aceitar hoje, pois confronta diretamente a crença persistente de que o homem pode bastar-se a si mesmo.
Há, em Agostinho, um claro pessimismo antropológico. Sozinhos, tendemos sempre ao mal que nos é conveniente. Para romper esse círculo, é necessária uma intervenção que não nasce do próprio homem. Isso nos coloca, inevitavelmente, numa posição de dependência radical.
É aqui que surge o ponto mais desconfortável do pensamento agostiniano: a ideia de eleição. Quem é alcançado pela graça? Qual é o critério? Nenhum que esteja ao alcance humano. Não adianta exibir virtudes, acumular méritos ou reivindicar superioridade moral, diante de Deus, ninguém pode exigir a graça como direito.
Essa perspectiva contrasta com o imaginário contemporâneo. Nosso tempo é marcado por projetos de salvação imanente, sustentados pela convicção de que é possível realizar o “céu na terra” exclusivamente por meio dos esforços humanos. Esses projetos recebem muitos nomes — progresso, efetividade, construção de um mundo melhor, transformação social. O ponto central, porém, permanece o mesmo: a confiança quase absoluta de que o homem dispõe, em si mesmo, de todos os recursos necessários para se redimir.
Desse modo, a política e a ciência passam a ocupar o lugar que antes era atribuído à salvação. Ambas são investidas de uma confiança totalizante, como se pudessem, por si mesmas, responder aos dilemas mais profundos da condição humana. A experiência histórica, porém, mostra que o avanço técnico e científico não caminha automaticamente com o avanço moral.
Algo semelhante ocorre em certas espiritualidades contemporâneas, nas quais a adesão se dá apenas enquanto nada exige mudança interior. A espiritualidade é acolhida na medida em que se ajusta ao sujeito, aos seus hábitos e às suas escolhas. O resultado é a ausência de conversão, de deslocamento e de ruptura, de modo que tudo permanece exatamente como está.
A postura, segundo a qual a salvação é sempre obra própria e nunca dom, é precisamente o que Agostinho recusa. Para ele, a própria palavra graça, ligada à ideia de favor e dom acolhido, já indica algo que se recebe, não algo que se conquista. Esse sentido é aprofundado filosoficamente: a graça não é um acréscimo moral externo nem uma recompensa pelas obras, mas a ação gratuita e interior de Deus que antecede e funda o próprio querer humano. Por isso, o pensador afirma que não apenas o agir correto, mas o próprio querer o bem é dado por Deus (A graça e o livre-arbítrio, 17, 33). Sem essa ação interior, o livre-arbítrio permanece ativo, capaz de escolher, mas incapaz de viver retamente (Enchiridion, 31). É nesse sentido que ele pode afirmar que a graça não elimina a liberdade, mas a liberta (A correção e a graça, 2, 4).
O desconforto da graça
Não sabemos se temos a graça de Deus — e é justamente por isso que Agostinho nos pede uma atitude radical: agir como quem a recebeu, a partir da humildade. Não por segurança, mas por responsabilidade. É nesse ponto que a letra G já prepara a próxima, porque, em Agostinho, a graça não eleva o homem a si mesmo, mas o dispõe à Humildade.
No fim das contas, a pergunta decisiva não é se todos possuem graça, mas se estamos dispostos a reconhecê-la. Em Agostinho, o desgraçado não é o que cai ou fracassa, mas aquele que se fecha em si mesmo e transforma a própria vontade em medida última do bem. Esse é o verdadeiro desconforto da letra G: lembrar-nos de que a liberdade não nasce da autossuficiência, mas de uma dependência bem ordenada e de que, sem a graça, o homem não cai por fraqueza, mas por orgulho.
Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.

